A “odiologia” na rede

             O BRASIL vive atualmente um período de enorme tensão política, sobretudo, após a última eleição presidencial que reconduziu Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto. A impressão que se tem é que o país está dividido ao meio, rachado entre grupos antagônicos, governistas e opositores, petistas e antipetistas, conservadores ou reacionários à direita, e progressistas à esquerda.

           A tensão entre esses grupos se espalhou rapidamente pelas redes sociais, pois as pessoas passaram a utilizar cada vez mais a internet para expressar suas preferências e opiniões políticas. Com isso, as disputas e as divergências se acirraram tanto no ambiente digital que, segundo dizem, têm suscitado muitas inimizades, têm abalado amizades antigas, têm desmanchado parcerias, têm dissolvido grupos dadas redes sociais e provocado até mesmo escaramuças em família.

             Pelo visto, o tempo esquentou mesmo e o pau anda quebrando nas redes sociais!

          O debate político é tão importante quanto necessário. E as divergências ideológicas no campo da política – não devemos esquecer -, são muito naturais e até mesmo saudáveis, pois não se faz política sem debate, sem confronto de ideias e sem a dialética da argumentação, que é a melhor maneira ou talvez a única estratégia para a construção do consenso.

        Todavia, em meio ao debate político, é preciso ter uma precaução especial. As ideologias, por razões que ainda não estão muito bem explicadas, têm o poder de dividir as pessoas. Mais do que religião e futebol, as questões ideológicas provocam paixão, fanatismo, cegueira e, por vezes, até um certo ódio pelo adversário – dizem que somos mesmo capazes de odiar aqueles que pensam diferente de nós.

         Ou seja, a ideologia, que pode ser entendida singelamente como um conjunto de ideias, imagens e crenças individuais (ou coletivas), produzidas pelo homem acerca de questões sociais e políticas num determinado momento, e em dadas circunstâncias históricas, tem a propriedade de “formar tribos” e dividir grupos, podendo levá-los a disputar visões e argumentos em alto nível no terreno político, ou resvalar desse terreno para o campo rebaixado das ofensas pessoais.

           Costumam atribuir ao mineiro Tancredo Neves a afirmação de que, na política, quem deve brigar são as ideias, os argumentos, e não as pessoas. Assim, a tal “construção do consenso político”, nas democracias estáveis e maduras, deve ser conduzida de maneira racional e civilizada, respeitando as regras do “jogo democrático” e, sobretudo, reconhecendo o papel do “outro”, a importância das diferenças e dos que pensam de modo diferente.

          Enfim, na há política sem debate, sem divergência e sem confronto ideológico. Porém, é preciso ter cuidado para saber separar as coisas, pois, no contraditório da política as convicções ideológicas não se sobrepõem ao respeito que se deve ter pela pessoa do adversário. Assim, no debate ideológico, deve-se sempre atacar apenas as ideias e os argumentos do opositor, jamais a pessoa dele – desqualificar o debatedor é uma estratégia fascista.

              Mas, não bastasse esse efeito naturalmente “explosivo” das ideologias, a verdade é que o debate político no Brasil também está descambando para um certo clima de ódio. E esse ódio tem sido disseminado nas redes sociais inclusive por aqueles que, por força do ofício, deveriam noticiar e interpretar fatos com serenidade – sem distorção, sem proselitismo, sem rancor ou má-fé.

              Com efeito, alguns jornalistas na web – não por acaso a maioria deles recrutada pela maior e mais reacionária revista do país – têm mantido blogs em que abusam do direito de crítica e ingressam no terreno dos ataques pessoais com uma facilidade impressionante. Nesses blogs, a linguagem é claramente raivosa e termos como político vigarista, safado, bandido, analfabeto, ignorante e ladrão são coisas que saem da pena dos blogueiros com uma naturalidade assustadora.

         Político adversário dos blogueiros do ódio é “bandido”; partido político vira “quadrilha” ou “organização criminosa”; político aliado do adversário é “comparsa”; suspeito ou investigado é “criminoso contumaz” e por aí vai… A violência verbal desses adjetivos revela ódio ou intolerância. O “discurso do ódio” é exatamente assim: procura menosprezar ou mesmo destruir a imagem do outro, estigmatizando-a em razão de alguma característica, como, por exemplo, etnia, nacionalidade, gênero, religião ou convicção político-ideológica.

       É inegável que uma linguagem virulenta, de discutível talante, utilizada sistematicamente por alguns comunicadores sociais no espaço público para estigmatizar pessoas, sempre traduz enorme carga de violência simbólica que incita e dissemina o ódio, estimula o moralismo vingativo e acaba desqualificando o debate político que já anda tão pobre.

               Estimulados por essa atmosfera agressiva, alguns homens públicos têm perdido também a medida das coisas. O senador Ronaldo Caiado, por exemplo, está respondendo criminalmente no STF por ter chamado publicamente o ex-presidente Lula de “bandido”; e o histriônico cantor Lobão já se deu a licença de cantar num show uma paródia qualquer sob o título de “Dilma bandida”.

                Não é o caso de fazer aqui qualquer defesa desses políticos atacados, mas esses ataques não contribuem em nada para o debate político de qualidade. São comportamentos inadequados que só aumentam a licenciosidade, o desrespeito e o ódio; sem nenhum proveito para o aperfeiçoamento da democracia.

                 Não tenho elementos para concordar nem para discordar do filósofo e ensaísta francês André Gluksmann, autor do livro Le discours de la hanie, quando diz que o planeta vive atualmente uma “onda de ódio”. Não sei. Mas, sou obrigado a concordar que o ambiente político brasileiro, atualmente, está a um passo de mergulhar numa “histeria” desse tipo.

              Por isso, antes que seja tarde, seria muito importante que certos blogueiros, e também as empresas de comunicação a que eles servem, fizessem um esforço para recuperar a serenidade e o sentido de suas verdadeiras funções sociais, pois há muito comunicador na internet que desinforma a população, divide os brasileiros e espalha o ódio impunemente, atiça o rancor – e tudo como se estivesse a cumprir um “sagrado dever de ofício”.

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2 respostas para A “odiologia” na rede

  1. José Américo Carnevalli disse:

    Concordo plenamente caro amigo.
    Estamos perdendo o senso do que perceptível, é preciso estancar essa onda de reações estúpidas, seja ela de lado for. O pais precisa de estabilidade urgentemente.

  2. Borborema disse:

    E no meio político também,parece ter surgido um anti Tancredo ,bem dentro da família.

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