Réquiem, não só à esquerda

             ANDAM falando por aí, nas folhas e nas mídias, que o “lulismo”, o segundo governo Dilma, o Partido dos Trabalhadores, e, em suma, toda a esquerda brasileira chegaram ao fim. Sufocados por denúncias de corrupção, por suposta incompetência político-administrativa, e pelo apregoado fracasso de suas políticas macroeconômicas, esses esquerdistas estariam encerrando melancolicamente seu ciclo no poder; assim, agora só faltaria mesmo entoar-lhes um sonoro réquiem.

             Não concordo nem discordo desse prognóstico porque não tenho bola de cristal, não sou profeta, e tampouco pretendo gastar meu tempo com qualquer tipo de futurologia. Parece-me, portanto, que é mais adequado e mais seguro procurar entender o presente para depois falar do futuro; e para entender o presente, dizem os sábios, é preciso também decifrar o passado.

            Assim, a compreensão do presente, bem como qualquer palpite sobre o futuro, supõe a observação de algumas etapas da recente história brasileira, sobretudo, aquelas que constituíram o nosso atual projeto de país moderno e industrializado, a ideia de construção do nosso Estado nacional, bem como as estratégias de desenvolvimento que adotamos ao longo da história para atingirmos tais objetivos.

        Em rápidas pinceladas, podemos dizer que o projeto de um Brasil moderno e capitalista iniciou-se na década de 1930, com o fim da chamada “república velha” ou “república do café com leite”, quando o país era governado pelas elites cafeeiras e agropecuárias, cujos representantes se alternavam no poder, entre 1889 e 1930, exercendo soberanamente um domínio oligárquico sobre a economia e os destinos da nação.

        A partir dos anos 1930, portanto, iniciava-se a chamada “era Vargas”. Foi nesse período que o Brasil optou realmente pelo modo de produção capitalista, implementando a modernização das relações capital/trabalho, com a adoção de um estatuto de direitos dos trabalhadores (Consolidação das Lei do Trabalho – CLT), propiciando também a organização e a representação da classe trabalhadora por meio de sindicatos.

            E o capitalismo projetado para o Brasil nesse período foi, sem dúvida nenhuma, um modelo genuinamente nacionalista. Pois, além de modernizar as relações entre o trabalho e o capital, o varguismo procurou induzir o desenvolvimento brasileiro, fundamentalmente, pela intervenção no domínio econômico com a criação, por exemplo, de empresas públicas estratégicas como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Petrobras.

             Mas, o varguismo percebeu também a necessidade de investir na produção local do conhecimento tecnológico e científico, ambos indispensáveis ao desenvolvimento soberano e à inovação tecnológica necessária a um capitalismo moderno e nacionalista. Com isso, criou instrumentos de pesquisa, de comprovada excelência científica, como o antigo Centro Técnico Aeroespacial (CTA), o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), bem como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

             Na sequência do projeto varguista, já sob o governo de Juscelino Kubitschek com o seu Plano de Metas, esses institutos científicos e tecnológicos viriam propiciar a criação da Usiminas em 1956, isto é, mais uma empresa nacional estratégica, propiciando também a criação da Embraer em 1969, em pleno regime militar, um regime que até então prosseguia com o projeto de desenvolvimento nacionalista herdado da “era Vargas”.

          Porém, durante a ditadura militar nos anos de 1980 houve um ponto de inflexão nesse projeto, digamos, nacional-desenvolvimentista projetado pelo varguismo. O regime militar entrou em crise, interna e externa, e isso levou à chamada “transição democrática”, a qual se teria consolidado com a eleição do presidente civil Tancredo Neves em 1985, com a Constituição Federal de 1988, e com a primeira eleição direta para a presidência da república que levou ao poder Fernando Collor de Mello em 1989.

         Ocorre que, junto com essa transição política do regime militar para um regime democrático, nos anos de 1980, deu-se também uma outra transição que nem sempre é percebida nem destacada pelos especialistas. Ou seja, o Brasil deu início a uma radical liberalização de sua economia, privatizando e desnacionalizando empresas estratégicas, optando claramente por um projeto de desenvolvimento atrelado ao capital externo e conduzido por empresas estrangeiras – as multinacionais.

          Isso quer dizer que a partir dos anos de 1980 houve no Brasil não apenas uma “abertura democrática”, com a transição do regime militar para o regime civil, mas, também, uma “abertura econômica” ao capital estrangeiro, o que resultou no afastamento do projeto nacional-desenvolvimentista da “era Vargas”. Nos anos de 1980, portanto, houve uma “transição política”, muito destacada pelos especialistas, mas, houve também uma “transição econômica”, que nem sempre os especialistas costumam destacar.

              É oportuno dizer que essa “transição econômica” de cunho liberalizante da nossa economia coincide exatamente com a ascensão ao poder de Ronald Reagan nos EUA e Margaret Thatcher na Inglaterra, dois ícones das políticas econômicas neoliberais nos anos 1980, que difundiram no mundo todo as ideias de mercado inteiramente aberto e globalizado, desregulamentação das economias nacionais, austeridade fiscal das economias emergentes, liberdade de câmbio e capital, bem como prevalência do mercado autorregulador sobre a regulação política.

           Pois bem… Foi justamente nessa “transição econômica neoliberalizante” dos anos 1980 que o Brasil vendeu suas empresas públicas estratégicas, abriu inteiramente seu mercado para as grandes corporações transnacionais, privatizou grande parte de seu sistema de saúde, desnacionalizou por completo sua economia e, com isso tudo, deitou por terra o projeto varguista que apostava no desenvolvimento de uma burguesia nacional e na construção de um capitalismo nacionalista, soberano e independente.

          Em outras palavras, e num português bem claro, “o Brasil se vendeu”. O Estado brasileiro entregou (quase de graça) suas empresas públicas e estratégicas, que eram vitais para o desenvolvimento projetado pela era varguista, privatizando a Usiminas, a Embraer, a Companhia Siderúrgica Nacional e outras tantas. E só não foi embora também a Petrobras porque a reação da sociedade organizada, dos partidos de esquerda e, sobretudo, do sindicato dos petroleiros impediu a consumação desse crime contra soberania nacional.

         Depois de vender esse patrimônio todo, o Brasil ainda privatizou seu sistema bancário e o sistema de telecomunicações. Aliás, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no auge da sua “privataria”, vendeu 87% das empresas nacionais e já estava vendendo até um pedaço do território brasileiro aos EUA, com a concessão aos norte-americanos da Base de Alcântara no Maranhão, onde nem o presidente da república do Brasil poderia pôr os pés.

            É nesse cenário que surge o “lulismo” em 2002. A eleição de um sindicalista para a presidência da república representava uma vitória da classe trabalhadora e ressuscitava de alguma maneira o trabalhismo da “era Vargas”. Em seguida, sua sucessora Dilma Rousseff, oriunda da corrente política de Leonel Brizola (PDT), homem lançado na vida pública por Getúlio Vargas, viria dar novo sopro de vida ao desenvolvimento de cunho nacionalista projetado pelo varguismo.

           Desse modo, o “lulismo”, o “petismo”, o “lulopetismo”, a “esquerda sindicalista” ou seja lá qual for o nome que se queira dar, com seu projeto de desenvolvimento nacionalista, com sua proposta de proteção da classe trabalhadora e inclusão social, representou naturalmente uma trégua, uma ruptura na “transição econômica neoliberalizante” iniciada nos anos de 1980, configurando verdadeiro empecilho, ou, verdadeira pedra no caminho do projeto neoliberal privatizante – um projeto claramente “entreguista” de desnacionalização da economia brasileira.

      O “lulismo” estancou as privatizações de empresas estratégicas, investiu no desenvolvimento da indústria nacional, expandiu as exportações, aproveitou bem o chamado “boom das commodities” e estabeleceu relações comerciais com a América Latina, com a África, com a China, com a Índia e com a Rússia, ampliando mercados multilaterais com o objetivo de superar o unilateralismo comercial e político norte-americano.

            Com as políticas sociais e econômicas do “lulismo”, o país experimentou um período de indiscutível prosperidade. Assim, o “lulismo” pôde levar adiante seu projeto de crescimento econômico com inclusão social, superou a crise da dívida externa com o FMI, minimizando os impactos negativos das políticas econômicas neoliberais que sacrificavam os brasileiros, sobretudo, os mais pobres.

            É exatamente por tudo isso que as elites brasileiras, aliadas ao capital internacional e apoiadas pela propaganda neodireitista da mídia nativa, precisa mesmo tirar o “lulopetismo” do seu caminho para “sepultar” de vez a chamada “era Vargas”, com todo o seu projeto nacionalista. As elites internas e externas convenceram grande parte dos brasileiros de que o mundo não tem mais fronteiras, o capital deve circular livremente, as empresas transnacionais podem entrar e sair daqui quando quiserem, podem levar o que quiserem, e as ideias de “nacionalismo” e de “soberania nacional” não passam de simples peças de museu.

             Mas, o sepultamento definitivo do “lulismo” e da “era Vargas” abre as portas para as novas investidas neoliberais no país. Por isso, já se pode antever uma nova onda de “precarização do trabalho” com a redução dos direitos trabalhistas, um aumento das desigualdades sociais em nome da austeridade fiscal, e novas privatizações que colocarão na linha de tiro outra vez o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Eletrobras e a tão cobiçada Petrobras, com toda a riqueza do nosso pré-sal.

          Assim, o réquiem da esquerda brasileira e do chamado “lulismo” ou “lulopetismo”, no fundo, representa também o réquiem definitivo da “era Vargas” ou daquilo que restou do varguismo, com o triunfo incontrastável da “teoria da dependência” ou do projeto econômico neoliberalizante e “entreguista” gestado nas décadas de 80/90, sob as ordens do imperialismo ianque-europeu.

          Assim, aqueles que não veem a hora de sepultar a esquerda brasileira e o antigo projeto de desenvolvimento nacionalista que começou com o varguismo, bem que poderiam, de cabeça baixa e ajoelhados no altar do imperialismo, entoar também um funéreo réquiem à soberania nacional e aos ideais de um  Brasil realmente livre e independente.

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Uma resposta para Réquiem, não só à esquerda

  1. Borborema disse:

    Parabéns ,que visão,o senhor fez um ótimo resumo,resumo que a sra Margareth Tacher chegou dizer abertamente que as nações em desenvolvimento deveriam vender suas industrias para as desenvolvidas,ou seja , continuar a produzir matéria prima pra eles .

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