A turma da limpeza

           UMA COISA ninguém pode negar: aqueles que enfiaram na cabeça dos brasileiros, da noite pro dia, que a corrupção é a nossa maior chaga e o único inimigo a ser combatido neste momento, o fizeram com uma competência invejável – poucas vezes se viu tantos brasileiros tão preocupados com a corrupção.

           A preocupação é tão grande, e tão desvairada, que há até mesmo quem queira “trocar tudo”: trocar o governo (mas só o governo federal), trocar os deputados, trocar os senadores, trocar os ministros de Estado, trocar os ministros do Supremo Tribunal Federal, trocar os políticos da situação, trocar os políticos da oposição, trocar o síndico, o porteiro e trocar o que vier pela frente – a ideia é fazer uma faxina geral: limpar todos os corruptos, limpar o Brasil e começar tudo de novo – do zero.

             Essa “turminha da limpeza”, depois de muito tempo, depois de muitas delações, depois da famosa “lista da Odebrecht”, acabou admitindo, com muito custo, muito a contragosto, que a corrupção não é coisa nova, nem é coisa de um partido só. Admitiram, finalmente (com o nariz torcido), que o sistema político brasileiro é todo ele corruptível, pois é financiado pelo poder econômico.

                A partir daí reconheceram – até que enfim! -, que a corrupção é sistêmica, ou seja, é uma corrupção inerente ao sistema político-eleitoral. Quando perceberam isso – eureka! – saíram ruidosamente por aí, com cara e pose de indignados, repetindo o refrão: “Fora todos os corruptos, independentemente de partido”.

              Porém, mesmo sabendo que a corrupção é uma “propriedade” do sistema político, mesmo sabendo que esse sistema financiado pelo dinheiro dos poderosos sempre será corruptível, mesmo assim, a turminha da limpeza não fala em “limpar” o sistema, ela não solta um pio contra o financiamento privado de campanha, nem contra a promiscuidade dos “partidos de aluguel”; essa turminha só quer saber de limpar os corruptos, e não a origem da corrupção; querem combater o efeito, não a causa.

            (A turma da “higiene moralista”, tal como os políticos e os partidos da direita, não pensa em acabar com a financeirização das nossas eleições, com a promiscuidade ideológica dos partidos, com a infidelidade partidária, com a farra dos partidos nanicos, que só servem de “moeda de troca”, nem com as distorções representativas do nosso sistema eleitoral – ela só pensa naquilo: a eliminação individual dos corruptos, um por um, sem tocar nas causas da corrupção.)

           Tá na cara que se fosse realmente possível trocar todo mundo de uma hora pra outra, e fazer uma limpeza geral, mas sem limpar o sistema, os novos políticos eleitos, segundo os métodos do sistema velho e viciado, viriam com os mesmos vícios de origem, ou seja, com os vícios da barganha e da corrupção, porque no sistema atual não é possível eleger-se sem barganhar e sem receber dinheiro dos endinheirados.

             Creio que a “patota da limpeza” é uma patota bem-intencionada, ou pelo menos uma parte dela parece que o é, mas não consegue distinguir entre corrupção do sistema e corrupção individual. Ela não consegue perceber que “trocar tudo”, sem trocar o sistema, é o mesmo que não trocar nada, ou simplesmente trocar seis por meia dúzia, ou ainda, como diz a metáfora tão popular: é trocar só os mosquitos.

             E a indignação da “turma da limpeza” é tão inocente, a proposta dela de “trocar tudo” é tão fantasiosa que, se for trocar todos os políticos que se elegeram com dinheiro de empresas corruptoras, e deixar apenas os políticos que não se envolveram com os esquemas de financiamento privado de campanha, se salvariam tão somente uma esmagadora minoria, uns gatos-pingados que não dariam quorum pra aprovar nem uma leizinha ordinária no Congresso.

            E esses raríssimos gatos-pingados, que sempre recusaram propinas, favores, caixa dois, ou esquema de campanha financiado pelo dinheiro dos ricos, são políticos filiados a um ou dois partidos da “esquerda puro-sangue” – no máximo.

            Como eu suponho que a “turma da limpeza” não concordaria jamais com a ideia de entregar o poder a um punhado de políticos de esquerda – políticos que não se envolveram com a dinheirama das campanhas eleitorais -, e como a “turma da vassoura” nem fala em reforma política, imagino que a ela restaria apenas uma alternativa: devolver o Brasil pros índios – e certamente fariam isso sob os aplausos entusiasmados do nosso grande Policarpo Quaresma.

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