Esquerda encurralada

    O PARTIDO dos Trabalhadores teve um presidente (José Genoíno) e dois tesoureiros (Delúbio Soares e João Vaccari Neto) levados à prisão nas duas últimas e mais rumorosas investigações sobre corrupção política no país: o midiático “mensalão” e o seletivo “petrolão”.

    Agora, com base num voto do ministro Gilmar Mendes, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impôs uma multa inédita ao Partido dos Trabalhadores de 4,9 milhões de reais e suspensão do Fundo Partidário por irregularidades na prestação de contas referentes ao ano de 2009, o que, somado a outras multas decorrentes do caso “petrolão”, poderá inviabilizar a sigla do PT para as próximas eleições.

    A turma do “terceiro turno” não sai das ruas pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff sob o argumento de que ela teria cometido crimes de responsabilidade, tanto no caso da Petrobras quanto no caso da “maquiagem” das contas do governo, uma vez que teria utilizado o lucro de bancos públicos para disfarçar o déficit ou “rombo” do Tesouro Nacional, prática esta inaugurada por FHC.

    Nos últimos dias, a grande mídia burguesa noticiou que o ex-presidente Lula da Silva está sendo investigado pelo Ministério Público Federal porque teria praticado crimes de tráfico de influência por ter, supostamente, feito lobby a favor da construtora Odebrecht em obras realizadas na África e em alguns países da América Latina.

    Essa mesma mídia noticiou neste fim de semana que até o  marqueteiro do Partido dos Trabalhadores, o publicitário João Santana, teria transferido 16 milhões de dólares ilegalmente de Angola para o Brasil com a finalidade de repassar esse dinheiro, ou parte dele, ao PT.

    Não há notícia de que presidentes, tesoureiros, contas, marqueteiros e ex-presidentes da república de outros partidos hajam sido assim tão sistematicamente investigados e tão execrados publicamente pela mídia burguesa, mesmo com todos os indícios, provas e até evidências de que a corrupção é mesmo uma “velha praga” que Ruy Barbosa já condenava há um século atrás.

    Estão investigando ex-presidente da república do PT, filho de ex-presidente da república do PT, suposta “amiga íntima” de ex-presidente da república do PT, sítio (em Atibaia) de amigo do filho de ex-presidente da república do PT, irmão da atual presidenta da república do PT, cunhada de tesoureiro do PT, marqueteiro do PT, mulher de deputado do PT, contas antigas do PT… aonde vai parar essa devassa?

    Daqui a pouco vão começar a prender e investigar até eleitor do PT!

     Enquanto isso, os jornalões nem noticiam – ou noticiam discretamente como fez hoje a Folha de S. Paulo – que os delatores Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa deixaram de contar tudo o que haviam prometido nos documentos do acordo de delação premiada homologada pela justiça, isto é, deixaram de fora apenas o que sabiam a respeito da corrupção em Furnas praticada por Aécio Neves (PSDB) através de sua irmã desde os tempos de FHC.

    Os delatores prometeram, mas não falaram, não cumpriram o prometido. E ninguém exige, ninguém pergunta, ninguém denuncia a delação descumprida, fica tudo por isso mesmo. Desse jeito, o povo ainda acaba desconfiando que o negócio é “pegar só o PT”, e pegar de qualquer maneira, na lei ou fora da lei!

    Essa ruptura do acordo de delação pelos delatores é um “escândalo dentro da operação que apura um escândalo”. Mas, o gozado é que essa delação pela metade, feita seletivamente na Operação Lava Jato, com o descarado objetivo de atingir apenas um partido e seus aliados, não revolta ninguém. Essa turma que tem saído às ruas para “passar o Brasil a limpo”, se é que está mesmo consciente do que faz e do que diz, bem que poderia exigir explicações sobre essas esquisitas “investigações e acusações de uma perna só”.

    E o mais gozado ainda é que ninguém percebe toda essa seletividade, toda essa discriminação, bem como os “dois pesos e as duas medidas” com que, supostamente, pretendem “moralizar” o Brasil. Ignoram que essa pretensa “moralização” do país não passa de uma estratégia bem orquestrada pela direita para defenestrar a esquerda do poder antes que ela comece a “atrapalhar” os grandes negócios e as negociatas que “atrapalham” tanto a vida do povão brasileiro.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

 

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3 respostas para Esquerda encurralada

  1. José Américo Carnevalli disse:

    Meu caro amigo, ainda que não marcamos aquele shop e que fica aqui a cobrança tanto minha quanto sua, certo? Dias atrás, você publicou um texto sobre “ser de esquerda” e “ser de direita”, por falta de tempo não o comentei, mas brilhantemente discorrido e com uma perfeita comparação de exemplos. A esquerda esta no governo federal e isso a faz ficar em primeiro plano da mídia, seja ela qual for e de que interesses buscam; os governos estaduais acabam ficando em segundo plano, portanto, não tão visível no contexto, mas sim particularizado na mídia de cada estado. Governos de coalisão, como os iniciados na era Itamar/FHC, traziam consigo problemas de corrupção sem nenhuma dúvida, porém, como se estava iniciando um nova era democrática, muito menos visível que hoje.
    O PT, desde lá, combatia implacavelmente a corrupção, as coalisões partidárias, o apadrinhamento e o aparelhamento do estado, sim, era a bandeira fiel do nascimento do PT. Não sei se essa seria a explicação para, hoje, o PT está tanto exposto na mídia. Convenhamos, o PT cobrou muito de todos, cobrou principalmente a ética. Quem acreditou nisso, hoje se desiludiu com que vemos, dai uma boa parcela disso que se chama de “ódio”, mas que eu considero, de fato, apenas uma rejeição de princípios.
    De esquerda ou de direita, de centro ou não, seja lá de que lado for, os governos de coalisão confundem as bandeiras partidárias e se mostram totalmente desrespeitosos com seus princípios ideológicos apenas para se manter no poder. Foi assim, está sendo assim, e se não houver mudanças na estrutura eleitoral do pais, continuará viciada na coalisão. O PT se juntar com PP, PMDB, PR e outros mais, certamente não poderá nunca repassar e implantar politicas sérias de ideologias, contrárias ou não ao que a maioria da população possa querer e aprovar.
    Saudades do seu programa na TV, quem sabe teríamos um belo fórum para conversar sobre tudo isso, entretanto, no dia do shop, só falaremos de amenidades, certo? Ah, e do Santos campeão…rs !!! Forte abraço!!!

    • Caro amigo Zé Américo,

      Se você não se importar, subscrevo inteiramente o seu comentário e, portanto, ratifico-o em tudo.
      Grande abraço, parabéns pela lucidez das suas considerações e também, por que não, pelo seu vitorioso Santos Futebol Clube.

      Machado

  2. José Américo Carnevalli disse:

    Machado, meu caro amigo, para ilustrar o que estávamos falando sobre “Direita” e “Esquerda” e Governos de Coalisão, a bagunça formada pelas bandeiras de partidos interessados apenas naquilo que cada um pode obter de vantagens, eis ai o texto do colunista Josias de Souza, para ilustrar o conteúdo da bagunça generalizada. Foque apenas na sequencia cinematográfica dos acontecimentos. Que belo filme daria.não?

    Eduardo Cunha arma derrota de Dilma em almoço sem o PT e com oposicionistas

    Josias de Souza 06/05/2015 05:12
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    Dilma Rousseff foi dormir aborrecida na noite passada. Ela iniciara a terça-feira animada. Dava-se de barato à sua volta que seria aprovada na Câmara a primeira medida provisória do ajuste fiscal do governo, também conhecido como arrocho trabalhista. Deu tudo errado. Além de protelar a apreciação da proposta que interessava ao governo, Eduardo Cunha, presidente da Câmara, atravessou na traqueia de Dilma a PEC da Bengala, que estica de 70 para 75 anos a idade para a aposentadoria compulsória dos ministros de tribunais superiores.

    O pesadelo de Dilma começou a ser planejado por Eduardo Cunha na hora do almoço. Sem alarde, ele reuniu na residência oficial da Câmara líderes de vários partidos, exceto do PT. Havia ao redor da mesa representantes do PMDB, PP, PR, PDT, PSC, PTB e até dos oposicionistas Solidariedade e DEM. Cunha informou aos convidados que aproveitaria a tropa mobilizada pelo governo para enganchar a PEC da Bengala na MP do ajuste fiscal. Faria isso de surpresa, para evitar contragolpes. Sem saber, o Planalto mobilizava a infantaria de que o desafeto de Dilma necessitava para derrotá-la.

    Àquela altura, Cunha planejava entregar a mercadoria desejada por Dilma. Enfiaria a PEC da Bengala no enredo apenas para dividir as manchetes com a MP trabalhista, evitando uma vitória solitária do governo. O anfitrião combinou o jogo com os comensais: abriria a sessão com a discussão do arrocho. Logo que o quórum subisse, colocaria em votação a PEC que retira de Dilma a prerrogativa de indicar pelo menos mais cinco ministros para o STF até 2018. Fecharia a noite com a aprovação da MP do ajuste fiscal. Na metade do caminho, Cunha mudou de ideia. Aprovou o que lhe interessava. E aplicou um golpe de barriga na matéria de interesse do governo.

    O futebol talvez seja a melhor metáfora para a sessão da Câmara. Pelo menos oferece analogias que ajudam a interpretá-la. O arrocho fiscal era a bola. Estava combinado que o time do governo, estimulado pelas promessas de premiação feitas pelo articulador Michel Temer, dominaria o pacote no peito e colocaria, maciamente, no solo. Mas o PT aparou com o nariz a primeira medida provisória do embrulho. Rachado, o partido da presidente não conseguiu fechar questão em favor do arrocho.

    Para complicar, Lula chutou a grama. Num instante em que os deputados governistas se dispunham a limitar benefícios trabalhistas em nome do equilíbrio das contas públicas, Lula fazia pose de defensor dos trabalhadores numa aparição no programa do PT, transmitido em rede nacional. O meio campo do governo embolou. Triangulando pela ponta direita, Eduardo Cunha lançou um par de bolas nas costas de Dilma. E terminou impondo ao Planalto uma derrota de 2 a zero. Com direito a gol contra de Lula.

    Na véspera, durante a reunião de Dilma com os membros da coordenação política do governo, Michel Temer avisara: a dubiedade do PT dificultava a aprovação do pacote fiscal. O PMDB e outras legendas governistas condicionavam o voto nas medidas que limitam a concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários ao engajamento de 100% do PT. Os aliados não admitiam fazer o papel de vilão enquanto os petistas posavam de bons moços.

    Presente à reunião, o ministro petista Ricardo Berzoini (Comunicações) dissera a Temer que seu partido fecharia questão a favor do ajuste. Na linguagem partidária, fechar questão signica obrigar todos os filiados a votarem a favor de determinada proposta, sob pena de sofrer punições. Rachada, a bancada do PT emitiu sinais trocados durante todo o dia. Uma dezena de deputados petistas ameaçavam votar contra o governo.

    Temer tocou o telefone para Dilma e para o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil). Reiterou que a hesitação do PT colocava o ajuste em risco. O Planalto mandou à Câmara quatro ministros petistas. Não conseguiram arrancar o fechamento de questão. Mas produziram na bancada uma maioria pró-arrocho. Anunciada em plenário, a posição do PT foi considerada satisfatória pelo PMDB e demais aliados.

    Súbito, o PT levou ao ar, em cadeia nacional de rádio e tevê, sua propaganda de dez minutos. Dilma não deu as caras na peça. Mas Lula deu o ar de sua graça. Falou contra o projeto de terceirização de mão de obra, recém aprovado na Câmara e enviado ao Senado.

    “Não podemos permitir que a história de conquistas dos trabalhadores ande para trás”, disse o morubixaba do PT. “É isso o que vai acontecer se for aprovado o projeto de lei 4.430, o projeto da terceirização, que passou na Câmara dos Deputados. Esse projeto faz o Brasil retornar ao que era no começo do século passado. Volta ao tempo em que o trabalhador era um cidadão de terceira classe, sem direitos, sem garantias, sem dignidade. Nós não vamos permitir esse retrocesso…”

    Cunha ficou furioso com a pose de Lula. A fúria contagiou a bancada do PMDB. O panelaço que soou durante o programa do PT em 14 Estados e em Brasília despertou nos peemedebistas o desejo de reagir. Farejando o sentimento de sua bancada, Cunha chamou à mesa de onde presidia a sessão o líder do PMDB, seu escudeiro Leonardo Picciani. Enviou-o à tribuna. Num discurso irônico, o deputado anunciou que o PMDB decidiu retirar seu apoio ao pacote. Enquanto o governo e o PT não se entenderem, o PMDB prefere dar ouvidos a Lula, tão preocupado com os trabalhadores, do que aprovar o arrocho proposta por Dilma.

    O ajuste fiscal de Dilma subiu no telhado perto da meia-noite. E Eduardo Cunha marcou o reinício do debate para o meio-dia desta quarta-feira. Para dar nova meia-volta, o PMDB exige que o PT ajoelhe no milho. O ativismo do PMDB torna a oposição desnecessária.

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