Lula no país dos bacharéis

    O MAIOR escritor brasileiro, Joaquim Maria Machado de Assis, nunca frequentou uma universidade. Era um crítico mordaz do que ele chamava de “o país dos bacharéis”, ou seja, o país onde a origem familiar e o diploma universitário definiam (ou definem ainda) o lugar e a importância do indivíduo na sociedade. Por isso, sempre foi muito problemático para algumas parcelas da população brasileira, sobretudo para a elite e para a classe média tradicional, admitir a ideia de um Presidente da República sem genealogia aristocrática e sem diploma universitário, como é o caso do ex-operário Luís Inácio Lula da Silva.

   Não se pretende fazer aqui a apologia desse ex-presidente, porque ele não precisa de quem o faça; não se pretende fazer a defesa dele, porque ele já deve ter quem o defenda; e nem se trata de render-lhe um culto à personalidade, porque as linhas abaixo não passam de breve relato sobre suas “ações práticas”, e não uma análise do personagem Lula. Assim, trata-se aqui de reconhecer, objetivamente, alguns fatos e alguns números que tornam a trajetória desse líder popular e ex-metalúrgico algo realmente impressionante. E são fatos que ninguém poderá negar ou esconder, independentemente de simpatias, antipatias, julgamentos subjetivos ou preferências ideológicas.

   Vejamos, se não é.

    O ex-presidente Lula da Silva fundou o “novo sindicalismo brasileiro” no ABC paulista ao soerguer o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernado do Campo, ainda durante a ditadura militar, e, tendo reorganizado a classe trabalhadora naquele momento crítico, acabou perseguido e preso pelos militares no início dos anos 1980. Precisamente no ano de 1980, esse movimento sindical, liderado pelo ex-presidente Lula da Silva, deu origem ao Partido dos Trabalhadores, agremiação esta que viria a ser o maior partido popular de esquerda no Brasil e que chegaria quatro vezes consecutivas à presidência da república.

    Depois de fundar e presidir o PT, Lula da Silva foi deputado federal constituinte por esse partido, ajudou a escrever a “Constituição cidadã” de 1988, lutou à frente da campanha pelas “Diretas já”, enfrentou o regime militar e, portanto, teve papel decisivo na consolidação da democracia brasileira. Consolidada a democracia política no Brasil, Lula da Silva elegeu-se presidente da república por duas vezes, e ainda por cima, enfrentando a direita poderosa e o absurdo poder da mídia monopolista e reacionária, conseguiu fazer a sua sucessora em 2010, e depois reelegê-la em 2014.

   Na presidência da república, Lula da Silva realizou a maior inclusão social de que se tem notícia na América Latina, propiciando a ascensão de 60 milhões de pessoas, umas que saíram da miséria e outras que ascenderam à chamada “nova classe média”, além de tirar o Brasil do “mapa da fome” (FAO). No campo econômico, sob o governo de Lula da Silva, o país quintuplicou o seu PIB (passou de US$ 500 bi para US$ 2,5 tri), acumulou um recorde de reservas internacionais equivalentes a US$ 370 bi e saltou de 12ª economia do mundo para o posto de 7ª economia mundial – e ficou em vias de se tornar a 5ª economia do planeta.

    Lula da Silva não tem diploma universitário, mas, paradoxalmente, foi o presidente da república que mais implantou cursos superiores na rede pública federal, e que promoveu o maior acesso em massa das classes populares à universidade e ao ensino profissionalizante no Brasil – desde Floriano Peixoto até hoje. E mesmo sem ter educação superior formal, o ex-presidente Lula da Silva acumulou dezenas de títulos e honrarias acadêmicas, inclusive vários títulos de doutor honoris causa, concedidos por importantes universidades ao redor do mundo, incluindo academias tradicionais da Europa e da América do Norte.

    Convenhamos, neste Brasil de dimensões continentais e de tamanha complexidade, uma trajetória dessas e um conjunto de realizações como esse do Lula não é coisa pra qualquer um não, hein companheiro!?

    Imagino que, no país dos bacharéis, seja realmente muito difícil aceitar uma trajetória dessas e engolir um currículo desses em se tratando de uma pessoa que não tem origem ilustre nem curso superior, portanto, uma pessoa sem os dois grandes requisitos que o nosso bacharelismo sempre exigiu daqueles que pretendem ocupar os importantes cargos da república.

    Ora, pois. Se até Machado de Assis, que é uma unanimidade nacional, enfrentou o preconceito de seu tempo, exatamente porque não tinha uma genealogia nobre (era mulato) nem tinha diploma universitário, imaginem o Lula que, além de não ter nada disso, ainda foi-se meter no lugar reservado só para os poderosos e os doutores!

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

 

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2 respostas para Lula no país dos bacharéis

  1. ivanir floro disse:

    Boa Noite.

    Aprecio seus artigos aqui enviados.

    Permite que os mesmos sejam compartilhados? Creio, servir de reflexão à uma cultura engessada

    como a do Brasil.

    Desde já, agradeço.

    Ivanir.

    Ivanir Flóro

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