A caça e a cassa ao Lula

            NINGUÉM tem mais dúvida nenhuma sobre o fato, aliás, autoevidente, de que a mídia empresarial brasileira decretou guerra ao Partido dos Trabalhadores e a seu líder fundador, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Essa guerra é antiga. Pudera!, ninguém haveria de esperar que a mídia conservadora de direita fosse enaltecer ou cantar loas a um partido e uma liderança de esquerda. Seria uma estupidez esperar uma coisa dessas, mas o próprio Lula não acreditou que a reação da mídia fosse assim tão violenta.

          Dado o estrondoso sucesso de seus dois governos, tanto na área econômica quanto no campo social, e também no terreno da política externa, Lula da Silva acreditou que havia conseguido a proeza de realizar a conciliação de classes no Brasil, governando tanto para os ricos quanto para os pobres – achou que estava acima do antagonismo entre direita e esquerda.

          Mas não foi bem assim, não. Apesar dos polpudos ganhos que obteve na “era Lula”, a elite brasileira nunca aceitou nem o Lula nem o PT. E é assim em todo o mundo capitalista. A elite é como um clube fechado, não adianta querer escalar o muro, fazer alpinismo social, e entrar nesse clube na marra, de qualquer jeito.

         A mídia, ela própria, é parte integrante da elite e sua porta-voz. Por isso, é natural que as empresas midiáticas estejam à frente dessa temporada de caça ao ex-presidente Lula que, como se sabe, é um homem originário das classes de baixo, um homem que nunca foi nem nunca será aceito no andar de cima, ou no “clube da elite”.

          Assim, todas as suspeitas, boatos, fofocas, acusações e supostos processos criminais contra o Lula são “instaurados” e conduzidos em primeiro lugar pela mídia, e “tramitam” ruidosamente no imaginário popular visando uma espécie de condenação pública, antes de qualquer condenação jurídico-judicial.

          A toda hora as manchetes revelam que o Lula será investigado por causa de um sítio e de um apartamento que ele não tem. Quando o Lula vai depor como testemunha em processos e inquéritos que investigam terceiros, a mídia logo estampa a manchete de primeira página, LULA VAI SER OUVIDO NA JUSTIÇA, como se ele fosse o réu, não a testemunha.

         Que a mídia conservadora se comporte assim é muito natural. Isso ocorre até nas melhores democracias. O que não é natural é a aliança estranha da mídia com os poderes repressivos do Estado.

         A polícia faz “vazamentos” seletivos para a mídia toda vez que alguém é ouvido em seus inquéritos; e o juiz da Lava Jato admite expressamente, até por escrito, que usa mesmo a mídia em suas tarefas judiciais/investigativas. Não por acaso, esse juiz é tratado pela mídia brasileira como o novo herói nacional, e até já ganhou o prêmio de “personalidade do ano” concedido pela Rede Globo, que lidera a caça ao Lula.

           A impressão que se tem é que, enquanto a mídia promove uma “caçada” pública com o objetivo de desgastar politicamente o ex-presidente, os órgãos repressivos estatais cuidam de encontrar algum crime, algum motivo ou até mesmo algum pretexto para finalmente cassá-lo como candidato.

        E se não der certo a “cassação” jurídica do Lula, se não encontrarem nada que o impeça juridicamente de concorrer às eleições de 2018, pelo menos a “caçada” midiática terá funcionado muito bem, já que o desgaste à sua imagem tem sido até aqui bastante significativo.

         Os objetivos, portanto, são dois: impedir juridicamente o Lula de concorrer na próxima eleição presidencial e, caso esse objetivo não dê certo, desconstruir publicamente sua imagem, para que ele não tenha a mínima chance de sucesso – nem a chance de se eleger, nem a de apoiar qualquer outro candidato.

             Logo, o cenário que parece mais provável é o seguinte: Lula excluído das eleições ou enfraquecido e derrotado na campanha de 2018. E há até quem ache que vai rolar uma cadeiazinha pro Lula! Isso é o que desejam ardentemente a mídia empresarial burguesa, seus aliados e vítimas.

         Só que tem um probleminha, mesmo com a cortina de fumaça que a mídia reacionária faz para proteger seus interesses; mesmo com toda a manipulação que ela faz da realidade, de vez em quando alguém se mete inesperadamente diante das câmeras de tevê pra cantar o refrão: “Fora Rede Globo, o povo não é bobo” – a mídia manipula, mas o povo tá de olho.

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