Não é golpe, é escândalo

   PARECE que vale tudo, vale qualquer coisa pra derrubar a presidenta da república, pra destruir o Partido dos Trabalhadores, pra desconstruir a imagem política do ex-presidente Lula da Silva e, por consequência, para afastar a esquerda do poder, se possível para sempre, e se não, pelo menos por algumas décadas.

   O pedido de impeachment  não precisa ter nenhum fundamento jurídico; a presidenta Dilma não precisa ter cometido crime nenhum; o processo de impeachment pode ser presidido por um deputado corrupto; a comissão de impeachment pode ser integrada por uma maioria de deputados acusados de corrupção; o vice-presidente da república pode fazer discurso antecipado, como se presidente fosse, antes da votação do impeachment e por aí segue…

   Mas, é permitido também entregar o governo federal ao partido que é, descaradamente, o mais fisiológico da história política do Brasil; é permitido a esse partido abandonar o governo, cuja chapa integrou nas eleições, sem nenhuma justificativa; é permitido aplicar o impeachment à presidenta da república e entregar o governo a um vice-presidente que também responde por outro processo de impeachment, é permitido qualquer coisa – fala sério, tem alguma seriedade nisso tudo?

  Pôr o Michel Temer (delatado tantas vezes nas investigações da Lava Jato como destinatário de propinas) na presidência da república e o Eduardo Cunha na vice-presidência, convenhamos, não dá, né? Quem acredita que essa é a melhor saída para o país neste momento, não leve a mal, mas acredita em qualquer coisa. É escandaloso que dois homens, um investigado, outro acusado, derrubem uma presidenta que não é acusada de nada!

   Pra destruir o Partido dos Trabalhadores é permitido decretar prisões preventivas de petistas e seus aliados sem nenhum fundamento jurídico; é permitido prender para extorquir confissões e delações; é permitido destruir a imagem e a reputação das pessoas na mídia, antes de qualquer condenação, para obrigá-las a confessar o que fizeram e o que não fizeram; é permitido conduzir ilegalmente (e desnecessariamente) um ex-presidente da república até uma delegacia de polícia; é permitido fazer interceptações telefônicas ilegais; é permitido tornar público o conteúdo dessas interceptações sigilosas; enfim, é permitido destruir as bases éticas do Estado de Direito, destruindo o sistema de salvaguardas constitucionais.

    Permite-se, portanto, que investigações e processos sejam direcionados por critérios partidários, talvez ideológicos, sob o argumento (moralmente insustentável) de que o importante é “combater a corrupção” de quem está no governo atualmente, daqui em diante, deixando-se pra lá o passado e a orgiem de toda  corrupção.

   É ainda permitido destruir empresas, que proporcionam mais de 300 mil postos de trabalho, ao invés de punir apenas os donos da empresa como se faz, por exemplo, nos EUA; é permitido sucatear as empresas nacionais do setor naval; é permitido inviabilizar a maior empresa pública do país; é permitido agravar a crise econômica e destruir de 4 a 5% do PIB nacional, tudo isso é permitido.

   Na verdade, isso que estão fazendo com um governo democraticamente eleito, com a economia nacional, com o sistema de direitos fundamentais, com o futuro das políticas sociais e com a democracia brasileira, não é golpe, é um escândalo. Um escândalo típico dessas republiquetas das bananas, que mudam seus governos a qualquer hora apenas porque os poderosos assim o querem, como aconteceu recentemente no Paraguai e em Honduras.

  Deixe estar que isto ainda vai nos custar muito caro! E olhe lá se não tivermos de amargar mais alguns anos de ditadura.

   É isso mesmo, boa coisa não vem por aí. Ou alguém pensa que vai se dar bem ao lado, bem juntinho, dos barões da mídia, da Fiesp, das grandes empresas transnacionais, dos banqueiros, do atual presidente da Câmara dos Deputados, do atual vice-presidente da república, dos deputados da bancada da bala, desse “campeão da moralidade” que é Paulo Maluf, e desses autointitulados “movimentos sociais” que dizem combater a corrupção mas não abrem suas próprias contas e se negam a dizer quem é que os financia? Um pirulito pra quem adivinhar quem é que vai pagar o pato da Fiesp!

   Só sei que ao final dessa barafunda toda, é muito doloroso ver a nossa democracia ameaçada e o Estado de Direito esculhambado; mas, não é menos doloroso lembrar que não precisava nada disso, e que tudo isso não passa de uma estúpida vitória do ódio e do preconceito.

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