As “verdades” econômicas

              APESAR de valer-se frequentemente da matemática, dos números, das estatísticas e de complicadas operações financeiras, é sempre necessário lembrar que a Economia, se for realmente uma ciência, não é uma ciência exata – é um saber que pertence ao domínio das chamadas ciências humanas ou sociais. Isso quer dizer que as pesquisas, as investigações e os estudos econômicos não se submetem ao mesmo rigor metodológico das ciências físico-matemáticas e, por isso mesmo, não há um elevado grau de certeza nem muito menos uma “verdade científica” no campo da Economia ou do “saber econômico”.

          Obviamente que as “Ciências Econômicas” não constituem um saber vulgar, sem metodologia nenhuma. Digo apenas que a Economia não é uma ciência exata e, além disso, como ocorre com toda ciência social, o conhecimento que ela produz está sob forte influência de fatores extracientíficos como, por exemplo, os fatores políticos, ideológicos, filosóficos etc., que são intrínsecos às ciências humanas.

             Logo, as “verdades econômicas” são múltiplas e o saber dos economistas, tal como ocorre com os saberes nas ciências sociais em geral, não é um saber objetivo, matematicamente exato, nem tampouco neutro. Desse modo, as conclusões, análises, diagnósticos e previsões econômicas, por mais tecnocráticos que sejam, ou por mais “científicos” que possam parecer, sempre estarão influenciados (e às vezes até mesmo condicionados) por fatores político-ideológicos, que escapam ao controle da ciência e dos economistas.

         Dessa forma, é recomendável que se tenha bastante cautela diante daquelas conclusões aparentemente seguras, formuladas com a linguagem hermética dos economistas, ou dos jornalistas econômicos que, a toda hora, andam pelos jornais e pelas televisões lançando seus respeitáveis pareceres sobre a crise das economias brasileira e mundial.

               Por exemplo, o economista norte-americano Paul Krugman, que em 2008 faturou o prêmio nobel de economia, disse recentemente em sua coluna no The New York Times que ninguém ainda conseguiu explicar o que provocou o estouro da bolha imobiliária e a crise bancária desencadeada nos EUA; ninguém decifrou por que a Europa entrou numa crise de dívidas com recessão; e ainda, diz o nobel, não há quem consiga explicar as razões dos atuais problemas econômicos da China e de outros países emergentes como o Brasil.

           Segundo Krugman, nem mesmo o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1987 está suficientemente explicado, pois todas as opiniões de economistas e jornalistas especializados não encontraram até hoje qualquer respaldo na realidade. Em suma, para o nobel de economia, ninguém sabe, palavras dele, “por que a economia mundial está capengando” e produzindo reflexos inclusive sobre a moeda brasileira.

               Mas, aqui no Brasil, curiosamente, os economistas da burguesia, os “entendidos” e “desentendidos” da mídia, que ainda não ganharam nenhum nobel de economia por pura injustiça, já descobriram os reais problemas da nossa crise econômica. Ou seja, segundo esses “especialistas” (e seus patrões) o Brasil está mal das pernas, aliás, como o resto do mundo capitalista, por causa dos famosos e jamais demonstrados “erros da Dilma” – parece que a Dilma governava a economia mundial.

               Com quem estará a razão “científica”, com o nobel de economia quando diz que há uma nova crise mundial do capitalismo, que atinge os países ricos e também os emergentes, ou com os nossos “entendidos” e “desentendidos” de plantão, que descobriram as causas dessa crise lá no Palácio do Planalto? É óbvio que a cantilena enjoativa dos nossos “especialistas econômicos”, que estão a serviço de seus senhores e só sabem repetir a frase feita de que o problema do Brasil foi o “intervencionismo estatal na economia”, é um discurso político-ideológico.

             Eu próprio, que não entendo nada de economia, tive o capricho de ficar espreitando o discurso desses “especialistas” mas não vi nenhum deles apontar onde é que se deu, concretamente, o tal “intervencionismo econômico”, ou como andou a tal “nova matriz econômica” de Dilma e Guido Mantega, que teriam feito tão mal ao país. Não encontrei até agora nenhuma análise consistente que demonstrasse como ocorreu esse “intervencionismo” e quais os efeitos dele na economia – só clichê enjoativo.

            Nessa mesma linha da clicheria ideológica, seja-me permitido um pequeno exemplo pessoal, e talvez até muito prosaico, para demonstrar como opiniões econômicas, aparentemente técnicas e científicas, são na verdade pareceres carregados de intenções ideológicas. Outro dia, na sala de espera de um consultório, por falta do que fazer, acabei lendo um artigo do ex-ministro Maílson da Nóbrega, publicado na revista Veja (ainda leio os “propagandistas” do capitalismo) em que ele dizia, com toda fleugma científica, que a presidenta Dilma segurou o preço das tarifas de energia apenas para “disfarçar a inflação”.

             Pois eu já acho (quem sou eu!) que a decisão de não elevar os preços de um bem, de uma mercadoria, de um serviço ou de uma tarifa, na verdade, é uma tentativa de manter a inflação em baixa, e não de disfarçá-la. Pois o processo inflacionário se caracteriza exatamente pela elevação generalizada dos preços – de bens, mercadorias, serviços e… tarifas. Ou não?

            Quem é que estará “cientificamente” certo: eu, que sou um incompetente curioso em matéria de economia, ou o festejado economista Maílson da Nobrega? Quem poderá provar cientificamente que a contenção do preço das tarifas era apenas um disfarce e não uma estratégia para conter o disparo da inflação? Creio que qualquer resposta a essas questões sempre estará carregada de alguma “malícia”, alguma intenção político-ideológica – o problema é que ninguém (muito menos os “doutores”) admite isso.

          Em tema de economia, em vez de ficar posando de especialista ou tecnocrata cientificamente neutro, o mais honesto seria assumir logo de cara os próprios compromissos e preferências ideológicos; ou ter a humildade científica de dizer, como disse Paul Krugman, que “ninguém tem muitas respostas” para explicar a instabilidade, os acidentes e os azares da atual conjuntura econômica global. Isso, sim, é fazer ciência: utilizar a dúvida cartesiana para continuar investigando; e ficar arrotando “verdades” contaminadas de “vontades”.

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