Por detrás do ridículo

               À PARTE o desfecho grotesco dessa grotesca “comitiva” de senadores – liderados por Aécio Neves, Ronaldo Caiado e Aloísio Nunes -, que pretendiam visitar um preso golpista na Venezuela, conduzidos pela deputada conservadora Maria Corina Machado, é preciso destacar alguns aspectos que podem estar escondidos ou dissimulados por trás da malograda iniciativa desses parlamentares brasileiros, tão vexaminosamente despachados de volta para o Brasil por meia dúzia de venezuelanos.

                Em primeiro lugar, salta aos olhos que a suposta “solidariedade” dos senadores brasileiros para com o preso Leopoldo López é algo que tem qualquer coisa de “segundas intenções”. De fato, Leopoldo López é um legítimo representante da elite venezuelana, membro de uma das famílias mais poderosas da Venezuela, liderou o golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002, incitou as violentas manifestações populares denominadas “guarimbas”, que resultaram na morte de 43 pessoas em 2014, sempre com o objetivo de usurpar o poder no seu país.

               Há provas, gravadas em vídeo, de que Leopoldo López arquitetou seu plano para derrubar o presidente Nicolás Maduro em outubro de 2013, por meio de reuniões realizadas nos Estados Unidos, onde esse político de extrema direita defendia a necessidade de utilizar a violência para acabar com o governo venezuelano, um governo que havia sido eleito pelo povo, democraticamente, em eleições legítimas e fiscalizadas por organismos internacionais.

              O senhor Leopoldo López, portanto, é um político golpista, um conspirador, que não respeita as regras da democracia. Além disso, é alguém que representa o que há de pior na elite venezuelana, essa mesma elite que detonou a economia da Venezuela fomentando a inflação por meio da elevação deliberada de preços e praticando uma evidente sabotagem do setor produtivo que gerou a escassez de produtos e de alimentos nesse país da América Latina.

            Por quais razões, então, esses ilustres senadores brasileiros saíram daqui para apoiar um político golpista, representante da elite venezuelana que arrasou a economia da Venezuela e que castigou o seu povo apenas para derrotar o chavismo? É evidente que os motivos dessa desastrosa “missão” dos nossos senadores eram puramente políticos. A intenção deles só poderia ser a “desmoralização” do governo da Venezuela, a vinculação do governo brasileiro ao “fracasso” venezuelano ou a criação de um incidente diplomático com o objetivo de plantar a discórdia entre o Brasil e o país vizinho.

                E tudo isso por quê?

               Quem é que sabe? Todavia, não é proibido especular. Todos sabem que os Estados Unidos nunca admitiram sua dependência em relação ao petróleo da Venezuela, e as grandes corporações petrolíferas norte-americanas jamais engoliram a estatização do petróleo venezuelano, promovida por Hugo Chávez, pois essa nacionalização do hidrocarboneto interrompeu a histórica exploração econômica desse combustível fóssil pela potência do norte.

             Quanto ao Brasil, nem mesmo a “Velhinha de Taubaté” ignora que as corporações econômicas dos EUA e da Europa nunca se conformaram com o “regime de partilha” na extração do petróleo brasileiro, e estão cada vez mais de olho nas nossas reservas do pré-sal, ainda mais agora que a tecnologia prospectiva da Petrobras descobriu uma nova jazida em Santos, com prováveis 8 bilhões de barris, equivalente, ou pouco inferior, à grande reserva do chamado Campo de Lula.

              Se somarmos a tudo isso o fato de que a direita brasileira, em especial a turma e o partido de Aécio Neves e Aloísio Nunes, tem se manifestado abertamente a favor da “entrega” do petróleo nacional às empresas estrangeiras, podemos concluir que a “missão” dos senadores brasileiros tem algo a ver com a disputa em torno do cobiçado petróleo latino-americano.

                Nunca é demais lembrar, como revelou o WikiLeaks, que o senador José Serra do PSDB, quando foi candidato à presidência da república, havia se comprometido com a Chevron norte-americana a mudar as regras do pré-sal, isto é, prometeu substituir o “regime de partilha”, que garante um mínimo de 30% do petróleo com operacionalidade exclusiva da Petrobras, pelo antigo “regime de concessão”, que entrega todo o petróleo brasileiro às empresas privadas estrangeiras mediante simples pagamento de royalties.

              Aliás, uma vez eleito senador, José Serra (PSDB-SP) correu logo a apresentar o projeto de lei PLS 131, que retira exatamente a exclusividade da Petrobras na operação do pré-sal, bem como a participação mínima de 30% da petrolífera estatal nos consórcios extrativos, confirmando a denúncia feita pelo WikiLeaks sobre o “compromisso” do senador entreguista para com a Chevron & Cia dos Estados Unidos.

          O petróleo do Brasil e da Venezuela tem enorme relevância para as estratégias energéticas dos Estados Unidos (que já fizeram tantas guerras e mataram tanta gente no Oriente Médio por esse mesmo motivo), logo, não é nada interessante para os norte-americanos que esses dois países da América Latina sejam dirigidos por governos nacionalistas e hostis ao imperialismo ianque-europeu.

           Se tudo isso for verdade, então podemos concluir que os desastrados senadores representantes da elite brasileira, além do objetivo de promover a desmoralização do governo venezuelano, bem como a desestabilização do governo brasileiro, estavam (como sempre esteve a elite na América Latina) a serviço dos interesses estrangeiros, ou seja, a serviço das grandes corporações multinacionais e transcontinentais do petróleo. Seja como for, é inacreditável que senadores como Aécio Neves, Aloísio Nunes e Ronaldo Caiado, que até já pretenderam governar o Brasil, possam ter acreditado que a dondoca venezuelana, Maria Corina Machado, filha do magnata do aço que atualmente reside nos Estados Unidos, pudesse conduzi-los com segurança pelas ruas de Caracas.

              Essa ex-deputada venezuelana, outra golpista da direita que está com seu mandato cassado, nada entende de rua nem de povo. Não saberia, portanto, definir o roteiro nem a agenda dos senadores brasileiros na Venezuela chavista. Resultado: nossos parlamentares entraram numa verdadeira “casa de caboclo” e deu no que deu: tentaram andar pelas ruas e saíram escorraçados da Venezuela, protagonizando um dos maiores fiascos das nossas relações internacionais.

             Em suma, os senadores Aloysio Nunes e Ronaldo Caiado revelaram que são mesmo políticos retrógrados, ingênuos e provincianos; já o presidenciável Aécio Neves confirmou que sua maior “virtude política” é o acaso genético de ter sido neto do astuto Tancredo de Almeida Neves, um homem que tanto defendeu a herança de Vargas e que agora, certamente, está se revirando no túmulo por causa das estrepolias de seu suposto e incompetente herdeiro político.

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