Como entender o governo Dilma?

    QUALQUER análise que se pretenda séria sobre o primeiro governo de Dilma Rousseff precisa evitar aqueles clichês estúpidos, tão difundidos pela mídia capitalista e seus inocentes leitores, de que a presidenta não passa de uma simples “criatura do Lula”, uma espécie de “poste inventado pelo Lula”, ou um mero “boneco de ventríloquo” usado pelo Lula.

   Essas desqualificações pessoais e rasteiras não dizem nada, não ajudam em nada, e, portanto, não esclarecem absolutamente nada sobre o governo Dilma Rousseff. Desqualificar a pessoa da presidenta não significa criticar o seu governo nem o seu desempenho pessoal à frente da presidência da república, pois, ataque pessoal não é e não pode ser confundido com crítica.

   É claro que se pode fazer muitas e diferentes leituras sobre o governo Dilma; é claro que se pode examiná-lo sob diversos ângulos e variados pontos de vista; é claro também que sempre será possível aprová-lo ou reprová-lo conforme o gosto de cada um; é claro que todo governo é criticável. Mas, uma coisa parece consenso: o governo Dilma Rousseff foi uma tentativa de aprofundar as políticas socioeconômicas do lulismo e de investir numa política de conteúdo nacional.

   De fato, no plano social a presidenta Dilma ampliou os programas sociais implantados por seu antecessor; avançou com a política de distribuição de renda pela via do aumento real do salário mínimo e pela ampliação do Bolsa Família; ampliou o acesso ao crédito popular para manter o consumo e a produção aquecidos; viabilizou o acesso dos mais pobres a bens materiais de consumo (geladeira, televisão, celular, casa, viagens, carros etc.); ampliou o acesso à universidade e aos equipamentos básicos de saúde.

   No plano macroeconômico, a presidenta apostou na indústria nacional com a ampliação de investimentos em infraestrutura; realizou uma pequena desvalorização do real para fomentar a exportação; manteve o câmbio flutuante; ampliou as políticas creditícias do BNDES; e, finalmente, chegou a baixar a taxa de juros até inimagináveis 7,25 ao ano, apostando no produtivismo e numa política de cunho nacional-desenvolvimentista ou de “conteúdo local”.

   Isso era tudo o que já vinha fazendo Lula da Silva no seu segundo mandato desde 2006. Dilma Rousseff não fez outra coisa senão levar adiante as políticas e os programas do lulismo – tanto no campo social quanto no âmbito da macroeconomia. Mas, de repente, alguma coisa deu errada no meio do caminho. E o que é que deu errado, qual foi a “pedra” que se colocou no caminho da sucessora de Lula da Silva? Penso que a resposta a essa pergunta é exatamente a chave para entender um pouco melhor o governo Dilma Rousseff.

   É claro que muitas respostas são possíveis. Proponho, porém, que afastemos desde logo as explicações moralistas e os discursos supostamente indignados com a corrupção, pois essas análises só confundem e não explicam nada. Afinal, todos os outros governos e partidos sempre prometeram moralidade e honestidade na política, mas fizeram exatamente o contrário, praticando todo tipo de corrupção que continua impune até hoje.

   Proponho também que afastemos aquelas baboseiras disseminadas pela mídia partidária (a mídia é o maior partido do capital no Brasil), segundo as quais Dilma Rousseff fracassou porque é arrogante, porque abusou de políticas intervencionistas, porque segurou o preço das tarifas comprometendo a saúde financeira das empresas estatais, ou porque gastou exageradamente e comprometeu o sacrossanto superávit primário etc.

   Esse é o discurso dos economistas conservadores que a mídia dissemina para consumo  do grande público. Até quem não é economista sabe que o simples temperamento de um presidente não é capaz de comprometer uma economia do tamanho da nossa; política intervencionista existiu só na cabeça dos propagandistas da direita, pois vivemos numa economia de livre mercado; valor de uma ou duas tarifas (que na verdade foram reajustadas) não comprometeria jamais uma economia como a brasileira; e superávit primário é coisa que nunca faltou no caixa do governo, prova disso é que os investidores internacionais querem cada vez mais investir no Brasil.

   Pois bem, então o que é que deu errado no governo Dilma Rousseff? Como já disse, a questão é complexa e comporta múltiplas respostas. Mas, dentre as muitas respostas possíveis avanço a hipótese de que a “pedra no caminho” da presidenta foi a repentina reação da burguesia neoconservadora e neoliberal contra a TENTATIVA DE APROFUNDAR (E NÃO APENAS CONTINUAR) AS POLÍTICAS DO LULISMO, tanto no campo social como no econômico.

   Ou seja, distribuição de renda, inclusão social de amplas camadas populares, política nacionalista, justiça e igualdade sociais, neste país, são coisas que têm limites. O aprofundamento dessas políticas é quase um “crime”, com direito a xingamentos e uma estrondosa vaia em pleno Maracanã lotado por parte daqueles que estão na “arquibancada de cima”.

   A formação da sociedade e do Estado brasileiro, ancorada num passado colonialista e escravocrata, ainda é bastante refratária aos valores republicanos e democráticos. Esses valores têm origem na ideia de igualdade com a qual a sociedade brasileira, profundamente estratificada e socialmente autoritária, convive muito mal, pois estranha e recusa qualquer tipo de horizontalidade ou alinhamento com os de baixo.

   Por razões que ainda não estão bem claras – não sei se por motivação política ou puramente econômica – o fato é que durante o governo Dilma Rousseff uma grande parte da burguesia produtivista, que até então dava sustentação ao governo de Lula da Silva (atraída então pelo vice-presidente e empresário José Alencar) rompeu com o lulismo, juntou-se à burguesia financeira e passou a fazer uma ferrenha oposição ao governo da presidenta petista.

   Por razões que também não estão bem claras, a classe média (que vive imitando a elite burguesa) acompanhou esse rompimento e passou a rejeitar o governo do Partido dos Trabalhadores, mas o fez com um ódio de classe jamais visto nos últimos tempos, investindo furiosamente contra os pobres que passaram a compartilhar aeroportos e outros espaços antes não frequentados por eles, contra nordestinos que votaram em massa no Partido dos Trabalhadores, e contra os membros e até eleitores do PT.

   Em suma, a tal “pedra no caminho” de Dilma Rousseff foi mesmo a súbita reorganização e o reposicionamento das forças neoliberais e reacionárias, comandada pela união da burguesia produtiva com o rentismo (nativo e estrangeiro), apoiada pela classe média que reproduz automaticamente os valores e as visões de mundo do “andar de cima”, e divulgada pela grande mídia que aliena o povo, fazendo a propaganda política da direita em vez de informar a população com imparcialidade.

   Foi dessa forma que “fabricaram” uma crise econômica que não existia; foi assim que colocaram em risco a nossa política nacionalista do petróleo; foi assim que enfraqueceram (sangraram) o governo Dilma Rousseff; e foi assim que enfiaram goela abaixo da presidenta um ajuste fiscal recessivo que acabará por destroçar a sua popularidade – até mesmo entre as camadas inferiores que começarão a sentir mais dramaticamente os efeitos nocivos do programa neoliberal que tomou o lugar do lulismo.

   Não nos deixemos enganar pelos inescrupulosos propagandistas da direita atrasada e selvagem: essa reação neoconservadora nada mais é do que uma óbvia manifestação do velho e conhecido fenômeno que atende pelo nome de “luta de classes”. E tudo isso por causa da ameaça que representa um possível (e até provável) retorno de Lula da Silva ao poder em 2018.

    A burguesia neocolonial brasileira – antinacionalista, antipopular e antidemocrática – não suportaria mais o fato de continuar sendo governada por um partido de origem popular com raízes no trabalhismo, pois isso seria muita desonra para uma elite acostumada a mandar e desmandar – desde os tempos da colônia e do pelourinho!

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