Os verdadeiros pinóquios

          AGORA arranjaram uma boneca inflável da Dilma Rousseff com nariz de pinóquio para sugerir que a presidenta é mentirosa, provavelmente porque ela disse uma coisa na campanha de 2014 e está fazendo outra na sua atual gestão, à frente da presidência da república. Mas, o esquisito é que a presidenta Dilma está fazendo agora exatamente aquilo que queria essa turma que anda aí com os bonecos na rua. Ou seja, rendeu-se à cantilena do neoliberalismo e ao eterno “ajuste fiscal”, que implica o corte de direitos e benefícios da classe trabalhadora, exatamente como queriam os donos da boneca da presidenta.

            Por isso, esses bem-nascidos (e bem-postados na vida), que fazem essa gritaria toda nas ruas e nas redes, na verdade, deveriam aplaudir a presidenta Dilma Rousseff, pois ela está tomando agora as tais “medidas amargas”, que eles tanto queriam quando apoiaram o programa econômico neoliberal de Aécio Neves, que falava exatamente nessas “medidas” aplicadas agora.

           Essa gente anda tão desnorteada que protesta e agride a presidenta da república, o ex-presidente Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores mesmo quando eles atendem suas reivindicações. Isso revela que esses parvalhões moralistas, que andam na rua a pedir o impeachment da presidenta e a intervenção dos militares, fazem uma gritaria enorme sem saber direito por quê.

           A turba barulhenta, estumada por uma mídia que sabe explorar o tosco moralismo de grande parte da população, está muito longe de entender os reais problemas por que passa o Brasil neste momento, e nem sequer imagina qual foi o grande “erro da Dilma” na condução de sua política macroeconômica. Os “donos da opinião pública” enfiaram na cabeça desse povo “indignado” que a Dilma e o PT quebraram o Brasil por causa da gastança exagerada, da “farra” e do “populismo” com o dinheiro público. Convenceram boa parte da população de que os governos petistas teriam gastado de forma irresponsável com programas sociais equivocados, provocando o tal “déficit primário”, a crise fiscal e a bancarrota financeira do país.

            Tudo isso é mentira da grossa.

        O Brasil não está quebrado, pois um país com 370 bilhões de dólares em reservas internacionais está muito longe da quebra, considerando-se que o próprio FMI, BID, Banco Mundial e agências de avaliação de risco projetam para o Brasil um estoque de reserva que não chega nem à metade do estoque que já temos. O que na verdade quebra o Brasil, e aí está o “grande erro da Dilma”, é a obscena taxa de juros (SELIC) que chegou atualmente à casa dos 14,25%, uma das maiores do mundo. Essa é uma distorção histórica de todos os governos anteriores – o governo de FHC, com Armínio Fraga à frente do Banco Central, chegou a praticar a absurda Taxa Selic de 44,85% a.a.

           O que o governo brasileiro gasta hoje com “despesas financeiras” para pagamento dos juros da dívida pública chega a R$ 440 bilhões anuais, ou seja, quase 8% do PIB nacional. Mas, o que ele gasta com “despesas sociais”, como o programa Bolsa Família, por exemplo, não passa de R$ 28 bilhões por ano, isto é, bem menos de 0,005% do PIB. Estima-se (os investigadores estimam) que todos os prejuízos causados pela corrupção na Petrobras, ao longo desses anos todos (muitos anos), não passam de R$ 52 bilhões de reais. Mas, a opinião pública manipulada ainda acha que a Operação Lava Jato, e o moralismo tacanho que ela despertou, vai “passar o país a limpo” e fazer o Brasil crescer, mesmo despejando R$ 440 bilhões de juros nos cofres da banca e dos rentistas.

        É fácil entender porque os bancos não deixam de lucrar enquanto a classe trabalhadora continua “pagando o pato” dessa orgia financeira. Os bancos tomam dinheiro na praça sem custo nenhum, compram títulos do governo, ou seja, emprestam esse dinheiro ao tesouro nacional a juros de 14,85% ao ano – só o governo está preso a essa SELIC – obtendo lucro líquido de 5% acima da inflação, e ainda acrescentam os juros à dívida principal como numa “bola de neve”. Absurdo, não? Pois é, faça as contas, companheiro. Veja o volume de dinheiro que vai para os endinheirados (bancos, fundos e investidores) e você já saberá imediatamente quem é que na verdade está “quebrando” o Brasil.

              Por que a turma dos indignados não pega suas faixas e seus bonecos, com toda essa comovente indignação moralista, e não sai às ruas para protestar contra a imoralidade dos juros que provocam, estes sim, o “desajuste fiscal”, o “desequilíbrio das contas” o “déficit primário”, o “déficit nominal” e, enfim, a ingovernabilidade do país? Sabe por quê? Porque os pinóquios da economia (economistas, ideólogos e jornalistas da direita) não contam essa história pra eles, pois, a estratégia é manipular a opinião pública com mentiras e argumentos moralistas, jogando-a contra os governos e os representantes das classes populares e da classe trabalhadora, que chegaram, não sei como, ao Palácio do Planalto.

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3 respostas para Os verdadeiros pinóquios

  1. Jose Americo disse:

    A única coisa que vou comentar, caro amigo, é que se a então candidata Dilma tivesse tomado essa postura antes das eleições, certamente não teria sido eleita. Esse argumento de que “agora” está sendo aplicado o remédio amargo dos neoliberiais é pura jogo de palavras para encobrir o estelionato eleitoral praticado pelo partido. O restante dos seus comentários pode ser absorvido porque, na verdade, não temos e nunca tivemos oposição de verdade nestes últimos 13 anos de governo. Desta forma, esse é o preço pago aos que não concordam com esse tipo de argumentos, e mais, dos 49% que votaram contra a presidenta, pelo menos a metade votou sem opção. Era o fracassado do Aécio ou isso ai que vocês chamam de presidenta. O pais estaria de pernas pro ar com qualquer um dos dois.

    • Caro amigo Zé Américo,

      Como sempre, honra-me a leitura e sua disposição de comentar os posts. Na primeira parte do texto (a parte que você comentou) a intenção era apenas apontar que, curiosamente, as vítimas do “estelionato eleitoral” não estão protestando contra a presidenta, mas, sim, os beneficiários das atuais políticas adotadas, de claro cunho neoliberal. Seria interessante saber, então, quais foram as forças que impuseram à presidenta Dilma essas políticas que ela (e todo o campo da esquerda) rejeitam historicamente. Mas, isso fica para um outro post.

      Sigo muito grato pela atenção.

      Fraterno abraço, Machado

  2. Ana Luiza disse:

    Auditoria da dívida pública já!!!!

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