Um verdadeiro carnaval

     EVIDENTE que os protestos da direita e da classe média nas ruas estão perdendo força, e é natural que isso aconteça. Simples concentrações de pessoas, convocadas periodicamente ou “lideradas” por grupos que não podem ser considerados “movimentos sociais”, como o “Vem Pra Rua”, o “Movimento Brasil Livre”, os “Revoltados on line” e o “Acorda Brasil”, este último formado por um descendente da família real, tendem a produzir muito barulho e pouco resultado.

    Pelas manifestações do último domingo (16.08.15), pelas mensagens que se viu em cartazes, pelas declarações de manifestantes e pelas faixas que carregavam foi possível perceber que nesses protestos tem muita gente insatisfeita, mas que não sabe o que quer – não sabe por que quer e não tem a menor ideia do que deveria querer.

    De fato, pedir “intervenção militar”, “morte da presidenta”, “morte do Lula”,  “volta do Sarney”, “impeachment” sem fundamento, “intervenção satânica”, “eliminação do STF”, “morte de comunista”, “feminicídio”, elogiar Eduardo Cunha, tietar a polícia, e ainda por cima tirar a roupa na avenida e na frente do Palácio do Planalto, convenhamos, é um “papelão” – coisa de quem jamais será levado a sério na política.

    Excentricidade e mau gosto à parte, é claro que havia muita gente bem intencionada nesses protestos do último domingo, mas, mesmo essas pessoas de “boas intenções” estavam muito mal acompanhadas, e não traziam também qualquer reivindicação consistente para além da surrada “revolta” seletiva contra a corrupção, das propostas de ruptura democrática e de um incontido ódio ao PT.

    O mais lastimável é que essa força popular da classe média, cuja maioria tem naturalmente uma visão de mundo conservadora (é assim no mundo todo), está sendo desperdiçada com baboseiras quando poderia ser canalizada para atacar os reais problemas do Brasil atual.

    Essa turma da avenida cai no samba – o jornal Financial Times noticiou que as passeatas de ontem tinham um “clima carnavalesco” – e perde o discernimento político! Saem pelas ruas fantasiados (e até pelados) sem nenhuma condição de desenvolver qualquer senso crítico sobre os nossos problemas atuais e muito menos sobre os caminhos e estratégias que deveríamos definir para enfrentá-los.

    Com efeito, estão aí às portas do Brasil as “cinco irmãs do petróleo” (Chevron, Texaco, Esso, ExxonMobil e Shell), todas estrangeiras, de olho na privatização da Petrobras e no nosso pré-sal; estão aí os planos de saúde privados (nacionais e estrangeiros) doidos para acabar com o SUS e transformar a saúde do brasileiro em mercadoria; estão aí querendo mexer na aposentadoria dos trabalhadores; estão aí querendo acabar com o Mercosul; estão aí querendo consolidar a terceirização; estão aí mantendo o financiamento privado de campanha, mas, contra esses crimes de lesa-pátria, não se ouve nenhum pio dessa gente tão “revoltada”.

    É realmente uma pena que essa “força das ruas”, demonstrada por boa parte da classe média do país no último domingo, esteja tão afastada dos reais problemas brasileiros, cegada pelo ódio, pela intolerância e pela alienação política. Os magnatas da mídia são os grandes responsáveis por essa miopia ideológica que atinge enormes parcelas da população brasileira, inclusive a parcela que se diz “mais consciente”.

    Acorda Brasil, vem pra luta! O povo tem muito o que fazer, tem muita coisa por que lutar, tem muito interesse em risco para ficar rebolando atrás de trio elétrico, passeando alegremente num domingo de sol, tirando selfies com a polícia, fazendo apologia de crime e dizendo os disparates (alguns impublicáveis) que nos envergonham aos olhos do mundo. Foi ridículo!

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6 respostas para Um verdadeiro carnaval

  1. José Américo Carnevalli disse:

    Meu caro amigo, aproveitei quase todo seu brilhante texto para mostrar o outro lado desses acontecimentos. Não sou politico, não sou filiado a nenhum partido politico, não sou de esquerda e nem muito menos de direita, quiçá de centro de qualquer lado. Sou um cidadão que vivo, vejo e analiso todas as vertentes. Não entenda isso como uma provocação, apenas foi uma oportunidade de escrever algo baseado no seu muito bem escrito texto, que aliás, vou deixar claro, não coloco nenhum senão diante da visão de quem entende do assunto. Com todo meu respeito e sempre com muita admiração!!!

    Um carnaval meia boca

    Evidente que os protestos da classe trabalhadora estão perdendo força, e é natural que isso aconteça. Simples concentrações de sindicatos, convocadas periodicamente ou “lideradas” por bravejadores não podem ser considerados movimentos sérios, são, na totalidade, bancados com dinheiro público.
    Na manifestação do último domingo (16.08.15) em frente ao Instituto Lula, o que se viu foi algumas dezenas de ônibus pagos para trazerem manifestantes, todos de coletes vermelhos de um sindicato, todas elas satisfeitas com o governo, mesmo sem saber ao certo o que faziam naquele local.
    De fato, pedir a manutenção deste governo, fortalecer a presidente, inocentar o Lula do Mensalão e Petrolão, o Renan o amigão, Cunha o inimigão, aplaudir os companheiros que estão atras das grades e cerrar o punho como o Genuíno e o Dirceu, convenhamos, é um papelão – coisa de quem jamais será levado a serio na politica.
    Menos excêntrico, mas de muito mais mau gosto à parte, é claro que havia alguns poucos bem intencionados nesse protesto de apoio ao governo, mas também muito mal acompanhadas e sem nenhuma consistência para defender qualquer causa que justificasse a presença deles ali, nem mesmo defender a indefensável corrupção.
    O mais lamentável é que essa força popular trabalhadora (leia-se sindicalistas), cuja maioria são miupes na visão do mundo e acham que ser de esquerda é o supra sumo do momento, está sendo desperdiçada com baboseiras quando poderia ser canalizada para atacar problemas reais do Brasil atual (e como!).
    Essa turma do movimento do Instituto Lula também cai no samba – esse mesmo jornal Financial Times, se tivesse sido mais atento relataria também o clima festivo e carnavalesco de lá, só não comprovaria “pelados”, porque o sindicato enfiou guela abaixo aqueles horrendos coletes vermelhos em cada um deles.
    Com efeito, se estão ai às portas da Petrobrás as gigantes do petróleo querendo abocanha-la, é necessário perguntar porque e quem aniquilou a Petrobrás. Acabar com o Mercosul e consolidar a terceirização do financiamento de campanha, não é, nem de longe, algo que se possa fazer num estalar de dedos. Então menos!
    É realmente uma pena que o Partido dos Trabalhadores promoveu e mostrou o que é o ódio, fez isso tempos atrás e não dá para apagar esse passado. Toda essa intolerância tem raízes e por mais que se critique a mídia, ela dá espaço para todos, entretanto, cada um escolhe quem defende e quem ataca. Conscientemente, seria bom pensar, porque a miopia ideológica atinge em cheio a esquerda na atualidade.
    Acorda Brasil, deve ir pra rua sim, o povo (de todas as classes) precisam mostrar sua satisfação ou insatisfação, mesmo porque se uns rebolam atras do trio elétrico, outros montam barracas de churrasquinho e, não se esqueçam, também levam as tais “escolas de samba” e também fazem selfies, não sejamos hipócritas, porque são pagos para estarem lá (Itaipú Binacional) e mais, também dizendo disparates impublicáveis) (porque não são santinhos), que nos envergonham aos olhos do mundo apoiando Castros, Maduros, Cristinas e Morales.
    Ridículo!!!

    • Caro amigo Zé Américo,

      Muito obrigado, mais uma vez, pela leitura do blog.

      Achei bem interessante e muito espirituosa a “versão” que você fez do post. Vejo que é uma versão com perspectivas ideológicas diametralmente opostas ao texto publicado, mas esse conflito de ideias é muito saudável.

      Espero continuar contando com as suas intervenções assim tão respeitosas. Não vejo no seu comentário nenhuma provocação. Apesar do antagonismo das opiniões, acredito que temos conseguido manter a nossa antiga amizade acima de quaisquer divergências políticas ou conflito de ideias.

      Grande abraço, Machado

  2. Kasla Garcia Gomes disse:

    Impressionante!!! Saudades desse professor que faz vibrar as emoções!
    De fato, a realidade só é possível por meio do discurso!!! Parabéns a ambos!!! Perfeitos os textos!!! Escolher o melhor?!? É uma questão de opção, de decisão.
    Talvez… apenas os dois lados da mesma moeda!
    Mas “realmente” será “real” o fato só partir do olhar do observador!

    • Prezada Kasla,

      Obrigado pela honra da leitura do Blog e pelo comentário tão gentil.

      Sobre os textos, com perdão da lembrança tão comum do poeta português, mas “escolher é preciso”.

      Grande abraço, Machado

  3. Esse senhor(?) José Américo deveria ter seu próprio blog. Argumentou muito bem ao demonstrar que o vento que venta lá, venta cá. A diferença é que um vento foi bem pago pra ventar; o outro foi “de graça”.

    • Caro Rodrigo,

      Muito obrigado pela leitura do Blog e pela gentileza do comentário.

      Desculpe se por acaso eu interpretei equivocadamente as suas ponderações.

      Mas, com relação ao “vento muito bem pago”, creio que seria interessante fazer essa afirmação de forma comprovada, pois ela sempre integrou o conhecido (e antigo) discurso de desmoralização e enfraquecimento dos movimentos sociais e do sindicalismo. Sem ônibus coletivo e alimentação (lanchinho) a classe trabalhadora não tem recursos para participar de protesto algum. Por coincidência, hoje mesmo acabei de contribuir com o fretamento de um ônibus para levar uma comunidade pobre de Ribeirão Preto à manifestação do dia 20 de agosto em São Paulo, sob a liderança do padre Francisco Vaneron.

      Quanto ao “vento de graça”, não há dúvida de que a elite e a classe média branca e bem nascida, com os seus carros importados, dispensa ônibus coletivo para participar de passeatas, toma um revigorante cafezinho no Starbucks, e tudo sem a ajuda de ninguém.

      Agradeço mais uma vez a participação crítica, pois o objetivo do Blog é mesmo propiciar o confronto das ideias para contribuir, modestamente, com o aprimoramento da democracia.

      Cordial abraço, Antônio Alberto Machado

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