Pacto com o demônio

             O SISTEMA brasileiro de governo é chamado de “presidencialismo de coalizão” (eu acho que é “presidencialismo de cooptação”) justamente pelo fato de que o presidente da república, para governar, precisa fazer alianças no Congresso Nacional visando a composição de uma base aliada que dê sustentação política as seus programas, projetos e decisões.

         Em razão da promiscuidade ideológica dos partidos brasileiros, e do histórico fisiologismo da nossa política interna, todos os presidentes da república precisaram recorrer a expedientes pouco ortodoxos para fazer alianças e conseguir formar a tão pretendida “base aliada” no parlamento. Dentre esses expedientes estão o oferecimento de cargos, de ministérios, verbas e até de dinheiro (mensalão) aos políticos e partidos. Essa prática é o que muitos chamam de “toma lá, dá cá” da política nacional, uma prática que alimenta o fisiologismo político e transforma o tal “presidencialismo de coalizão” em “presidencialismo de cooptação”.

                 Pois bem… Queiramos ou não, é assim.

               Às vezes o presidente da república tem que fazer mesmo “pacto com o demônio”, e pior, tem que fazer “coisas do diabo” para assegurar a governabilidade e a sustentação política no Congresso Nacional. Mas, o curioso é que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso descobriu isso somente agora. Há pouco tempo, numa entrevista concedida à imprensa, o ex-presidente afirmou que Dilma Rousseff está fazendo um “pacto com o demônio” ao fazer aliança com o PMDB, apenas para tentar salvar seu governo.

           O mais curioso ainda é que, durante seus dois mandatos, o próprio Fernando Henrique fez aliança o tempo todo com esse mesmo “demônio” do PMDB. E fez mais. Tinha em sua base aliada o PFL do senador baiano Antônio Carlos Magalhães, político fisiológico e truculento, conhecido nos bastidores do Congresso como “Toninho Malvadeza”, justamente pelas diabruras que fazia na política nacional.

              Esse Fernando Henrique não tem jeito mesmo!

              Mas, a mim ele não engana, não. Sua lábia intelectual, suas atitudes – ora ambíguas ora contraditórias -, bem como aquele seu jeito ligeiro e pragmático de falar, argumentando e atropelando as palavras, têm um que quer que seja de… suspeito. De fato, o professor doutor Fernando Henrique Cardoso, enquanto era docente da USP, chegou a ser considerado o “príncipe da sociologia” no Brasil. Porém, depois de encerrar precocemente sua carreira acadêmica mandou esquecer tudo o que ele havia escrito na academia – esquecer, portanto, até mesmo o que ele escreveu com bolsa financiada pelo dinheiro público.

            O tal “príncipe-sociólogo” apareceu no mundo da política como militante de esquerda nos anos 70, filiado ao antigo MDB, dizendo-se perseguido pela ditadura dos anos 60/70. Todavia, ele mesmo acabou de admitir na Comissão Nacional da Verdade que jamais conseguiu condenar nem fazer oposição por inteiro ao regime militar, justamente em razão de suas origens familiares, uma vez que era bisneto, neto e filho de militares.

             Fernando Henrique Cardoso, na academia, era tido e havido como intelectual marxista de esquerda. Mas, enquanto presidente da república fez um governo de ultradireita, levando a cabo uma profunda reforma econômica neoliberal que arrasou o patrimônio do Estado brasileiro e escancarou a economia do país ao grande capital internacional.

                  Na presidência, FHC jacta-se de ter acabado com a inflação e de ter promovido a estabilidade da moeda brasileira. Mas, na verdade, junto com a inflação ele acabou com o nosso dinheiro, pois, aprofundou a dívida externa perante os credores internacionais, elevando os juros básicos à casa dos 45% ao ano, impulsionando assim o processo de aumento vertiginoso da nossa dívida interna e externa.

             Ainda como presidente, FHC fez uma reforma da previdência social dizendo que aposentadoria antes dos 50 anos era pura “vagabundagem dos brasileiros”, e isso num país de pobres e miseráveis. Mas, ele próprio, como professor da USP, aposentou-se antes dos 5o anos, encerrando sua carreira acadêmica aos 47 anos de idade para se dedicar inteiramente à vida política.

             Apesar da sua alegada preocupação com “os pobres e miseráveis” do país, na última eleição presidencial, em mais uma de suas inúmeras declarações contraditórias (ou cínicas, não sei!), afirmou de maneira arrogante que a presidenta Dilma Rousseff se reelegeu com o voto dos eleitores mais pobres, justamente porque os pobres não sabem votar.

               Agora, o tucano emplumado anda aí a dizer que Dilma Rousseff deveria renunciar ao cargo de presidenta por causa da baixa aprovação de seu governo, que gira em torno de 8%; mas ele próprio, no governo do país, nunca pensou em renunciar à presidência da república quando sua popularidade andava ao rés do chão – nos mesmíssimos 8% de aprovação popular.

              E por aí seguem as contradições, ambiguidades e astúcias desse antigo galã da USP; desse político brasileiro que dizem ser um “blefe” (Mino Carta); um homem que ninguém sabe ao certo se é “príncipe” ou se é “sapo”. Eu, cá comigo, como diria minha avó, que era uma mulher muito sábia e não comia nada amanhecido, digo também: “Quem quiser que o compre”.

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