Agora vai

  COM o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, autorizado pela Câmara dos Deputados numa sessão para ser definitivamente esquecida – os senhores deputados podiam, ao menos, ter-nos poupado das justificativas que arranjaram para fundamentar seus votos – as coisas tendem a melhorar no país.

    É possível que a fúria fascista come a desaparecer, pois a direita reacionária já terá conseguido o seu grande objetivo que era afastar o Partido dos Trabalhadores do poder (falta ainda destruir o Lula); é possível que os órgãos de investigação voltem a trabalhar dentro dos marcos da legalidade, pois já não será preciso perseguir partido nenhum; é possível que os ânimos da população voltem ao normal, pois a mídia burguesa já não precisará atiçar o moralismo de ninguém; é possível até que haja alguma reação econômica, pois a alta burguesia não precisará mais boicotar o governo; é possível até que o Estado policial deixe de atuar com tanto arbítrio, pois os inimigos terão sido afastados.

   É possível, portanto, que agora a coisa vai; é possível que o país volte ao “normal” e que tudo realmente comece a melhorar. Mas, as grandes questões a serem respondidas, neste momento de tanta confusão, devem ser: “Agora a coisa vai pra onde?”; “Vai melhorar pra quem?”; e “O que é um país normal, é um país sem corrupção ou um país sem investigação?”.

   Se as coisas começarem a melhorar para o político que presidiu a “memorável” sessão do impeachment na Câmara dos Deputados, que é réu por crime de corrupção e lavagem de dinheiro; se elas começarem a melhorar para o vice-presidente da república que traiu a presidenta e mais de 54 milhões de eleitores; se elas começarem a melhorar para os barões da mídia que sustentaram outro golpe de Estado no país; se elas começarem a melhorar para a Fiesp e para os empresários que financiaram o golpe; se elas começarem a melhorar para os banqueiros que tanto queriam a deposição da presidenta da república; se elas começarem a melhorar para as petroleiras norte-americanas, que estão de olho no nosso pré-sal; se elas começarem a melhorar para os kims kataguiris da vida, que andam aí repetindo a cantilena neoliberal feito boneco de ventríloquo; se as coisas começarem a melhorar pra essa turma toda, é porque elas vão piorar para o resto, para os que estavam contra o golpe.

   E o resto, comandante, são apenas cinco sujeitos: (1) a classe trabalhadora com os seus partidos, movimentos e sindicatos; (2) os pobres sem poder nenhum, que Darcy Ribeiro chamava de “a ninguenzada”; (3) a nossa soberania econômica; (4) os nossos recursos naturais; e (5) as nossas instituições democráticas.

   Se as coisas melhorarem – e vão melhorar -, para aquela turma do parágrafo de cima, certamente vão piorar, e muito, para esta turma do parágrafo de baixo; se o “andar de cima” está em festa, pode ter certeza, comandante, o “andar de baixo” vai ter que suportar o barulho da música e do sapateado dos festeiros – e terá ainda de recolher o lixo da festança.

    O que assusta nesse golpe, que agora está se concluindo no Congresso Nacional, não é a deposição de uma presidenta da república honesta, que não cometeu crime e que foi eleita pelo voto popular com toda legitimidade; o que assusta mesmo é olhar pra turma que a depôs; o que assusta não é olhar para os vencidos; o que assusta mesmo é ver quem são os vencedores; o que assusta não é a farsa de um golpe de Estado “nos termos da lei”; o que assusta mesmo é a desenvoltura e a impunidade dos farsantes.

    Por uma dessas ironias (ou insistência) da história, tudo se repetiu como outrora: os golpistas foram os mesmos; o pretexto para o golpe foi o mesmo; os apoiadores foram os mesmos; os beneficiários foram os mesmos; e não há, portanto, nenhuma razão para acreditarmos que as vítimas desse golpe também não serão as mesmas.

   Creio que o Brasil pagará muito caro por esse mau passo! Teremos de esperar ainda algumas décadas para que os golpistas de hoje reconheçam o erro, e, supostamente confrangidos, voltem a pedir desculpas ao povo brasileiro, como já o fizeram com relação ao golpe militar de 64 – mas, no futuro, quando vierem a pedir desculpas novamente, pode ser que os “golpistas arrependidos” (e seus apoiadores), por ironia ou insistência da história, já estejam arquitetando um novo golpe, nesta América Latina de tantos e tantos e tantos golpes!

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