O dedo de Lula

    O ANTIGO preconceito contra a pessoa de Lula da Silva, que está na base do antipetismo mais obscuro, voltou novamente a explorar o detalhe físico de uma das mãos do ex-presidente, cujo dedo mínimo (mindinho) foi amputado por um torno mecânico num acidente de trabalho.

     Nas últimas manifestações contra o PT e contra a presidenta Dilma, foi possível observar pelas ruas que algumas camisetas dos manifestantes (usadas inclusive por crianças inocentes), e também vários adesivos colados em automóveis (que circulam até hoje), estampavam a imagem da mão de Lula, sem um dos dedos, circundada por um sinal de trânsito que indica proibição. É evidente que esse tipo de propaganda promove uma associação negativa entre a figura do político Lula da Silva, a deficiência física de sua mão lesionada, e o sinal proibitivo de trânsito, propondo a rejeição da pessoa retratada na imagem.

      A rejeição a uma pessoa – qualquer pessoa -, identificada por meio de uma deficiência física é atitude que favorece a disseminação do preconceito. É sempre intrinsecamente discriminatório identificar um indivíduo por meio de suas características físicas ou deficiências. Tanto é verdade que, já na campanha presidencial de 2006, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu, e até mandou recolher, todas as propagandas que faziam referência negativa ao então presidente-candidato Luiz Inácio Lula da Silva mediante exploração da imagem de uma de suas mãos com o dedo amputado.

        O combate a qualquer tipo de preconceito não é apenas uma obrigação moral, é uma imposição da lei. Com efeito, a Constituição de 1988, no seu art. 3º, elegeu entre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a promoção do bem de todos, sem preconceitos e sem qualquer forma de discriminação. É bem por isso que o art. 88 da Lei Federal nº 13.146/15 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) considera crime, punido com reclusão de 2 a 5 anos, qualquer prática que induz ou incita a discriminação de pessoa em razão de sua deficiência, especialmente quando esse crime é cometido por intermédio de publicação de qualquer natureza, como é o caso das mensagens em camisetas e adesivos veiculadas no espaço público.

       O crime se torna mais grave quando cometido através de publicações justamente porque elas induzem um número elevado de pessoas a praticar a discriminação e o preconceito, atingindo também um elevado número de indivíduos com deficiência. Nesse caso, o dano moral é coletivo, por isso mesmo enseja a reparação por meio de sanções penais graves e ações indenizatórias específicas. Logo, seria bom ensinar às crianças e avisar os adultos infantilizados que atitudes como essa contra a pessoa de Lula da Silva, explorando negativamente uma sequela física, para além dos efeitos antipedagógicos, do evidente mau gosto, da lastimável falta de criatividade e da estupidez do preconceito, configuram crime punido com cadeia.

      Parêntesis: (neste ponto tomo a liberdade de incorporar ao texto o argumento da leitora Áurea Arruda no sentido de que a discriminação contra Lula é também um escárnio praticado contra a classe trabalhadora neste país que, lamentavelmente, ainda é um país “campeão de acidentes do trabalho”).

         É lamentável que o antipetismo se valha de expedientes tão rebaixados (e criminosos) para atingir a pessoa do político e do ex-metalúrgico! No fundo, a alusão negativa ao detalhe físico da mão de Lula é uma prática tão apelativa que revela a mediocridade, o atraso e o obscurantismo político em que boa parte da sociedade brasileira ainda se encontra mergulhada. Aliás, o preconceito contra o ex-presidente Lula vem de longe – e vem das profundezas da sociedade brasileira. É insuportável para uma elite preconceituosa, narcisista e arrogante, herdeira das nossas piores tradições colonialistas, a ideia de que um simples operário, nordestino e pobre, sem diploma de curso superior e sem títulos acadêmicos possa transformar-se no máximo magistrado da nação.

       É insuportável a ideia de que um reles operário venha a merecer algumas importantes distinções acadêmicas, e receba até títulos de doutor honoris causa concedidos por várias universidades renomadas no Brasil e no mundo, quando essas coisas sempre foram um privilégio exclusivo dos filhos da elite abastada e o “sonho dourado” da classe média que se elitizou. Assim, aquilo que deveria ser motivo de orgulho para os brasileiros, e uma prova de efetividade das nossas instituições democráticas, ou seja, a possibilidade de que um trabalhador assuma o mais alto cargo da república, ao invés de despertar a confiança no mérito e na democracia, acabou despertando foi o ódio; aquilo que deveria simbolizar a esperança de construirmos uma sociedade realmente igualitária e sem castas, acabou suscitando o preconceito típico de uma sociedade elitista, claramente condicionada por seu passado colonial e escravocrata.

        Segundo o físico Alberto Einstein, é mais fácil romper o núcleo de um átomo do que romper um preconceito. Infelizmente, ainda há uma parcela da sociedade brasileira, com a consciência bloqueada talvez pelo ódio político, que vem confirmando essas sombrias impressões do genial físico alemão. Seja como for, devemos esperar sempre que a razão iluminista se sobreponha à miséria da razão. E como tudo na vida é possível, pode ser até que um dia os detratores de Lula da Silva troquem o ódio pela crítica, bem como as piadinhas infantis e preconceituosas pelo debate qualificado, pois a racionalidade política foi inventada justamente para substituir a guerra, o ódio, a infantilização do homem e a escuridão do preconceito.

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Uma resposta para O dedo de Lula

  1. Vera Lu disse:

    Tem razão o Sr. Antônio a elite e a classe média brasileira age como se estivessemos no séc . XIX, preconceituosa e racista.

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