Manobras e antirreforma

          ENTRE os analistas sérios e independentes há um consenso, talvez uma unanimidade, de que o “cupinzeiro” da corrupção política no Brasil, o que de fato sequestra e corrói nosso sistema político, é mesmo o financiamento privado de campanha por parte de empresas, ou seja, por parte de empresas e grandes corporações econômicas que “não votam, mas elegem os candidatos”.

            Até a “Velhinha de Taubaté” sabe que esse financiamento da política pelo setor empresarial é, na verdade, um “investimento” feito pelos empresários. Ou seja, eles fazem as doações em dinheiro durante a campanha, apoiam candidatos de todos os partidos, e depois de eleitos seus financiados, como em qualquer negócio, cobram naturalmente os “juros” e “dividendos” de seus “investimentos” eleitorais.

               Pois bem, quando o Supremo Tribunal Federal já estava concluindo o julgamento de uma ação de inconstitucionalidade proposta pela OAB, quando essa Corte Suprema já considerava inconstitucional o financiamento privado de campanha pelo placar decisivo de 6 votos a 1, o ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo em abril de 2014 e não o devolveu mais para julgamento.

               Numa clara conivência com a iniciativa de Gilmar Mendes, que paralisou a ação direta de inconstitucionalidade, o então presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, deixava de tomar as providências que lhe competiam: pois competia-lhe indeferir o pedido de vista claramente protelatório de Mendes, que já havia declarado de público seu voto, ou fixar prazo de vista para devolução dos autos, ou exigir a imediata devolução do processo para conclusão do julgamento – o presidente do STF não fez uma coisa nem outra.

            Essa “malemolência” do ministro Gilmar Mendes, sob as barbas do austero e temível ministro Joaquim Barbosa, proporcionou o tempo necessário para que a Câmara dos Deputados, por meio das manobras do deputado Eduardo Cunha, aprovasse nesta semana, em primeiro turno, a emenda constitucional que permite a doação de empresas a partidos políticos.

                O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, submeteu a emenda à votação e ela foi prontamente rejeitada pelos parlamentares. Mas, no dia seguinte, ferindo a Constituição e o regimento da Casa do Povo, Eduardo Cunha levou novamente a proposta à apreciação do plenário, pressionou os partidos pequenos, pressionou diversos parlamentares indecisos da direita e conseguiu aprovar assim a sórdida PEC da corrupção.

         Moral da história: o grande “tumor” da corrupção política no Brasil – não nos deixemos enganar – vai continuar fermentando e crescendo, nosso sistema político continuará corrupto e subjugado pelo poder econômico como sempre esteve, e a tão desejada “reforma política”, com algumas mudanças pontuais de somenos importância, está indo descaradamente por água abaixo.

             Mas, é interessante registrar uma coisa, aliás, três coisas. Primeiro, todos os partidos da direita, inclusive o PMDB e o PSDB, votaram a favor da emenda que constitucionaliza o financiamento privado da política; por outro lado, todos os partidos da esquerda, notadamente o PT, o PSOL e o PC do B, votaram unanimemente contra essa indecência.

               Segundo, a grande mídia burguesa, que na verdade é o maior partido político da direita no Brasil, e que costuma bradar “iradamente” contra a corrupção e os corruptos, ficou de bico bem caladinho, ou seja, aprovou tacitamente a “emenda da corrupção”, pois não condenou nem a “malemolência” de Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa no STF, nem tampouco as manobras de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados.

         Terceiro, aquela turma indignada do impeachment, que saiu às ruas exigindo moralidade e até mesmo a intervenção militar para “varrer” a corrupção no país; aquela turma dos xingamentos no Itaquerão contra a presidenta “corrupta”; e ainda aquela turma dos “panelaços” em condomínios de luxo, está engolindo bem-comportadinha (ou nem percebeu) essas infames manobras contra a reforma política no Brasil.

            É isso aí mesmo; não nos enganemos. Esse é o jogo. Não vê quem não quer. A direita no mundo todo é moralista mas não vive sem corrupção, porque o sistema capitalista (que financia a política) é intrinsecamente corrupto; e a indignação de alguns brasileiros até agora há pouco, que exigiam ética na política a todo custo, não passava mesmo de puro despeito por causa da vitória do maior partido da esquerda na última eleição presidencial – não tinha nada a ver com ética; era só despeito mesmo.

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