Deve ser esquisito

        NÃO é mole, não. Deve ser muito esquisita a sensação da pessoa que defendeu ardentemente a moralidade política, que pediu a implacável punição dos corruptos, que ainda deseja sinceramente a “limpeza moral” do país, e que, para conseguir tudo isso até admitiu derrubar uma presidenta eleita pelo povo; mas no dia seguinte acordou com Michel Temer na presidência da república e Eduardo Cunha como vice-presidente – além do Renan Calheiros para ocupar a presidência, na eventual falta desses dois.

       Deve ser esquisito derrubar um governante que combateu, e que mais criou mecanismos jurídicos eficazes de combate à corrupção, que nunca interferiu nas investigações; e depois perceber que colocou no lugar dele, no mais alto posto da república, exatamente dois políticos investigados (um deles já formalmente acusado) por corrupção política.

         Deve ser esquisito sair por aí dizendo que quer “passar o país a limpo”; e depois perceber que entregou o serviço da “limpeza” nas mãos de quem pode sujar ainda mais o país que se pretendia limpar.

            Deve ser esquisito tirar da presidência da república um partido de origem popular, que representa a classe trabalhadora; e depois ver que colocou no lugar dele um partido notoriamente fisiológico, oportunista, que representa a elite e a aristocracia brasileira mais impopulares e mais arcaicas.

           Deve ser esquisito apoiar a deposição de uma presidenta da república porque ela teria cometido crime; e depois constatar que essa presidenta, na verdade, foi derrubada “Porque Deus quis”, “Porque meu filhinho quer”, “Porque meus outros filhos também querem”, “Porque meu neto merece”, “Porque minha mulher acha”, “Porque meu pai vai ficar feliz”, “Porque minha mamãe também”, “Porque minha sogra não aguenta mais”, “Por que meu sogro também não”, “Porque minha avó pediu”, “Porque meu avô exige” e “Porque até meu tataravô desejaria que assim fosse” .

             Deve ser esquisito convencer-se de que defende a ética na política, a moral e os bons costumes; e depois constatar que está combatendo esse “bom combate” ao lado de uma mídia irresponsável, de parlamentares provincianos e oportunistas, de políticos corruptos e traiçoeiros, de religiosos fanáticos e espertos, de apologistas da violência e da tortura, além de outras “cositas mas”, que Mikhail Bakunin bem sabia quais eram essas “cositas” quando dizia que os parlamentos constituem o “reinado da mediocridade”.

        Deve ser esquisito sair pelas ruas clamando euforicamente pela condenação implacável de uma presidenta que dizem ser corrupta; e depois verificar que os que a condenaram são mais corruptos ainda, e que na verdade eles não queriam combater a corrupção, mas apenas derrubar a presidenta para garantir a vitória nas próximas eleições presidenciais.

           Enfim, deve ser muito esquisito tomar um passa-moleque desses e depois, no dia seguinte, ficar com aquela “carinha de cachorro que fez cocô na igreja”, ou de quem sobrou com o “mico na mão”, sentindo-se sozinho, abandonado ou mal-acompanhado, impotente para prosseguir nessa cruzada moralista dos que pretendem “limpar” o país… Mas, o mais esquisito mesmo é não achar nada disso esquisito!

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