O moralismo brega

           O INSTITUTO de pesquisa Datafolha acaba de publicar uma pesquisa revelando que 34% dos brasileiros consideram que a corrupção é o maior problema do Brasil atual. E o jornal do mesmo instituto estampou essa notícia em manchete de capa destacando que, “pela primeira vez”, os brasileiros colocam a corrupção entre os seus maiores problemas.

            O Grupo Folha tá de brincadeira com os seus leitores!

        É evidente que uma pesquisa dessas, feita na semana em que se deram as prisões inéditas de um senador da república, de um banqueiro e de um pecuarista envolvidos em casos de corrupção política, só poderia dar mesmo no que deu – um resultado mais que previsível, óbvio até.

           Mas, a corrupção não é um problema apenas do Brasil, é um problema mundial, ela é inerente às sociedades capitalistas. Mesmo no primeiro mundo – que ainda deslumbra tantos brasileiros – a corrupção política é uma chaga. A Comissão de Assuntos Internos da União Europeia divulgou no ano passado que a corrupção custa aos europeus mais de 120 bilhões de euros anuais, quer dizer, 492 bilhões de reais por ano. Enquanto isso, um estudo da Fiesp, feito em 2010, constatou que num intervalo idêntico a corrupção custa ao Brasil entre 49 e 69 bilhões de reais, ou seja, bem menos do que a roubalheira europeia.

           Além do que, conforme mostra esse estudo da Fiesp, a corrupção não é nem de longe o maior problema dos brasileiros. O “mensalão” e o “petrolão”, que os distraídos dizem ser os maiores escândalos da nossa história, juntos causaram um prejuízo inferior a 41 bilhões de reais.

         Comparem os números abaixo e será possível ver que os verdadeiros problemas do país (sociais, políticos, econômicos,  fiscais etc.) a mídia burguesa não revela nem discute com a população – simplesmente esconde-os; e usa a corrupção para escondê-los.

          Com efeito, problema mesmo é o país gastar o equivalente a 45% do orçamento anual da União em juros dos serviços da dívida pública, isto é, um montante de 978 bilhões de reais pagos a rentistas e banqueiros; problema mesmo é a evasão fiscal que remete todo ano aos paraísos fiscais 490 bilhões de reais, segundo a Tax Justice Network; problema mesmo é a sonegação fiscal que ultrapassa a casa dos 502 bilhões de reais por ano no país.

         Problema de fato é a chamada “desoneração fiscal” ou “renúncia fiscal” que o governo faz em favor de empresários, desfalcando os cofres públicos, cujo montante atingiu a cifra de 380 bilhões de reais sob o governo Dilma Rousseff, podendo chegar a 458 bilhões até o ano de 2018 – e os beneficiados ainda acham que é pouco; acham que pagam muito imposto.

           Problema mesmo é a evasão de divisas (fuga de capitais), ou seja, aquela dinheirama que os ricaços mantêm no exterior sem comunicar o Banco Central nem a Receita Federal, estimada pela Global Finance Integrity desde os anos 60 em mais de 590 bilhões de dólares, equivalentes a 2 trilhões e 200 bilhões de reais colocados para fora dos nossos cofres, financiando os países ricos que nós admiramos tanto.

          E a coisa não para por aí, não. Problema mesmo são os lucros e dividendos que as multinacionais, engarranchadas na nossa economia interna por força da tal “abertura econômica”, remetem ao exterior fragilizando nossas reservas internacionais e a nossa capacidade de investimento interno. Essas remessas aos cofres estrangeiros não são sequer quantificáveis.

        Só pra se ter uma ideia do que remetemos pra fora: quando os brasileiros vão aos grandes supermercados como Walmart, Pão de Açúcar (Casino), Leroy Merlin, Carrefour etc., além de comprar produtos estrangeiros gerando lucros diretos aos produtores lá de fora, ainda aumentam os lucros dessas redes multinacionais e os dividendos de seus acionistas estrangeiros, cujas cifras serão remetidas outra vez para o exterior.

            Enfim, o maior problema dos brasileiros, muito mais do que a corrupção (que não deixa de ser um problema), é essa sangria das nossas riquezas, ou seja, aquilo que o escritor uruguaio Eduardo Galeano mostrou ao mundo todo com o seu clássico As veias abertas da América Latina.

        Agora vem esse discurso moraloide, que é claramente oportunista, superficial, simplório e raso, dizendo que a corrupção é nossa grande mazela. Mazela mesmo é a corrupção da mídia venal que desinforma os brasileiros e manipula o senso comum, como está fazendo neste momento em que pretende atiçar o “moralismo brega”, ingênuo e previsível de grande parte da população para atingir seus objetivos políticos e econômicos, e para manter essa população completamente alheia aos nossos problemas reais.

           Essa “moda moralista”, esse moralismo de ocasião, faz lembrar de fato aquele gênero romântico da música popular brasileira, que é também simplório e ingênuo, artisticamente raso e arrebatador, aquela música melosa e sentimentaloide (tão deliciosa) que chamamos de “brega” e que serve muito bem para distrair e fazer a gente sonhar – bem longe da realidade.

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