Retórica conservadora

          ALGUNS indicadores da realidade social brasileira são mesmo de estarrecer. É estarrecedor constatar, por exemplo, que 49% das terras agricultáveis no Brasil estão concentrados nas mãos de 1% dos proprietários. Isto é, apenas 1% dos proprietários e produtores rurais detêm praticamente a metade do solo brasileiro destinado à produção agrícola e pecuária.

             Diante desse quadro, é impossível ser contra a reforma agrária. No entanto, essa reforma não sai do papel. E o discurso contrário a ela, destilado por autoridades, pela mídia e até pelo senso comum, costuma se apoiar basicamente em três argumentos: (a) a desapropriação de terras pode ameaçar a produtividade do país, (b) os trabalhadores beneficiados pela distribuição da terra não conseguem produzir, e (c) muita terra tem sido entregue a pseudotrabalhadores, que delas não necessitam, e que acabam negociando seus módulos.

            Há um outro problema social igualmente grave que tem merecido um grande esforço do governo para saná-lo. É o déficit de mais de 6 milhões de moradias no Brasil. Para enfrentar esse problema, o Governo Federal lançou em 2009 o programa Minha Casa, Minha Vida que já disponibilizou 1 milhão de moradias à população carente. Porém, tenho visto nas folhas (como diria Machado de Assis) que também esse programa nem bem nasceu já está ameaçado.

            E as ameaças são muito parecidas com aquelas que se levantam contra a reforma agrária, ou seja, noticiam que o programa Minha Casa, Minha Vida está condenado ao fracasso pela inadimplência, pela entrega de casas a quem delas não necessita, e pela negociata entre os beneficiados que acabam vendendo suas moradias; comercializando-as como se fossem mercadorias.

          Argumentos parecidos com esses surgem também no discurso daqueles que se opõem a algumas ações afirmativas como, por exemplo, a cota para afrodescendentes nas universidades brasileiras. Apesar da histórica dívida social para com a população negra no Brasil, discriminada desde os tempos da escravidão até os dias de hoje, é muito comum ouvir argumentos de que as cotas ameaçam a cordialidade entre os brasileiros, prejudicam os mais capacitados, aprofundam o preconceito e a discriminação, e ainda fazem despencar a qualidade do ensino superior no Brasil.

             Esse grupo de argumentação, utilizado contra a reforma agrária, contra o programa de habitação popular e contra as cotas nas universidades tem pelo menos um ponto em comum: busca fazer crer que as reformas sociais no Brasil não dão certo, e, ainda por cima, podem piorar a situação que querem resolver.

           Quando ouço essa retórica conservadora, me lembro na hora de um excelente livro, de autoria do economista alemão Albert O. Hirschman, cujo título é exatamente “A retórica da intransigência: perversidade, futilidade, ameaça”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Essa retórica, diz o autor, está apoiada em opiniões reativo-reacionárias que, por sua vez, apoiam-se nas teses da perversidade, da futilidade e da ameaça.

           Segundo a retórica conservadora “qualquer ação proposital para melhorar um aspecto da ordem econômica, social ou política só serve para exacerbar a situação que se deseja remediar (“tese da perversidade”). A “tese da futilidade” sustenta que as tentativas de transformação social serão infrutíferas, e que simplesmente não conseguirão ‘deixar uma marca’. Finalmente, a “tese da ameaça” argumenta que o custo de qualquer reforma ou mudança proposta é alto demais, pois coloca em perigo outra preciosa realização anterior”.

          Num país que tem os problemas sociais que o Brasil tem, já passou da hora de superar esse tipo de discurso reacionário, tacanho e malicioso, que tanto contribui para o atraso desta terra. Até porque aqueles argumentos utilizados contra as reformas sociais no Brasil não encontram ressonância nenhuma na realidade.

              De fato, a imensa maioria dos assentados da terra é responsável pela produção de importantíssima parcela dos alimentos consumidos no país, em regime de economia familiar e sem degradação ambiental; os inadequados ou inadimplentes do programa de moradia popular compõem a minoria, uma taxa normal de inadimplência; e as cotas para afrodescendentes se revelaram um bom mecanismo de acesso democrático à universidade, cujos beneficiados têm tido desempenho semelhante ao dos demais estudantes do ensino superior.

               Incrível, pode observar: o discurso conservador está sempre com medo do futuro e com saudade do passado: as mudanças que poderiam vir pela frente (no futuro) são sempre ameaçadoras, perversas ou inúteis. Para os conservadores, via de regra, aquilo que se tinha antigamente (no passado), aquilo sim, era realmente bom – portanto, mudar pra quê?

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s