O maior escândalo da história

             DESDE a crise política que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, e que acabaria desaguando num golpe militar dez anos depois, a direita golpista e os meios comerciais de comunicação de massa (órgãos de propaganda da direita) descobriram que a opinião pública pode ser facilmente manipulada. E descobriram mais. Descobriram que o imaginário coletivo conservador e reacionário tem uma quedinha irresistível para o moralismo. Assim, quando se quer manipular esse imaginário basta fazer duas coisas: (1) exacerbar a “ira santa” dos moralistas indignados e (2) direcionar essa ira contra o adversário político que se pretende combater ou destruir.

              Isso é o que vem ocorrendo de novo no país. A mídia despeja seu ódio sobre a sociedade (como fizeram neste fim de semana as revistas Veja, Época e Istoé), atiçando um moralismo vulgar que destrói a racionalidade dos julgamentos; e depois direciona esse moralismo contra os adversários políticos ou “inimigos”, destruindo honras e reputações sem nenhum freio. Foi com essa tática que a máquina de propaganda da direita enfiou na cabeça dos brasileiros que o “mensalão” e o “petrolão”, ambos atribuídos ao PT, constituem o maior escândalo da história.

               Os prejuízos do tal “mensalão do PT”, segundo Roberto Gurgel, Procurador Geral da República que tocou a ação penal 470, foram de 141 milhões de reais – “milhões”, hein!? Já os prejuízos do “petrolão”, segundo um grande jornal da direita, a Folha de S. Paulo, alcançam a casa dos 6 bilhões de reais. Pois bem, isso tudo, somado, não passa de um prejuízo de R$ 6 bilhões e pouco. Esse será mesmo o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, como querem fazer crer os manipuladores da opinião pública que se aproveitam maliciosamente da “quedinha moralista” dos conservadores?

                Vejamos se é mesmo.

           O famoso “escândalo do Banestado”, antigo banco do Paraná, movimentou uma soma de 134 bilhões de reais. Os próprios Procuradores da República que cuidaram do caso estimam que, desses R$ 134 bilhões movimentados, 90% eram remessas ilegais de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Assim, os prejuízos causados por esse “escândalo” chegam à cifra alarmante de 120 bilhões de reais – “bilhões”, hein?! O esquema envolveu empresas de comunicação, empresários financeiros e do setor produtivo (inclusive os empresários do “petrolão”), bem como alguns políticos da direita.

          Naquela época, o atual juiz da Lava Jato se meteu a apurar o esquema, mas sua apuração deu em nada; ele não obteve sucesso nenhum – nem processual nem midiático. E ficou tudo por isso mesmo, virou pizza da boa – ou seja, arquivaram investigações, processos e CPIs. Pergunta-se: alguém se anima a fazer qualquer comparação entre os prejuízos do “maior escândalo da história” (R$ 6 bilhões e pouco) com os prejuízos do esquecido “escândalo do Banestado” (R$ 120 bilhões)? Alguns poderão dizer: a grande diferença é que os escândalos do “mensalão” e do “petrolão” estão comprovados na Justiça, enquanto o “escândalo do Banestado” não foi apurado nem julgado definitivamente pelos nossos tribunais.

                  É, isso é verdade! Mas, reside exatamente aí, nessa falta de apuração do escândalo no Banco do Paraná (sempre o Paraná!), nessa ausência de julgamento, nesse silêncio da mídia, nessa desinformação do povo brasileiro, nessa manipulação da opinião pública, “o maior escândalo da história”.

                   Ah, e tem mais!

             Por acaso os indignados seletivos sabem que a evasão fiscal anual no Brasil, segundo a Tax Justice Network, é de 420 bilhões de reais – “bilhões” e por ano, hein?!  E saberiam eles que o seleto grupo dos brasileiros muito ricos, ainda segundo a Tax Justice, tem 1 trilhão de reais (“trilhão”, hein?!) em contas offshores em paraísos fiscais, ou seja, 1/3 do PIB brasileiro sem pagar um centavo sequer de imposto aos cofres públicos?

            Ah, tava esquecendo! Só o escândalo de sonegação de tributos federais junto ao CARF, envolvendo grandes empresários e veículos de comunicação de massas (uma afiliada da Globo, inclusive), a ser apurado no âmbito da Operação Zelotes, teria causado um prejuízo de 19 bilhões de reais (“bilhões”, hein?!) aos cofres públicos. Vixe! Já ia esquecendo também de dizer que os juros e serviços da dívida pública brasileira, que engordam os bolsos de banqueiros e rentistas, consomem silenciosamente, sem auditoria nenhuma, mais de 45% do orçamento anual do país.

                Então, qual é mesmo o “maior escândalo da história”?

          Com a palavra, os “santarrões indignados” que não conseguem perceber nem o próprio moralismo seletivo, nem a manipulação de que são vítimas (ou cúmplices), nem o golpismo que está por trás de toda essa cantilena moralista e hipócrita, despejada diariamente no ouvido e no cérebro mente dos brasileiros por uma mídia hipócrita, golpista e irresponsável.

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