A verdadeira disputa

          DEPOIS de uma longa disputa política entre dois partidos, que se revezaram no comando do Palácio do Planalto nos últimos vinte anos, tem-se a impressão de que a grande disputa no Brasil de hoje é simplesmente partidária, entre PT e PSDB, entre governo e oposição. Mas, parece que não é bem assim.

            Com efeito, pode ser que esse clima de fla-flu entre PT e PSDB, esse maniqueísmo partidário, essa grotesca rixa entre petismo e antipetismo estejam na verdade turvando a visão da maioria dos brasileiros, impedindo-os de enxergar aquilo que realmente está em causa, ou seja, aquilo que está por trás de todo esse bafafá político-eleitoral.

             Nesse momento, a grande escolha no Brasil não é apenas a opção entre um e outro desses dois partidos. Nem seria o caso de identificar nessa disputa partidária uma simples oposição entre direita e esquerda – muito embora seja evidente que o PSDB defende uma pauta típica de direita e o PT está mais à esquerda.

           À parte essas dicotomias entre PT e PSDB, entre direita e esquerda, é importante perceber que, no fundo, o que se discute no país são dois projetos políticos bem distintos, e claramente opostos. A verdadeira dicotomia, o verdadeiro antagonismo, é algo que ultrapassa os limites das duas siglas partidárias que disputaram o Palácio do Planalto – e o comando do país -, nas últimas décadas.

              À toda evidência, o que está verdadeiramente colocado aos brasileiros nesta hora é a disputa entre um (a) projeto democrático-popular, que é desenvolvimentista e inclusivo, e outro (b) projeto autocrático-elitista, que é entreguista e excludente. Não vê quem não quer.

              O primeiro projeto (democrático-popular) defende políticas macroeconômicas que visam desenvolver o setor produtivo nacional de forma autônoma e independente, com geração de emprego, geração e distribuição de renda, inclusão das classes populares por meio de programas sociais, aumento efetivo da massa salarial e da capacidade de consumo.

            Esse projeto se caracteriza fortemente pela defesa dos nossos recursos naturais, pela apropriação/nacionalização desses recursos em benefício de todo o povo brasileiro, bem como pela preservação do patrimônio do Estado e das empresas estatais públicas e semipúblicas. Defende ainda a integração do Brasil com os demais países latino-americanos, e com outros países do hemisfério Sul e da Ásia, visando construir um sistema econômico multipolar ou multilateral, que não se submeta passivamente à hegemonia unilateralista e unipolar dos EUA ou do imperialismo ianque-europeu.

    Fundamentalmente, pode-se dizer que a matriz teórica desse modelo de desenvolvimento tem suas raízes nas obras pioneiras do economista de centro-esquerda Celso Furtado e do renomado sociólogo Florestan Fernandes, cujos trabalhos são muito reconhecidos no mundo acadêmico e desfrutam de grande prestígio entre os progressistas e os pensadores de esquerda.

              O outro projeto (autocrático-elitista) propõe políticas macroeconômicas que visam subordinar a indústria nacional às chamadas “cadeias produtivas internacionais”, consolidando a supremacia tecnológica dos países desenvolvidos, sob o argumento de que esse “desenvolvimento dependente” beneficiará de maneira automática toda a população brasileira, inclusive os pobres – com o aumento do emprego, da renda e da arrecadação tributária.

             Esse projeto se caracteriza também por permitir às grandes empresas estrangeiras o pleno acesso às nossas riquezas naturais, com a máxima abertura da economia nacional ao capital externo, caracterizando-se ainda pela alienação do patrimônio estatal e das empresas públicas por meio das privatizações que beneficiam os grandes grupos econômicos – os nacionais e os estrangeiros.

        Óbvio que um modelo assim propicia a dependência do Brasil às economias desenvolvidas e imperialistas, bem como o alinhamento do país ao sistema econômico liderado pelos EUA e por algumas potências europeias, na crença de que os países latino-americanos são incapazes de promover um desenvolvimento autônomo e independente, dado o atraso tecnológico de nossas economias primário-extrativistas.

          Dentre os ideólogos desse modelo podemos citar o economista liberal Roberto Campos e o sociólogo de centro-direita Fernando Henrique Cardoso, cujas obras são também muito reconhecidas no mundo acadêmico, especialmente a “teoria da dependência” elaborada por Fernando Henrique e Enzo Faletto ( Editora Zahar), com grande prestígio no campo da direita e entre os conservadores.

        Como se pode observar, são dois projetos bem distintos e antagônicos, ambos colocados à escolha dos brasileiros neste momento estratégico da nossa história econômica. E bem feitas as contas, o que realmente está em causa hoje, e o que na verdade se discute, no fundo, é um PROJETO DE NAÇÃO. Assim, parece razoável concluir que esse é o verdadeiro debate nos dias atuais, essa é a grande disputa; aliás, uma disputa que a direita tenta esconder e a esquerda não consegue mostrar!

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