Entreguismo crônico

             LEVARAM-NOS, de início, o pau-brasil. A madeira nativa da Mata Atlântica, que daria o nome ao país, começou como objeto de cobiça, comércio e contrabando estrangeiros. Toneladas e toneladas dessa madeira embarcavam para a Europa desde o século 16, levadas para tingir tecidos e servir de pintura em madeiras e retábulos que ainda hoje encantam os brasileiros que visitam as antigas catedrais europeias.

         Depois, levaram-nos o metal mais precioso: o ouro. Que foi tanto para a Coroa portuguesa na metrópole quanto para a Inglaterra, para a França e para a Holanda. Esse mesmo ouro que os brasileiros admiram nos castelos e nas catedrais europeias, cujos altares suntuosos foram construídos com o metal que nos foi roubado utilizando muito trabalho escravo por aqui.

               Em seguida levaram a borracha da Amazônia. Quando Manaus estava no auge, e havia construído até o monumental Teatro Amazonas como símbolo da pujança econômica trazida pelo chamado “Ciclo da Borracha”, os gringos batizaram a seiva das seringueiras como “látex”; o magnata da indústria automotiva (Henry Ford) instalou-se por aqui para extraí-la; e os ingleses contrabandearam 7.000 sementes para a Malásia, acabando com a preeminência de Manaus, que então fervilhava de banqueiros e investidores estrangeiros.

            Atualmente, temos entregado também a fertilidade das terras brasileiras (e até a propriedade delas) às grandes multinacionais do agronegócio, como, por exemplo, a Cargill, a Monsanto e a Bunge, que monopolizam o setor de grãos e outras culturas, mandando para fora do país todo lucro e dividendos gerados pela nossa terra, pelo nosso clima, pelas nossas águas e pelo nosso povo.

             Agora, querem entregar o petróleo. Já acabaram com o monopólio estatal e acabam de aprovar no senado um projeto de lei que retira da Petrobras o direito de explorar com exclusividade 30% das reservas do pré-sal, abrindo as portas do país, mais uma vez, para a exploração estrangeira, ou seja, para as grandes petroleiras norte-americanas. A entrega do pré-sal deita por terra nossa soberania energética, a esperança de aplicar os royalties do petróleo na educação e na saúde, desferindo um golpe mortal na política de conteúdo nacionalista dos últimos anos.

      Junto com o petróleo estão nos levando também os minérios e a água. As multinacionais Nestlé, Coca-Coa e Danone já estão comercializando nossas fontes, mananciais e jazidas. Estão vendendo água brasileira para os próprios brasileiros. E já há rumores de que negociam também a exploração do Aquífero Guarani em solo brasileiro – segunda maior jazida de água do mundo.

           As grandes corporações econômicas transnacionais sempre tiveram por aqui os seus representantes e porta-vozes. Do imperialismo inglês no século XIX, passando pelo imperialismo norte-americano do pós-guerra no século XX, até o imperialismo ianque-europeu dos dias de hoje, sempre houve brasileiros bem simpáticos à causa desses “donos do mundo”.

        Por estas bandas, nunca faltou quem estivesse disposto a colaborar, defender e facilitar os negócios dos “grandes” que comandam a economia mundial. Em matéria de economia e negócios, nunca faltaram entre nós aqueles que realmente fizeram enormes obséquios e inúmeras concessões aos interesses estrangeiros – e não por simples simpatia ou afinidade ideológica.

            O irônico é que, depois de entregar tudo – recursos naturais e soberania -, muitos brasileiros ainda vão lá fora admirar, num deslumbramento basbaque, a fortuna, a tecnologia, a arquitetura, a moda, os carros e talvez até a “superioridade” dos povos que saqueiam nossas riquezas e exploram nosso povo. O entreguismo histórico das nossas elites perpetua a pobreza e a dependência destes trópicos; os entreguistas agem como a ave que corta o galho onde fez o próprio ninho… de depois voam pro ninho dos outros, bem longe daqui.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s