A ideologia da austeridade

     NOS ÚLTIMOS tempos, algumas frases, termos técnicos e conceitos de teoria econômica têm sido repetidos com enorme insistência pelos economistas, pelos “entendidos”, pelos políticos e, especialmente, por aqueles que têm grande espaço na mídia. Realmente, frases ou conceitos como “ajuste de caixa”, “corte de gastos públicos”, “superávit primário”, “responsabilidade fiscal”, “equilíbrio das contas públicas”, “reengenharia do Estado”, “enxugamento da máquina estatal”, “abertura de mercado”, “câmbio livre” etc., são tão repetidos cotidianamente que até já viraram uma espécie de “clicheria” nas análises e nos discursos dos especialistas em macroeconomia política.

    Nota-se também que esses termos técnicos, aparentemente impressionantes, já são repetidos até mesmo nos lares e nos bares, ou seja, andam pela “boca do povo”. Isto significa que essa terminologia, própria do “economês”, reproduzida a toda hora por especialistas e leigos quase que mecanicamente, passou a fazer parte de um certo “senso comum econômico”. Para facilitar a popularização dos termos técnicos e desse “senso comum” em matéria de economia, os economistas até se dispuseram a abandonar a linguagem hermética e indecifrável, traduzindo de maneira simples a terminologia técnico-econômica.

    Se observarmos bem, é possível perceber que esse conjunto de noções e conceitos econômicos que se tornaram populares, virando uma espécie de “mantra”, aponta para uma ideia comum: o Estado deve ser mínimo e deve gastar pouco, ou seja, o Estado precisa ser eficiente e austero com suas contas. Não pode, portanto, ser um Estado enorme e perdulário, que cresce muito e gasta mais do que arrecada, comprometendo o seu próprio caixa e a sua credibilidade financeira.

     Se continuarmos observando, vamos constatar que esse discurso traduz um “conjunto de ideias” que o prêmio nobel de economia, o norte-americano Paul Krugman, chamou de “ideologia da austeridade”, em que os Estados devem ser economicamente responsáveis, isto é, devem ser austeros com suas receitas e gastar com parcimônia para honrar os compromissos financeiros no final de cada mês.

    Mas, se observarmos melhor, vamos perceber que essa cantilena toda da austeridade fiscal e do Estado mínimo é exatamente o bê-á-bá do neoliberalismo. Logo, trata-se daquela teoria econômica que, em resumo, propõe (1) privatizações para reduzir o tamanho do Estado, (2) corte de gastos sociais para manter o superávit primário (dinheiro em caixa), (3) pagamento dos juros da dívida financeira para manter a credibilidade no mercado, e (4) diminuição de impostos.

     Simples, não?

    Todavia, as dificuldades começam quando tem-se que definir quais gastos devem ser cortados e quais aqueles que podem ser mantidos sem comprometer o orçamento estatal. Quer dizer, o dilema é muito claro: ou cortamos as despesas com os juros escorchantes da dívida pública ou cortamos os gastos com educação, moradia, saúde, previdência, alimentação, transporte público, salário etc.

  Alguém tem dúvida sobre o que será cortado para assegurar a festejada “responsabilidade fiscal”, o sacrossanto “equilíbrio das contas” e o inadiável “ajuste monetário” que compõem a tal “ideologia da austeridade”? Alguém acha que essa conta será paga pelos rentistas como bancos, fundos, especuladores e até “fundos abutres”?

    Como os rentistas não abrem mão dos juros (serviços da dívida pública) e como as grandes fortunas não serão mesmo taxadas nem as grandes heranças nem os grandes lucros nem as grandes doações, conclui-se que a conta vai recair, mais uma vez, sobre os ombros dos pobres e da classe trabalhadora.

    O prêmio nobel de economia, Paul Krugman, não tem dúvidas. A “ideologia da austeridade” propõe exatamente a penalização dos mais fracos e diz, sem meias palavras, que “os políticos e tecnocratas gostam de se enxergar como pessoas sérias, que tomam decisões difíceis – como cortar programas populares e elevar taxas de juros”, mas, conclui o economista norte-americano, não querem perceber que isso só vai piorar as coisas.

     E as coisas pioram porque o corte de gastos sociais diminui o consumo, a diminuição do consumo significa diminuição de demanda, a ausência de demanda implica a retração da atividade econômica, a retração da atividade econômica resulta na diminuição da receita tributária e, assim, volta-se à crise fiscal que se pretendia combater… até chegar a recessão e o desemprego em massa.

    Pode-se concluir, portanto, que os programas neoliberais ou a festejada ideologia da austeridade são “bonitinhos, mas ordinários”, pois, têm um mau desempenho econômico e um duvidoso caráter moral, já que levam as economias à recessão e fragilizam os fracos para fortalecer os fortes.

   Os que acham que as políticas neoliberais de austeridade representam a solução para a governança da economia mundial deveriam conversar com o nobel Paul Krugman, que não é nenhum comunista, e consultar também os pobres e trabalhadores dos EUA, da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Irlanda, da Inglaterra, da Itália, e agora até mesmo da França onde já se começa a sentir o peso do “austericídio” comandado na Europa pela nova “dama de ferro”, a chanceler alemã Angela Merkel.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

 

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Uma resposta para A ideologia da austeridade

  1. Lineu disse:

    Uma cidade aqui da região estava tentando cortar gastos com a hemodiálise ,houve gritaria e parece que tiveram um certo bom senso de voltar atrás .

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