Dinheiro benzido

          DURANTE a arguição do empresário Ricardo Pessoa na CPI da Petrobras, o deputado Jorge Solla (PT-BA) perguntou ao dono da UTC qual o critério que ele utilizava para afirmar que o dinheiro repassado por sua empresa à campanha de Dilma Rousseff era propina, enquanto o dinheiro repassado pela mesma empresa ao tucano Aécio Neves era simplesmente doação de campanha.

              Admitindo que na última eleição presidencial a firma de Ricardo Pessoa realmente fez doações à candidata do PT, o deputado petista fez questão de ressaltar que a UTC doou 1,5 milhão a mais para a campanha do candidato tucano. Em seguida, com explícita ironia, o deputado indagou se o empresário era capaz de explicar por que o dinheiro doado à campanha de Dilma Rousseff seria produto de corrupção e o dinheiro doado a Aécio Neves, pela mesma empresa, era dinheiro lícito, talvez até “benzido pelo papa”.

             Segundo o parlamentar baiano, o mesmo ocorreu em São Paulo: enquanto a doação  de R$ 500 mil feita pela UTC ao ministro Aloízio Mercadante está sendo investigada na operação Lava Jato, a doação de R$ 1,85 milhão feita pela mesma UTC ao governador Geraldo Alckmin não mereceu nenhuma investigação, ou seja, o dinheiro doado ao PT em São Paulo também é “dinheiro suspeito”, mas o dinheiro doado ao PSDB paulista é “dinheiro benzido”.

             Não é por isso que o governador de São Paulo deveria ser investigado, se é que as doações que recebeu da UTC estão devidamente declaradas e registradas na justiça eleitoral. Mas, por que o candidato a senador pelo PT, Aloízio Mercadante, haveria de sê-lo, se as doações feitas à sua campanha, com o mesmo dinheiro da mesma UTC, estão igualmente declaradas e registradas na justiça?

          A ironia do deputado baiano, Jorge Solla, na CPI da Petrobras é perfeitamente compreensível, pois tanto as doações feitas aos petistas quanto aquelas destinadas aos tucanos foram registradas na justiça eleitoral como doações lícitas. Todavia, apenas os candidatos do PT é que estão sendo investigados por causa dessas doações – apenas eles são suspeitos de corrupção política.

            E por que isso acontece? Ou seja, por que tão somente os candidatos do PT são investigados por corrupção e os candidatos do PSDB, e de outros partidos da direita, não são sequer considerados suspeitos? A resposta é muito simples. Os candidatos do PT são investigados porque os empresários que depõem na operação Lava Jato, como réus delatores, afirmam que os petistas exigem doações de campanhas para celebrar contratos com a Petrobras; porém, os candidatos do PSDB, que recebem idênticas doações de campanha, o fariam desinteressadamente, apenas por “espírito público”, sem dar nem prometer nada em troca.

        Dessa forma, em última instância, quem na verdade define os rumos das investigações, colocando o PT e os petistas no banco dos réus e os tucanos fora desse banco, são os empresários delatores com seus depoimentos tendenciosos que, além de lhes render benefícios jurídicos no processo, ainda têm o efeito político de aniquilar um incômodo adversário de esquerda.

             Claro que os empresários delatores, por razões político-ideológicas, iriam mesmo jogar a culpa pela corrupção nas costas de um partido de esquerda, pois esse partido é um “estranho no ninho” da política, e pouco confiável aos olhos do empresariado da direita, afinal, o PT sempre se posicionou contra e até votou pelo fim do financiamento privado e empresarial de campanha no Congresso Nacional.

             Assim, a estratégia adotada pela maioria dos empresários flagrados na corrupção da Petrobras direciona toda a investigação apenas contra o Partido dos Trabalhadores, poupando abertamente os demais partidos. E é exatamente essa atuação direcionada que pode acabar transformando a operação Lava Jato numa autêntica operação político-partidária.

          Apesar desse risco de transformar um instrumento jurídico num mecanismo de perseguição política, os investigadores da Lava Jato continuam “acreditando” piamente em todas as versões dos delatores, a mídia finge que acredita nessas delações e faz com que a opinião pública acredite também na versão dos empresários criminosos, que agora estão fazendo uma espécie de “cartel das delações” contra o PT e os petistas.

              Ou seja, tanto no interior da Lava Jato quanto na mídia empresarial – e na opinião pública também -, prevalece a versão dos delatores, vale dizer, a versão segundo a qual apenas as doações feitas ao Partido dos Trabalhadores seriam provenientes de corrupção, pois as demais, a favor do PSDB e de outros partidos da direita, seriam sempre doações “limpas”, provenientes talvez do tal “dinheiro benzido pelo papa”. Desculpem os homens e as mulheres de boa-fé, mas quem acredita nisso, acredita em qualquer coisa!

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