Tagarelice econômica

             OS “ENTENDIDOS” e “desentendidos” não se cansam de estufar o peito e de dizer por aí, com ares de autoridade e impressionante convicção, que os erros do primeiro governo de Dilma Rousseff “acabaram com a economia brasileira”. De tanto repetir esse estribilho, “erros da Dilma” “erros da Dilma” “erros da Dilma”, eles convenceram grande parte da opinião pública de que, realmente, a chefe do Planalto conseguiu arrebentar, da noite para o dia, com a 6ª ou 7ª maior economia do mundo – 5º país com a maior reserva em dólares do planeta.

             Assim, é muito comum encontrar alguém em qualquer esquina, “entendido” ou não, falando sobre os tais “erros da Dilma” que, de tão graves e tão hediondos, teriam sido capazes de levar a economia brasileira ao colapso, isto é, ao fundo do poço, a ponto de uma agência de avaliação de risco (rating) rebaixar a nota do país aos olhos dos investidores. Pois bem… Se é assim, se os erros da política econômica do governo Dilma foram tão grandes e tão escandalosos, se eles provocaram mesmo um desastre de proporções inéditas na economia do país, então é possível que esses erros sejam tão notórios, tão perceptíveis, que até mesmo um leigo distraído seria capaz de enxergá-los.

             O problema é que toda vez que nos deparamos com uma “análise econômica” (com aspas mesmo) – porque de análise essa papagaiada dos “entendidos” não tem nada-, sobretudo na grande mídia burguesa, percebemos que o discurso dos tais “analistas” nunca vai além de frases prontas e acabadas, repetidas à exaustão, cujos conteúdos são sempre muito vagos, muito genéricos, muito superficiais, de modo que no final das contas ficamos sem saber quais foram realmente os propalados “erros da Dilma”.

             Nessas “análises”, que apregoam o desastre econômico do governo federal, não há nada além de expressões retóricas, como, por exemplo, “sucessão de erros”, “equívocos históricos”, “matriz econômica equivocada”, “erros de diagnóstico”, “acúmulo de ineficiência”, “voluntarismo exagerado”, “política econômica desastrada”,  “somatória de erros”, “incapacidade de reconhecer erros” e por aí afora.

          Quando as “análises” tentam um discurso aparentemente mais técnico, lá vem de novo a bateria de clichê que nada revela, tais como “intervencionismo exagerado”, “exageros da política anticíclica”, “atuação pesada no câmbio”, “flexibilização de metas”, “maquiagem fiscal”, “redução da transparência contábil”, “elevação exagerada de juros”, “redução equivocada dos juros”, “dirigismo pesado”, “protecionismo mal pensado”, sem dizer nada, nada sobre o significado dessas coisas, nem quando nem onde elas ocorreram.

           O leitor entra nesses textos econômicos e sai do jeito que entrou – sem entender patavina nenhuma, absolutamente nada de concreto sobre os apregoados “equívocos da política econômica” do atual governo. Ou melhor, o leitor sai desses textos com a sensação de que a presidenta Dilma cometeu erros monstruosos, mas não consegue saber quais foram, nem muito menos quais os impactos que esses erros tiveram na nossa economia – é só balela.

           Em suma, todos já tivemos a oportunidade de ler inúmeros artigos, editoriais e análises econômicas com o surrado título de “Erros da Dilma”, cujos textos, recheados de frases e clichês sobre macroeconomia política, não conseguem apontar, concretamente, os famosos “erros do governo”, suas reais consequências e seu potencial destruidor da economia brasileira. É claro que erros devem ter havido, pois há erro em todo lugar. Assim, não se trata de defender a política econômica da presidenta Dilma. Trata-se apenas de querer entender (para além do senso comum) quais foram realmente esses erros tão decisivos que, segundo dizem, teriam levado a economia do país à beira do abismo.

            Desculpem minha possível (e muito provável) ignorância, mas a impressão que se tem é que muita gente, “entendidos” e leigos, anda por aí reproduzindo essa tagarelice econômica sem saber exatamente o que está falando – mais ou menos como bonecos de ventríloquo. É um horror o que a gente encontra por aí de neoeconomistas repetindo essa clicheria enjoativamente, sem demonstrar, no plano concreto, o que é que querem dizer com esse festival de clichês.

            Todavia, a direita e seus lacaios sabem muito bem o que estão fazendo. Isto é, sabem que toda essa “cantilena” sobre economia, um discurso superficial e irresponsável, serve para ampliar a crise econômica, para transformar essa crise numa crise política, para transformar a crise política numa crise institucional, fazendo o governo da presidenta Dilma “sangrar” até as vésperas da eleição de 2018 – abusando credulidade da opinião pública.

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2 respostas para Tagarelice econômica

  1. Lineu disse:

    No programa do Ivez Gandra ,ele disse que tal situação econômica compara se ao período Collor antes da cassação , achei leviano por vir dele isso !
    O Brasil teve investimentos , tem reservas , bem diferente !

  2. Mandy disse:

    Caro Alberto, este texto combina perfeitamente com algo que vivi recentemente.
    Semana passada estava com um amigo e, em meio a uma conversa, ele falou da alta do dólar e imediatamente atrelou a baixa à saída da Dilma, como se fosse uma condição sine qua non. Disse para ele que não era bem assim e parei. Evitar confusão é tudo hoje em dia! Mas ele não se conteve e continuou, agora para dizer que o governo Dilma havia “quebrado o Brasil” e quem entrasse (insistindo que ela sairá em breve) deveria imediatamente acabar com “assistencialismo exagerado que afundou o país”, “parar de dar tudo”. Vamos lá, muita paciência e aquela contagem mental…1, 2, 3, 4,…Falei para ele que não é bem assim, de novo! Tem a dívida pública, a sonegação fiscal, evasão de divisas, que corroem a receita…etc., etc.. Ele disse: “Sei, sei, sei disso, mas esse governo criou a ideia que nós somos grandes, que somos ricos, que temos potencial e não somos! Aí está o desastre”. Ainda ensaiei mentalmente a resposta (se bem que ele não me deixava falar muito), mas deixei para lá.
    Acabei dizendo que não discuto política e economia com amigos atualmente, justamente para evitar atritos.

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