Quem é o “pai” do ajuste fiscal?

             FAZ MAIS de 150 anos que Karl Marx previu e comprovou as “crises cíclicas” do capitalismo, pois nesse modo de produção econômica é impossível produzir sempre, consumir sempre, crescer sempre, lucrar sempre e assegurar a acumulação e os ganhos de todos para sempre. Desde 2008 que o capitalismo mundial está mergulhado numa dessas crises. Nesse período, as três grandes potências econômicas, Estados Unidos, União Europeia e Japão, chegaram a experimentar momentos de crescimento negativo, aumento de desemprego, inflação alta para os padrões do Primeiro Mundo, aumento vertiginoso das desigualdades sociais e empobrecimento gradativo da população trabalhadora.

               Nos Estados Unidos, por exemplo, não há um sistema de saúde pública gratuito, o sistema educacional está precário (não pensem que Harvard e o MIT são para todos os norte-americanos; nem são gratuitas), a queda do salário da classe trabalhadora é algo que até os economistas “engomadinhos” de Wall Street admitem sem rodeios, e o crescimento econômico médio naquele país tem oscilado entre menos 0,5% e 2% desde 2008; quando a crise se instalou.

           A chamada “crise dos subprimes” nos EUA, que provocou a quebra do Banco Lehman Brothers de Nova Iorque, revelou que o povo norte-americano precisava hipotecar suas casas várias vezes para pagar as contas de saúde, transporte, educação e moradia, ou seja, para pagar por direitos fundamentais, provocando a tal “bolha imobiliária” que escancarou para todo o mundo a recessão em que o capitalismo estava mergulhado.

           A quebra do Banco Lehman Brothers, agora em 2008, simboliza a crise atual do capitalismo tanto quanto o “Crash da Bolsa de Nova Iorque” simbolizou, em 1929, uma outra crise dessa mesma natureza. Duas “crises cíclicas” do sistema capitalista simbolizadas pela bancarrota de dois ícones do capitalismo financeiro. Com a voracidade do “rentismo abutre” não é à toa que o capital produtivo tenha migrado em massa para grande parte da Ásia, fazendo com que a China e os chamados “Tigres Asiáticos” se transformassem em potências do produtivismo no mundo. Não é por acaso que a Coreia do Sul entupiu o planeta com os seus Hyundais, LGs e Samsungs!

             Apesar disso, a mídia empresarial brasileira insiste em negar essa realidade global para atribuir as dificuldades atuais da economia do país aos “erros do passado”, leia-se, apenas os erros cometidos por Lula da Silva e Dilma Rousseff, que teriam gastado de forma irresponsável, incentivando o crédito popular, a distribuição de renda e a produção econômica que quintuplicou o PIB do país. Para “corrigir” esses tais “erros do passado”, a ofensiva neoliberal e o “rentismo abutre” exigiram da presidenta reeleita um ajuste fiscal com corte nos programas sociais, contenção de gastos, aumento de juros e rigorosa austeridade fiscal destinados a garantir o famoso “superávit primário” para pagar os juros de uma dívida indevida, indecente e impagável.

            Com isso (dentre outras “maldades”), restringiram benefícios sociais como a pensão por morte e o salário-desemprego, encurtaram o financiamento estudantil (Fies) e cortaram R$ 9,4 bilhões do orçamento do MEC, restringiram o crédito popular e a verba do programa Minha Casa, Minha Vida, promoveram um corte de R$ 69 milhões de reais no orçamento da União, e aumentaram várias vezes a taxa básica de juros (Selic) até atingir os atuais 13,75%.

             O resultado dessas asneiras neoliberais se fez sentir imediatamente: o desemprego que andava na casa dos 4% simplesmente dobrou para 8%; a renda média do trabalhador que vinha aumentando nos últimos dez anos já declinou 0,5%; o setor da construção civil demitiu 609 mil trabalhadores no último trimestre; o setor público extinguiu 560 mil postos de trabalho e, mesmo assim, a inflação continua ameaçando. O “AJUSTE FISCAL” é de fato, como disse o jornalista Jânio de Feitas, um “DESAJUSTE SOCIAL”. Só mesmo os economistas engravatadinhos – pernósticos e perversos -, de Wall Street, de Harvard, de Chicago, do MIT e da PUC do Rio de Janeiro para sustentar que recessão se combate com pacotes recessivos!

            Mas, afinal, quem é o “pai” dessa excrescência econômica batizada de “ajuste fiscal”? Ninguém quer assumir a paternidade nem o ônus político dessa estupidez, e a coisa parece que anda meio na base do “Toma lá que o filho é teu”, ou do “Quem pariu Mateus que o embale”.

                 De fato, a presidenta Dilma Rousseff sempre pregou o contrário do que consta do ajuste, apostando insistentemente no crescimento produtivista; o PT condenou o ajuste proposto e votou contrariado, sob pressão; o PSDB sempre pregou essas medidas neoliberais aprovadas agora, mas na hora agá votou contra o “ajuste fiscal” no Congresso; dizem que o ajuste é do neoliberal Joaquim Levy, mas, no momento de anunciar ao público o corte de R$ 69 bilhões no orçamento da União ele sumiu, teve um oportuno resfriado e nem apareceu para justificar as mudanças.

            Pode escrever aí, amigão. Na hora em que a coisa apertar, quando essa política recessiva estrangular de vez a vida da classe trabalhadora, com desemprego crescente, inflação elevada e falta de direitos e serviços essenciais, a mídia burguesa vai esconder a recessão mundial e vai “martelar” na sua cabeça até te convencer que o verdadeiro “pai” do reajuste recessivo são os “erros do passado” – essa tática é tão previsível que nem precisa “combinar com os russos”.

             É claro que tudo isso visa desandar o governo Dilma Rousseff. E visa, sobretudo, impedir a volta de Lula da Silva em 2018; que será um candidato difícil de ser batido nas urnas. E tudo isso porque a direita precisa afastar governos que dificultam as políticas financeiras do neoliberalismo; precisa substituir governos que atrapalham os negócios do “rentismo abutre” e que buscam diminuir os impactos negativos da ofensiva neoliberal ao redor do mundo.

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Uma resposta para Quem é o “pai” do ajuste fiscal?

  1. Borborema disse:

    Subiu salário o mercado responde aumentando preços.Quero ver imposto das grandes fortunas e a quebra de monopólios,aqui tudo acontece ao contrário .
    Ta ruim mas tá bão ,e como diz o Gagá , “Tá na mantega !”

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