As mentiras da presidenta

            UMA campanha sórdida da mídia brasileira contra Dilma Rousseff enfiou na cabeça de grande parte da população que a presidenta é mentirosa, pois teria mentido na campanha de 2014 a respeito das contas do país, e mentido também acerca de seu programa de governo. O senso comum costuma absorver, de maneira automática e sem crítica nenhuma, as ideias ou informações que têm alguma aparência de realidade e que são insistentemente repetidas. Vejamos, para além do senso comum, essas duas grandes “mentiras” atribuídas a Dilma Rousseff a respeito das contas do Brasil e de seu programa de governo.

            Sobre as contas, é preciso lembrar que em 2014, durante a campanha presidencial, o superávit primário do país era positivo, ou seja, era o equivalente a 1,3% do PIB, segundo relatório do FMI. E o próprio FMI (não a candidata Dilma) previa para 2015 um crescimento da economia brasileira na ordem de 1,4% com superávit aumentando para 2% do PIB. Notem que essa era uma constatação dos órgãos internacionais que monitoram a economia global. Não era, portanto, uma afirmação mendaz ou pueril da candidata Dilma Rousseff, como a grande mídia quer fazer crer a todo custo.

           Além do mais, não custa lembrar que naquela altura da campanha o nosso estoque de divisas internacionais era (e ainda é!) de surpreendentes 380 bilhões de dólares; o PIB era (e ainda é!) de 2,5 trilhões de dólares; e a taxa de desemprego estava na casa dos 4,5%, ou seja, em níveis somente comparáveis às economias desenvolvidas do primeiro mundo, como a Alemanha, por exemplo.

          Enquanto simples profissional do direito, bem sei que “o sapateiro não deve ir além das sandálias”, mas não é preciso ser um economista formado para saber que esses números estão muito longe de indicar uma economia quebrada, ou em vias de quebrar. Afinal, o que é que queriam os propagandistas da direita? Por acaso quereriam eles que a então candidata saísse por aí disseminando o pessimismo, apregoando a ruína da economia brasileira se até mesmo os organismos internacionais diziam o contrário?

         Sobre o programa de governo, é certo que a candidata sustentou na campanha o programa de seu partido, propondo desenvolvimento econômico com justiça social, ou seja, crescimento da economia brasileira com a preservação do salário e dos direitos sociais. É certo no entanto que, ao assumir o segundo mandato, a presidenta reeleita passou a fazer o contrário, adotando uma política de austeridade neoliberal que ameaça direitos dos trabalhadores.

          Isso tem realmente um quê de engodo eleitoral. Mas, é preciso ir além das aparências para não incorrer nos equívocos que o senso comum – simplório e acrítico -, costuma impor aos observadores mais apressados. De fato, é preciso lembrar que, mal tomou posse, a presidenta da república já passou a ser ameaçada por pedidos de recontagem de voto, pedido de anulação das eleições, processo de cassação de seu mandato e até um famigerado processo de impeachment.

           Nesse contexto de ameaças, vieram as imposições e cobranças do mercado e de um Congresso Nacional dominado por forças reacionárias, aliás, um Congresso inteiramente financiado pelo agronegócio, pelo empresariado, pelos bancos e pelo “dinheiro evangélico”. Para levar a cabo suas promessas de campanha, isto é, para implantar seu apregoado plano de governo no rumo do “crescimento econômico com justiça social”, a presidenta da república precisava de apoio desse Congresso que, ultraconservador, não tem nenhum compromisso com a classe trabalhadora nem com os pobres e marginalizados.

         Então, quais eram as reais possibilidades que a presidenta da república tinha de implantar seu programa de governo, se ela precisava governar em coalizão com políticos irresponsáveis que só queriam destituí-la do cargo? Quais eram suas chances de implantar as políticas progressistas que defendeu na campanha, se ela precisava contar com um Congresso reacionário a serviço do neoliberalismo?

           É claro que o mercado financeiro agiu rápido, aproveitando a fragilidade política da presidenta reeleita, e lhe impôs logo um ministro banqueiro, Joaquim Levy, na pasta da Fazenda; é claro também que um Congresso reacionário e oportunista negaria qualquer apoio à presidenta para frustrar as políticas progressistas que ela havia prometido em sua campanha presidencial. Ou alguém imagina que o capital financeiro e os políticos fisiológicos e ultraconservadores do atual Congresso estão preocupados com os pobres e com a justiça social?

           É difícil acreditar que uma candidata à presidência da república mentiria apenas pelo prazer de mentir, ou por um simples defeito de caráter, ou ainda por causa da “síndrome de pinóquio”. O mais inteligente seria investigar e entender os motivos e as forças que exigiram a mudança radical do programa de governo anunciado pela candidata Dilma na campanha de 2014.

         É óbvio que a presidenta reeleita – certo ou errado, não sei – adotou a agenda neoliberal como forma de resistir ao “golpe paraguaio” que está em curso contra ela no país. Mas, o senso comum prefere cair na conversa fiada dos “barões midiáticos” e sair por aí repetindo que Dilma Rousseff é uma estelionatária mentirosa, como se todas as mentiras da mídia fossem verdades, e todas as verdades da presidenta fossem mentiras.

            É o cúmulo do cinismo impedir a presidenta eleita de governar e depois dizer que ela é incompetente; é absurdo tornar o país ingovernável em razão de uma crise política alimentada cotidianamente pela oposição e pela mídia, e depois de tudo ainda sair dizendo aos quatro ventos que a presidenta da república é mentirosa e incapaz de governar o Brasil! Se isso não for GOLPE, então deveríamos mudar imediatamente o vernáculo.

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