Depois do carnaval

    OS ATUAIS “donos da democracia” (na democracia liberal burguesa a política sempre será subjugada pelo poder econômico) mandaram acabar com a “farra do golpe” e a farra acabou mesmo. Como numa autêntica quarta-feira de cinzas, colombinas e pierrôs guardaram as suas fantasias, acordaram para a realidade e voltaram pra casa de ressaca e mau humor.

   De fato, dois grandes representantes do capital financeiro, Luiz Carlos Trabuco (Bradesco) e Roberto Setúbal (Itaú), pronunciaram-se publicamente contra o impeachment da presidenta Dilma; as maiores entidades representativas do capital industrial (FIESP, FIRJAN e CNI) fizeram o mesmo; e, finalmente, o capital midiático, por meio do Grupo Globo, condenou em editorial a irresponsabilidade política dos que pediam a deposição da presidenta.

    Pronto, por enquanto não vai ter golpe!

    E aquele bloco excêntrico do “impeachment já”, da “intervenção militar” e até da “volta da monarquia” ficou na avenida, sem pai nem mãe, “a ver navios” – quarta-feira de cinzas amarga essa! É preciso lembrar, no entanto, que política e democracia nada têm a ver com as fanfarronices do carnaval. Por isso, um mínimo de responsabilidade política e de senso crítico fariam muito bem àqueles que puseram em risco a nossa estabilidade econômica e institucional sem pensar nas importantes conquistas democráticas (e sociais) dos últimos anos no Brasil.

    Claro que a democracia deve conviver naturalmente com as diferenças, com os diferentes e com a plena liberdade de expressão. Deve, portanto, tolerar os mais diversos pontos de vista, inclusive aqueles que nos pareçam verdadeiras aberrações como as inúmeras mensagens que vimos nas manifestações de rua, no último 16 de agosto, pedindo a supressão da democracia e a volta da ditadura.

   Mas, podem as liberdades democráticas chegar ao ponto de pleitear o fim da própria democracia? Creio que não. Creio que apenas o ódio irracional, o atraso obscurantista, a intolerância política ou algum moralismo bizarro é que responderiam afirmativamente a essa pergunta.

   É prudente lembrar que todas as ditaduras na América Latina, umas mais sangrentas que as outras, começaram exatamente assim, apoiadas num moralismo tosco que pretendia acabar com a corrupção e com a baderna, geralmente promovidas pelos “perigosos comunistas” que até comiam criancinhas e “nunca respeitaram nem as tradições nem a família nem a sagrada propriedade”.

    Agora, depois da festa, temos de cuidar do nosso amadurecimento político, tratar de fortalecer as nossas instituições democráticas e a nossa incipiente democracia, trabalhar pela recuperação econômica do país, almejando o crescimento econômico com justiça social, antes que seja tarde demais.

    E por falar em responsabilidade democrática, os brasileiros já deveriam ter percebido que alguns delírios políticos, como intervenção militar e volta da monarquia, e bem assim certos devaneios econômicos, como a anacrônica cartilha “protoliberal” de Ludwig von Mises, decorada e repetida mecanicamente pelo garoto Kataguiri feito boneco de ventríloquo, jamais levarão a democracia brasileira a lugar algum.

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Acesse http://www.outrasprosaswordpress.com

 

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Uma resposta para Depois do carnaval

  1. Lineu disse:

    E parece que teremos um candidato a prefeito em SP lá na emissora da Barão do Amazonas,globo também ,néhhh.

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