Esquerda encurralada

            O PARTIDO dos Trabalhadores teve um presidente e dois tesoureiros levados à prisão nas duas últimas e mais rumorosas investigações sobre corrupção política no país: o midiático “mensalão” e o seletivo “petrolão”. Agora, com base num voto do ministro Gilmar Mendes, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impôs uma multa inédita ao Partido dos Trabalhadores de 4,9 milhões de reais, e suspensão do Fundo Partidário por irregularidades na prestação de contas referentes ao ano de 2009, o que, somado a outras multas decorrentes do caso “petrolão”, poderá inviabilizar a sigla do PT para as próximas eleições.

             A turma do “terceiro turno” não sossega; não sai das ruas pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, sob o argumento de que ela teria cometido crimes de responsabilidade, tanto no caso da Petrobras quanto no caso da “maquiagem” das contas do governo, uma vez que teria utilizado o lucro de bancos públicos para disfarçar o defice ou “rombo” do Tesouro Nacional – prática esta inaugurada por FHC.

            Nos últimos dias, a grande mídia burguesa noticiou que o ex-presidente Lula da Silva está sendo investigado pelo Ministério Público Federal porque teria praticado crimes de tráfico de influência por ter, supostamente, feito lobby a favor da construtora Odebrecht em obras realizadas na África e em alguns países da América Latina. Essa mesma mídia noticiou neste fim de semana que até o  marqueteiro do Partido dos Trabalhadores, o publicitário João Santana, teria transferido 16 milhões de dólares ilegalmente de Angola para o Brasil, com a finalidade de repassar esse dinheiro, ou parte dele, ao PT.

             Todavia, não há notícia de que presidentes, tesoureiros, contas, marqueteiros e ex-presidentes da república de outros partidos hajam sido assim tão sistematicamente investigados, e tão execrados publicamente pela mídia burguesa, mesmo com todos os indícios, provas e até evidências de que a corrupção é uma “velha praga” – que Rui Barbosa já condenava um século atrás.

        Estão investigando ex-presidente da república do PT; filho de ex-presidente da república do PT; suposta “amiga íntima” de ex-presidente da república, do PT; sítio (em Atibaia) de amigo do filho do ex-presidente da república, do PT; irmão da atual presidenta da república, do PT; cunhada de tesoureiro do PT; marqueteiro do PT; esposa do marqueteiro do PT; mulher de deputado do PT; contas antigas do PT… aonde vai parar essa devassa?

             Daqui a pouco vão começar a prender e investigar até eleitor do PT!

           Enquanto isso, os jornalões nem noticiam – ou noticiam discretamente como fez hoje a Folha de S. Paulo – que os delatores Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa deixaram de contar tudo o que haviam prometido nos documentos do acordo de delação premiada homologada pela justiça, isto é, deixaram de fora apenas o que sabiam a respeito da corrupção em Furnas praticada por Aécio Neves (PSDB) através de sua irmã desde os tempos de FHC.

           Os delatores prometeram, mas não falaram – não cumpriram o prometido. Apesar disso, n ninguém exige, ninguém pergunta, ninguém denuncia a delação descumprida – fica tudo por isso mesmo. Desse jeito, o povo ainda acaba desconfiando que o negócio, o objetivo dessas investigações, é “pegar só o PT”, e pegar de qualquer maneira, na lei ou fora da lei!

        Essa ruptura do acordo de delação pelos delatores é um “escândalo dentro da operação que apura um escândalo”. Mas, o gozado é que essa delação pela metade, feita seletivamente na Operação Lava Jato, com o descarado objetivo de atingir apenas um partido e seus aliados, não revolta ninguém. Essa turma que tem saído às ruas para “passar o Brasil a limpo”, se é que está mesmo consciente do que faz e do que diz, bem que poderia exigir explicações sobre essas esquisitas “investigações e acusações de uma perna só”.

           E o mais gozado ainda é que ninguém percebe toda essa seletividade, toda essa discriminação, bem como os “dois pesos e as duas medidas” com que, supostamente, pretendem “moralizar” o Brasil. Ignoram que essa pretensa “moralização” do país não passa de uma estratégia bem orquestrada pela direita para defenestrar a esquerda do poder antes que ela comece a “atrapalhar” os grandes negócios, e as negociatas, que “atrapalham” tanto a vida do povão brasileiro.

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