O ódio e o perdão

           DEU nas folhas e nas mídias que o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, processou dois empresários que o insultaram publicamente num restaurante de São Paulo, chamando-o em altos brados de “palhaço” e “ladrão sem vergonha”. O ex-ministro processou os dois homens pela prática de crime contra a honra (injúria, calúnia ou difamação) e os dois agressores, em face do processo criminal, resolveram voltar atrás e pedir perdão ao ofendido.

                  O episódio é burlesco, mas também é revelador.

               É burlesco porque revela que os agressores do ex-ministro agiram de maneira ridícula, feito dois moleques impetuosos que não conseguem medir as consequências de seus próprios atos; e é revelador porque deixa evidente que há mesmo um ódio e uma intolerância muito grande em relação ao governo petista e às pessoas ligadas a esse governo.

                    De onde vem esse ódio e essa intolerância?

          Difícil saber porque o ódio, qualquer ódio, é sempre uma manifestação de irracionalidade, portanto, algo que se põe fora do alcance da razão humana. É por isso que André Glucksmann (O discurso do ódio) defende a tese de que “o ódio acusa sem saber, julga sem ouvir e condena a seu bel-prazer”. Uma das características do ódio é justamente a circularidade: condena porque odeia, e odeia porque condena.

             Foi exatamente isso o que fizeram com o ex-ministro Guido Mantega: seus agressores acusaram-no sem saber por quê, julgaram-no sem ouvi-lo, e o condenaram apenas pelo desejo de ultrajar publicamente uma pessoa em razão de suas opções políticas. Por tudo isso, por causa da acusação, da condenação de do ultraje público, passaram a odiá-lo ainda mais – um ódio agora “justificado”.

                Tanto é verdade que o ódio é estúpido, que os dois empresários, recobrando a razão e o juízo, voltaram atrás e um deles afirmou que agiu mesmo irrefletidamente, pois o ofendido é uma pessoa digna; o outro disse não saber nada que pudesse desabonar a vida pública do economista Guido Mantega. Ou seja, o ódio quase sempre é mesmo uma coia gratuita; uma estupidez.

                  Depois de admitir que agiram assim levianamente, depois de reconhecer que não tinham razão nenhuma para proferir os xingamentos que proferiram, passado o fiasco, os empresários agressores do ministro pediram perdão… e o ministro perdoou. Pois é, um odeia e o outro perdoa. Mesmo assim ainda há quem diga por aí que a disseminação do ódio na política brasileira é simplesmente coisa e obra do Partido dos Trabalhadores… e dos petistas!

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