O conjunto da obra

           PARECE mentira, mas a Ordem dos Advogados do Brasil, repetindo um de seus erros históricos mais abomináveis, vem agora apoiar um golpe de Estado com novo pedido de impeachment de uma presidenta democraticamente eleita, sob o argumento de que, além das célebres pedaladas fiscais, ela deve ser impedida (1) porque nomeou o ex-presidente Lula para o ministério, (2) porque a inflação voltou e (3) pelo “conjunto de sua obra”.

          Em lugar de defender as prerrogativas de advogados que tiveram seus telefones grampeados ilegalmente; em vez de se colocar ao lado dos causídicos que têm penado para exercer o direito de defesa e assegurar o devido processo legal nos processo midiáticos do ‘mensalão” e do “petrolão”, a OAB prefere entrar para a história no bonde do golpe – foi assim em 1964 e o seu novo presidente quer que seja assim também em 2016.

             Uma OAB que não defende as prerrogativas profissionais de seus associados; que não defende os valores e princípios constitucionais do processo; que não defende o Estado Democrático de Direito; que não defende as eleições legítimas que já defendeu no passado, vai defender o quê?

            Vai defender o golpe novamente ao lado da Fiesp, da Rede Globo, da revista Veja, do jornal Estadão, do jornal Folha de S. Paulo, das elites oligárquicas, de setores reacionários da classe média, dos partidos fisiológicos, de toda essa turma – tudo igualzinho a 1964? Não aprenderam com o erro? Depois não adianta vir com cara de tacho, feito Madalena arrependida, fazendo “mea culpa” por ter apoiado outro golpe contra democracia.

           Entre as frases que mais ouvi nos últimos dias está aquela do Marx que diz: “A história acontece primeiro como tragédia e depois como farsa”. Se o pedido de impeachment de Dilma Rousseff com base nas “pedaladas fiscais” já era uma farsa, pois não há aí nem sinal de crime, imaginem o novo pedido da OAB, com base no “conjunto da obra” da presidenta – isso não é farsa, isso é ridículo.

            Tão ridículo que até o réu Eduardo Cunha o ridicularizou, dizendo que vai colocar o pedido da OAB na fila porque ele “chegou um pouquinho atrasado”, com “algum retardo”. Como assim, presidente? Explica aí: o senhor quis dizer que a OAB não cumpriu os prazos, que perdeu a hora e o compasso da história? A julgar pelo “conjunto da obra”, a gloriosa OAB, outrora tão firme em seus misteres associativos, sindicais, cívicos e políticos, agora está preclusa, chegou tarde, e, se não foi aprovada pelo Eduardo Cunha, talvez não seja aprovada nem mesmo pelo seu próprio exame de admissão.

           Uma OAB que já teve à sua frente um Raymundo Faoro, um Caio Mário da Silva Pereira, um Márcio Thomaz Bastos, um Marcelo Lavenère e outros, não merecia passar por essa; definitivamente, não merecia entrar pela porta dos fundos da história nem ficar no fim da fila do Eduardo Cunha – é o fim da picada!

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