As empreiteiras e o PT

             A CORRUPÇÃO no capitalismo só não é mais velha do que a Sé de Braga porque a Sé de Braga é mais velha que o capitalismo. Um modo de produção econômica que depende do Estado (a história do “estado mínimo” e da autorregulação do mercado só engana os mais crédulos!) e que financia o próprio sistema político só poderia ser mesmo um modo de produção intrinsecamente corrupto. Vejamos o caso das construtoras investigadas pela operação Lava Jato no Brasil.

             É sabido e consabido que essas empreiteiras começaram a crescer desde a década de 1950, construindo as estradas de Juscelino Kubitschek que, com o seu Plano de Metas, atrelou fortemente nossa economia à indústria automotiva estrangeira. Em seguida, nos governos militares, essas empreiteiras se agigantaram, ganharam todas as licitações para construir estradas e grandes obras públicas; se transformaram em empresas multinacionais ou até multicontinentais, atuando em toda a América Latina, no Oriente Médio e na África.

              Como cultivo o hábito masoquista de ler os jornais burgueses desde a adolescência, lembrei-me de uma reportagem do jornalista Jânio de Freitas que me havia impressionado muito nos anos 1980. Fui procurá-la na internet.

             Encontrei lá a tal reportagem que antecipava, em 8 de maio de 1987, o resultado de uma licitação para construir parte da ferrovia norte-sul que ligaria Brasília ao Maranhão. O Jânio de Freitas fez publicar de forma camuflada, na seção de classificados da Folha de S. Paulo, um anúncio disfarçado em que identificava, cinco dias antes da abertura dos envelopes (13.5.87), os vencedores desse certame licitatório, bem como os lotes que cada um deles deveria construir na malfadada ferrovia norte-sul, que até hoje não saiu do papel.

           Entre esses “vencedores” da licitação com “cartas marcadas” em 1987, portanto, ainda no governo José Sarney, há quase trinta anos, estavam lá justamente as empresas investigadas hoje pela operação Lava Jato. Empresas que já vinham enriquecendo vertiginosamente desde os anos 1950 e que, no regime militar, deram o grande salto para se transformar nas maiores construtoras da América Latina. Faz tempo que a Odebrecht é a primeira e a Andrade Gutierrez é a segunda maior construtora/empreiteira do Brasil, seguidas da Queiroz Galvão e da Mendes Júnior.

             Essas quatro construtoras já estavam lá, na reportagem do Jânio de Freitas em 1987, “loteando” a construção da ferrovia norte-sul, e estão aqui hoje sendo investigadas na operação Lava Jato pela mesma prática de cartel. E essa prática cartelista entrou pelo governo de Fernando Collor de Mello, passou por Itamar Franco, expandiu-se no governo de Fernando Henrique Cardoso – que chegou ao cúmulo (imaginem!) de baixar um decreto para afastar a licitação na Petrobras (Decreto nº 2.745/98) – prosseguiu com o governo de Lula da Silva e chegou até o governo de Dilma Rousseff.

               Não se pode esquecer, portanto, que esse esquema de cartelização é estrutural, não é conjuntural; não foi inventado agora no governo do PT. Quando Lula da Silva chegou à presidência da república a empresa de Norberto Odebrecht já era a maior construtora da América Latina. É uma ignorância histórica, ou pura “distorção ideológica”, afirmar que a Odebrecht cresceu na “era Lula”, como faz a imprensa burguesa todo santo dia. Aliás, foi exatamente isso o que fizeram as revistas  Época e Veja do último fim de semana, em suas reportagens de capa. Uma afirmou que a empresa Odebrecht “explodiu em faturamento na era Lula”; a outra disse que essa empresa “leva a investigação do escândalo da Petrobras ao patamar mais alto do poder na era Lula”.

              A revista Época, das organizações Globo, chegou ao ponto de afirmar, nessa última edição, que a prisão do presidente da construtora Odebrecht poderia “derrubar a república”, e que o próximo investigado seria o ex-presidente Lula da Silva, publicando em sua reportagem de capa “provas” claramente baseadas em presunções, apoiadas em declarações sem indicação de fontes – tudo sem nenhuma consistência probante. Claro que a mídia empresarial, a direita e o antipetismo, mesmo admitindo que sempre houve corrupção do Estado brasileiro pelas empreiteiras, que essa prática de cartel é antiga, mesmo aceitando a evidência de que tudo isso ocorreu em outros governos, sempre irão dizer que na tal “era Lula” as coisas foram muito piores – “nunca se roubou tanto!”.

               Pode até ser verdade, não sei. Mas, para fazer uma afirmação dessa é preciso saber quanto é que se roubou anteriormente, ou seja, para comparar e medir a “roubalheira do presente” é preciso ter a medida da “roubalheira do passado”. O problema é que nesse passado não havia investigação nenhuma, não havia atuação efetiva da Polícia Federal nem do MPF, a mídia não estava tão empenhada em desvendar a corrupção e, portanto, ninguém sabe qual foi o tamanho da roubalheira anterior para estufar o peito e dizer que “nunca se roubou tanto como agora”.

             A verdade é que “nunca se investigou tanto como agora”, e nunca a corrupção foi tão noticiada como hoje. Mas, a mídia que a noticia não é imparcial; nem sequer é independente. E pior, essa mídia manipula a informação e também o imaginário popular. Ou alguém seria ingênuo a ponto de achar que é mero acaso o fato da atual novela da Rede Globo, Babilônia, ter lá uma empreiteira que corrompe um político para fazer obras numa refinaria de petróleo?

        É exatamente por esse enorme “empenho” da mídia na busca de culpados, é precisamente por essa manipulação midiática da operação Lava Jato, tudo sob a liderança da Rede Globo, que o juiz responsável pelas investigações, para preservar sua isenção e imparcialidade, não deveria ter aceitado o prêmio de “Personalidade do Ano” concedido pela… Rede Globo. Quero acreditar que as intenções do juiz que “comanda” a operação Lava Jato sejam as melhores possíveis, mas seus métodos são deploráveis. Com efeito, juiz que faz investigação e que profere julgamentos, juiz que prende para obter confissões, juiz que admite utilizar o poder da mídia para atingir seus objetivos funcionais, convenhamos, está muito mais para inquisidor medieval do que, propriamente, para juiz moderno e republicano.

             Todos os brasileiros queremos que a corrupção seja efetivamente combatida e, se não eliminada, pelo menos controlada pelas instituições da república. Mas, “partidarizar” uma investigação, utilizá-la para destruir um partido político e suas lideranças populares, atrelando as suspeitas exclusivamente ao nome de um dos possíveis candidatos à presidência da república em 2018, já é demais. Por que será que toda essa sanha investigativa no Brasil, todo esse moralismo exacerbado contra a corrupção, e toda essa sede de justiça (ou vingança) apareceram somente agora, depois que o Partido dos Trabalhadores chegou à presidência da república?

           A partidarização das investigações, o noticiário tendencioso, a manipulação midiática dos procedimentos investigatórios e, sobretudo, a bajulação do juiz responsável pela operação Lava Jato, não contribuem em nada para a busca da verdade, não ajudam nem um pouco na punição de TODOS os verdadeiros culpados – e podem até mesmo atrapalhar a racionalidade e a equilibrada realização da justiça.

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4 respostas para As empreiteiras e o PT

  1. Bete disse:

    Adoro seus textos professor!!!
    Obrigada por nos abrilhantar com suas publicações que nos permite pensar de forma racional divorciando-nos da influência tendenciosa da mídia!!

    Um abraço.

    Bete

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