A cara de quem, mesmo?

          DEPOIS da baixaria de domingo passado, quando a Câmara dos Deputados autorizou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff com argumentos que oscilaram entre a infâmia e o ridículo, andam dizendo por aí que o Congresso Nacional nada mais é do que um “retrato da sociedade brasileira”. Nada disso! Não é bem assim, não.

            O atual Congresso é um retrato – e muito fiel -, da plutocracia que o elegeu; é um retrato dos endinheirados que financiaram as campanhas da imensa maioria dos deputados e senadores que compõem esse colégio. O atual Congresso Nacional, conhecido como Congresso BBBB – da bala, do boi, da bíblia e dos bancos -, está longe, muito longe, de representar (ou retratar) o conjunto da população brasileira.

               Quer ver?

              Ele é composto por 90% de homens, mas os homens são apenas 48% da população brasileira; o Congresso é formado por 81% de brancos, mas os brancos são apenas 46% da população brasileira; esse Congresso tem apenas 10% de mulheres, mas as mulheres representam 52% da população brasileira; esse Congresso conta com 4% de pretos e 15% de pardos, mas os pretos e os pardos são 54% da população brasileira; o Congresso é formado por 10% de jovens, mas a juventude brasileira representa 39% da população; os gays, transexuais e índios praticamente não têm representação coletiva no legislativo federal.

         Em contrapartida, os empresários, que constituem apenas 4% da população brasileira, detêm 43% das cadeiras na Câmara dos Deputados. Ou seja, a Câmara Federal detém dez vezes mais empresários do que o próprio Brasil – e isso sem contar as cadeiras que não são ocupadas diretamente por eles – mas foram financiadas pelo empresariado nacional e estrangeiro.

         Importante lembrar também que o nosso sistema eleitoral convive com a promiscuidade de 33 partidos que, salvo dois ou três casos, não representam ninguém; a não ser eles próprios e seus “donos”. Além do mais, não se pode esquecer: o mecanismo dos quocientes (eleitoral e partidário) põe lá no Congresso muitos parlamentares que não receberam votos nem pra ser um paroquiano vereador, que dirá representar a sociedade brasileira.

              Assim, não dá pra falar que esse Congresso Nacional é a “cara do Brasil”; e que, portanto, aquele fiasco do domingo passado, quando votaram o impeachment da presidenta e só faltou invocar a vontade do ET de Varginha, é culpa do povo brasileiro que elegeu essa turma aí. (É melhor não botar a culpa nas costas do povo brasileiro, não. Quem se sentiu representado por aquela tropa, apoiou e até soltou foguete depois da grotesca sessão do impeachment, deve assumir seu bando, fica mais bonito – até por uma questão de lealdade e coerência política.)

         O que esse Congresso Nacional representa mesmo é o poder econômico, a plutocracia, as elites mais arcaicas do país, e os segmentos mais conservadores da nossa classe média. Portanto esse Congresso, se é que ele tem uma cara, é a cara dessa galera aí. Dessa turma que entende muito de muita coisa, mas não manja nada de direitos e democracia, não tá nem aí com o país… nem com a sorte, nem com a desgraça do povão brasileiro!

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