Era golpe

           NOS ÚLTIMOS dias, já não era mais um simples sintoma de “paranoia política”, nem “teoria da conspiração”, dizer que estava em curso no Brasil um golpe para depor a presidenta Dilma Rousseff, para destruir o Partido dos Trabalhadores, para aniquilar a liderança de Lula da Silva e, consequentemente, encerrar de vez o ciclo da esquerda no poder. É óbvio que os “imperadores da mídia burguesa”, com a Rede Globo à frente, “encurralaram” o STF no julgamento do chamado “Mensalão do PT”, que foi, como todos sabemos, o processo penal mais midiático da história judicial brasileira – o próprio Ministro Celso de Melo, naquela ocasião, disse em tom de desabafo: “Nunca vi tanta pressão sobre um tribunal”.

            Essa essa mesma mídia, que saiu exigindo a condenação dos quadros do PT no “mensalão”, nunca praticou nenhum jornalismo investigativo, nem sequer divulgou o “Mensalão tucano” que, como todos sabemos, está prescrevendo em completo silêncio na justiça de Minas Gerais e nos escaninhos do Supremo Tribunal Federal, que já decretou a prescrição da punibilidade de um de seus grandes operadores/mentores: Walfrido dos Mares Guia.

           A grande mídia vem bancando abertamente as diversas inconstitucionalidades da Operação Lava Jato e a Rede Globo até já concedeu um esquisito prêmio de personalidade do ano ao juiz que “preside”, de forma seletiva e inquisitorial, essa operação tão importante quanto polêmica. A grande mídia burguesa, em apoio à Lava Jato, tem divulgado com enorme estardalhaço os “vazamentos” seletivos de tudo quanto ocorre no âmbito sigiloso das delações premiadas para incriminar, antecipadamente, perante a opinião pública, os membros do governo e seus aliados.

        A mídia burguesa tem publicado diariamente uma enxurrada de notícias e comentários negativos sobre a economia brasileira, escondendo do grande público que a crise econômica é mundial, e não fruto dos equívocos da presidenta Dilma Rousseff – e tudo isso com o propósito claro de desestabilizar o governo. A grande mídia empresarial vem divulgando de forma estridente os fatos que, se comprovados, poderiam levar ao impeachment da presidenta, “nos termos da lei”. E essa empreitada estava indo “de vento em popa” com o isolamento da presidenta da república, aliás, consolidado nesta semana pela traição dos partidos que deixaram a base aliada.

             Súbito, o jornal O Globo, por meio de um inesperado editorial, passa a defender a permanência da presidenta da república no seu cargo, acusando a irresponsabilidade de setores da oposição que pretendiam depô-la; e o Jornal Nacional também da Rede Globo, na sua edição da última sexta-feita (7.8.15), exibiu uma matéria positiva da presidenta Dilma Rousseff que, na verdade, foi quase uma “continuação” da propaganda política do PT veiculada no dia anterior.

              O Brasil inteiro ficou perplexo e curioso. Ainda impactados, a opinião pública e os observadores políticos se perguntam: o que estaria por trás dessa guinada da Rede Globo? Qual seria a “moeda de troca” para essa nova postura da empresa de comunicação, que até hoje só se comportou de maneira hostil, e por vezes até mesmo caluniosa, em face do governo federal? As opiniões variam, os motivos reais da guinada também podem ser vários, mas eu arrisco a dizer que o motivo preponderante foi MEDO ou TÁTICA.

              A presidenta da república estava isolada do ponto de vista político; o Partido dos Trabalhadores, duramente atingido por algumas delações na Operação Lava Jato, continuava paralisado; os demais partidos de esquerda permaneciam na completa impotência, e o retorno da direita, portanto, parecia um fato não apenas inevitável como iminente. Nesse cenário, surgiu um novo e perigoso ator: o POVO, ou melhor, o POVÃO. Os movimentos sociais (da cidade e do campo), o movimento sindical e o movimento estudantil resolveram, finalmente, dar as caras e abraçar a causa.

              Nesta sexta-feira, milhares de integrantes desses segmentos, apoiados por políticos e partidos de esquerda, deram um abraço simbólico no prédio do Instituto Lula em São Paulo e o grito era de guerra. Além disso, convocaram uma grande manifestação nas ruas do Brasil para o próximo dia 20 de agosto em defesa da democracia, da normalidade institucional e do mandato legítimo da presidenta Dilma Rousseff. Ontem mesmo, na terra de Aécio Neves, os mineiros se levantaram com o lançamento da “Frente Mineira pelo Brasil”, divulgando uma carta em que repudiam o avanço das forças conservadoras, condenam a ofensiva neoliberal e conclamam o povo para a luta em defesa da “governabilidade popular” e das reformas necessárias – inclusive a reforma agrária.

              As vozes da rua sinalizam que impeachment é golpe, e que desta vez nenhum golpe será como uma simples e suave “troca de plantão”, à completa revelia do povo, tal como ocorreu com o golpe militar de 1964. Nem a mídia golpista nem a oposição frouxa e irresponsável do PSDB e do DEM conhecem a força das ruas porque nunca tiveram contato e tampouco qualquer identificação com os interesses populares. Não conhecem a força nem sequer têm conhecimento da existência dos movimentos sociais, das redes que os ligam, e dos verdadeiros “exércitos populares” que se formaram ao longo do tempo no Brasil dos últimos tempos.

           Tanto a mídia reacionária quanto a oposição inconsequente, sobretudo aquele segmento iludido e liderado pelo bon vivant Aécio Neves, perceberam que estavam criando um monstro ao apostar no “quanto pior melhor”, e perceberam também que não aguentariam as “forças subterrâneas da rua”, justamente essas forças que ainda não saíram para a luta. Entenderam que seus exageros, e a própria sede incontrolável de poder, haviam transformado uma recorrente crise econômica numa crise política e institucional, cujo desfecho é imprevisível, daqueles que podem escapar do controle, podendo ser até um desfecho trágico, com enormes custos e retrocessos políticos.

         As classes populares, os movimentos sociais organizados e interligados, o sindicalismo histórico, a militância petista e os diversos segmentos que elegeram a presidenta da república deram o recado e os “cavaleiros do golpe” parecem ter entendido, pois, manifestações do povão na rua, todos sabemos, não se parecem em nada com “marchas da saúde” nem costumam ter o mesmo charme daquelas passeatas ordeiras, cheias de gente branca e bonita nos domingos tranquilos de sol.

                A grande burguesia plutocrata, que estava (e está) por trás do golpe, bem como a Rede Globo que é sua propagandista, sabem muito bem que eles seriam os primeiros alvos dos protestos populares que poderiam estourar a partir do próximo dia 20 de agosto. Resolveram, portanto, retornar ao caminho da normalidade institucional e do jogo democrático – pelo menos por ora -, pois, como dizia minha avó, “Quem não tem juízo tem que ter medo”.

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