Dois grandes erros do PT

             POR mais que se negue, por mais que muita gente não queira, por mais que muitos não gostem, por mais que seja difícil sustentar isso ainda hoje, a verdade é que o Partido dos Trabalhadores nasceu em 1980 como fruto da luta e da esperança! Surgiu a partir da luta sindical no ABC paulista, da luta dos movimentos sociais no Brasil todo, da luta pastoral de muitas comunidades eclesiais de base em regiões pobres do país, e do engajamento de muitos intelectuais.

          Empunhando a bandeira da ética e da justiça social, esse partido representava o desejo e a esperança de que era possível realizar transformações estruturais na sociedade brasileira, tornando-a mais justa, a partir de um projeto popular conduzido pela classe trabalhadora com base, inclusive, em algumas das mais antigas reivindicações do socialismo.

             Confrontando o poder econômico, as oligarquias tradicionais, a mídia reacionária, o preconceito político e as conhecidas dificuldades impostas pelo imperialismo ianque-europeu, o Partido dos Trabalhadores militou muitos anos na oposição sem abandonar jamais seu programa original, apresentado por ocasião de sua fundação no dia 10 de fevereiro de 1980, nas dependências do Colégio Sion em São Paulo.

           Acontece que, como é intuitivo, para implantar seu programa de governo, e as propostas de reformas estruturais da sociedade, o partido precisava sair da oposição e chegar ao poder. E o Partido dos Trabalhadores, de fato, passou a eleger parlamentares para o Congresso Nacional, ganhou eleições em cidades importantes, ganhou prefeituras em diversas capitais e chegou até ao governo de alguns Estados da federação – tudo com o esforço decisivo de sua militância popular.

               Mas, faltava o Palácio do Planalto. O Líder máximo do partido, Lula da Silva, havia chegado três vezes ao segundo turno das eleições presidenciais, enfrentando Fernando Collor de Mello na primeira vez e Fernando Henrique Cardoso por duas vezes. Finalmente, em 2002, Lula da Silva venceu o candidato da situação, o então ministro da saúde José Serra, e chegou ao Palácio do Planalto para governar o Brasil.

               O mundo todo reconhece hoje que o governo de Lula da Silva foi um dos mais bem-sucedidos da nossa história, tanto no campo econômico, quanto no plano social, e ainda no âmbito da política externa. Ou seja, durante os dois mandatos de Lula o Brasil quintuplicou seu PIB, promoveu a ascensão social de mais de 40 milhões de pessoas, saiu do “mapa da fome” (ONU), equacionou sua dívida externa e estabeleceu relações multilaterais importantes com países não imperialistas na esfera Sul-Sul.

              Todavia, para conseguir tudo isso o PT teve de pagar um preço. Um preço político. E foi, a meu ver, um preço muito alto; tão alto que pode até comprometer a utopia e o futuro do partido. Quer me parecer que o preço pago pelo PT pode ser entendido como o resultado de dois grandes erros, ou dois grandes “pecados capitais”, que lhe custarão muito caro.

              O primeiro erro está expresso na chamada “Carta ao povo brasileiro”, divulgada por Lula da Silva em junho de 2002, no começo de sua vitoriosa campanha eleitoral para a presidência da república naquele ano. Nessa carta, o então candidato do PT se comprometia, dentre outras coisas, a (1) manter todos os fundamentos da política econômica típica de uma economia de mercado e (2) fazer aliança com os partidos da burguesia para assegurar a tal da “governabilidade”.

            O segundo grande erro foi ter aceitado e se adaptado comodamente ao sistema político baseado no financiamento privado de campanha que, como todos sabem, significa a subordinação da política ao poder econômico, ou seja, a subordinação da política ao poderio das grandes corporações burguesas que financiam seus representantes e candidatos, com o descarado objetivo de corromper o Estado. Essa aproximação intensa (e perigosa) do Partido dos Trabalhadores com a economia burguesa de mercado, com os partidos conservadores da burguesia e com o dinheiro burguês que financia campanhas políticas só podia dar mesmo naquilo que deu: promiscuidade e podridão.

            Não sei se era possível ao Partido dos Trabalhadores chegar ao poder sem o dinheiro e sem a aliança com setores da burguesia. Não sei se era possível governar o país – num presidencialismo de coalizão -, sem lianças com as forças reacionárias da sociedade. Não sei se era possível ao PT fazer tudo o que fez sem esses “erros”. O partido apostou, mas deu no que deu. Infelizmente, parece que o PT – e muitos petistas -, se esqueceram rápido demais daquela famosa advertência do cantor Cazuza, feita numa de suas músicas mais conhecidas: a burguesia fede, companheiro!

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Uma resposta para Dois grandes erros do PT

  1. Borborema disse:

    kkk

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