Direita ou esquerda: ser ou não ser

  UMA das mais bem-sucedidas empreitadas da mídia conservadora, e do discurso reacionário em geral, foi convencer grande parte da opinião pública de que a distinção política entre “direita” e “esquerda” não existe mais, não faz sentido nenhum nos dias de hoje e é coisa do passado, coisa do século 18, que vem desde os tempos remotos da Revolução Francesa.

   O que é ser de direita? O que é ser de esquerda?

   São duas perguntas que dividem os intelectuais. Uns buscam efetivamente respondê-las, procurando definir e marcar bem essas duas posições políticas, mas há os que procuram escamoteá-las; uns tentam esclarecer bem os conceitos de direita e esquerda, mas há os que procuram confundi-los; alguns buscam destacar claramente as diferenças entre esses dois posicionamentos políticos, mas há quem procure negar e dissolver as possíveis diferenças entre eles.

   Não se nega que há, de fato, uma certa confusão conceitual nesse campo. Mas, uma coisa não se pode ignorar: a confusão entre as noções de direita e esquerda, a dificuldade de fazer a distinção entre ambos os posicionamentos, e, sobretudo, a conclusão de que não há mais diferença entre uma coisa e outra, são um triunfo exclusivo do pensamento e do discurso conservador.

   Com efeito, a negação de quaisquer diferenças políticas é sempre a negação dos conflitos políticos; e a negação desses conflitos dispensa a necessidade da luta; e dispensar a luta política significa mergulhar no conformismo, na defesa do status quo e na aceitação da ordem estabelecida que seria o melhor dos mundos, o paraíso dos conservadores.

   Os intelectuais de um modo geral, com as exceções de sempre, não têm andado muito bem nessa tarefa de definir com rigor e com clareza aquilo que é “ser de esquerda” ou “ser de direita”. O trabalho especulativo, racional e abstrato dos intelectuais acaba falhando porque, provavelmente, o melhor caminho para entender uma coisa e outra talvez seja a prática (praxis) e não a gramática.

   No campo prático, os exemplos históricos de posicionamentos políticos à direita e à esquerda são abundantes. E além de abundantes, são didáticos, verificáveis concretamente na realidade, sobretudo, na realidade do Brasil contemporâneo.

   Vejamos um primeiro exemplo, e bem atual: se alguém é contra a redução da maioridade penal, sob o argumento de que os nossos adolescentes infratores deveriam ser reeducados, que deveríamos assegurar-lhes os direitos garantidos pelo ECA antes de atirá-los à prisão, e que o nosso sistema prisional seletivo, violento e corrupto não recupera ninguém e só faz alimentar a violência, então não há dúvida de que essa pessoa está defendendo uma bandeira típica do pensamento de esquerda.

   Mas, ao contrário, se essa mesma pessoa defende a redução da maioridade penal, sob o argumento de que os nossos problemas sociais devem ser resolvidos com cadeia e com polícia, que os adolescentes são bandidos irrecuperáveis, e que eles merecem mesmo o horror das nossas penitenciárias medievais, é claro que essa pessoa estará defendendo uma bandeira conservadora, típica da direita.

   Outro exemplo, também muito atual: se alguém é contra a terceirização do trabalho em atividades fins, sob o argumento de que isso representa menos direitos para o empregado e mais privilégios para o  empregador, que isso significa mais risco e menos segurança, mais trabalho e menos ganhos para a classe trabalhadora, e que essa mudança legal é um retrocesso em relação à CLT, então não há dúvida de que esse alguém está defendendo uma causa típica da esquerda.

   Mas, ao contrário, se esse mesmo alguém entende que a terceirização é um avanço, é algo que vai simplificar as relações entre capital e trabalho, é uma medida legal que protege 12 milhões de trabalhadores e que proporcionará mais empregos e mais desenvolvimento, não resta a menor dúvida de que a opinião dessa pessoa, nesse tema, converge inteiramente para as opiniões conservadoras típicas da direita.

   Mais um exemplo: se um indivíduo defende as ações afirmativas e as cotas raciais para afrodescendentes nos concursos e nas universidades, sob o argumento de que o Brasil tem uma dívida histórica com os negros em razão do nosso longo passado escravista e também por causa do racismo disfarçado que persiste até hoje, não há dúvida de que esse indivíduo estará defendendo uma antiga causa da esquerda.

   Mas, ao contrário, se essa pessoa se opõe à política de cotas indiferente ao nosso passado escravocrata, indiferente ao fato de que os negros no Brasil, em média, ganham apenas 57% do que ganham os brancos, e se não lhe importa que 68% das mortes violentas no país atingem apenas os negros, então é claro que tal pessoa defende uma bandeira conservadora, típica da direita.

   Um exemplo mais: se alguém se opõe às políticas econômicas do neoliberalismo, opondo-se às privatizações indiscriminadas, à completa desnacionalização da nossa economia, ao arrocho salarial recessivo, às restrições a direitos sociais e à disciplina fiscal monetarista imposta pelo FMI nos países da América Latina, então é óbvio que essa pessoa tem posições tipicamente de esquerda.

   Mas, ao contrário, se esse alguém defende a desproteção comercial e a completa abertura da nossa economia ao capital estrangeiro como reza a cartilha neoliberal, se acredita na livre regulação do mercado, se aprova as privatizações e as políticas recessivas impostas pelos organismos financeiros internacionais, então é bobagem negar que suas convicções são claramente conservadoras, típicas da direita.

   Mais exemplo: se um indivíduo condena a absurda concentração do poder da mídia no Brasil, se condena a “propriedade cruzada” dos meios de comunicação de massa, se condena a manipulação da opinião pública por esses órgãos privados de informação, se pede a desconcentração e a democratização do poder de informar, não há dúvida de que esse indivíduo estará assumindo posições que coincidem exatamente com reivindicações da esquerda.

   Mas, ao contrário, se esse mesmo indivíduo justifica o monopólio da informação nas mãos de meia dúzia de empresas privadas com fins lucrativos, se justifica esse monopólio em nome da absoluta liberdade de imprensa e da livre expressão do pensamento, se não lhe importa que essa mídia apoie golpes de Estado contra a democracia, e se não reivindica espaços alternativos de informação pública, então não adianta negar que esse indivíduo está assumindo uma bandeira própria da direita.

   Um outro exemplo ainda: se uma pessoa defende a reforma agrária, sob o argumento de que todos devem ter acesso à terra e ao trabalho, alegando que é injustificável a concentração de 49% das nossas terras agricultáveis em mãos de apenas 1% de proprietários (IBGE), e nem todos proprietários brasileiros, então não há dúvida de que essa pessoa está defendendo uma das causas tradicionais da esquerda.

   Mas, ao contrário, se essa mesma pessoa justifica a forte concentração da propriedade jurídica e econômica da terra no Brasil, se ela considera o direito de propriedade absoluto e intocável, se admite a existência de latifúndios independentemente do cumprimento de sua função social, então não resta a menor dúvida de que essa pessoa está apoiando uma das causas mais conservadoras e mais sensíveis do campo da direita.

   Um último exemplo: se um indivíduo condena a nossa estrutura tributária regressiva, se recusa essa estrutura que penaliza a classe trabalhadora com 80% de impostos indiretos e poupa as grandes fortunas e as grandes empresas com desonerações, anistias e isenções tributárias, e se condena a evasão legal de divisas para “paraísos fiscais”, então não há dúvida de que esse indivíduo assume posturas realmente críticas, típicas da esquerda.

   Mas, ao contrário, se esse mesmo indivíduo justifica o nosso sistema tributário injusto, se admite que as grandes fortunas e as grandes heranças continuem isentas de tributação, se não condena a exclusiva taxação do consumo e do salário, e se reclama da nossa “excessiva” carga tributária (menor que a carga de qualquer país desenvolvido), então é óbvio que tal indivíduo está assumindo posições tipicamente de direita.

  E por aí vai. Multiplicam-se os exemplos concretos que dividem progressistas e conservadores, esquerdistas e direitistas, como são os casos ainda da reforma urbana, da reforma política, da distribuição de renda, do papel dos movimentos sociais, da demarcação de terras indígenas, das terras quilombolas etc. Enfim, seria muito exaustivo enumerá-los todos aqui.

    Esses poucos exemplos concretos, levantados ao acaso, são já tão esclarecedores que não deixam lugar, sequer, para dúvidas hamletianas do tipo “ser ou não ser” de direita ou de esquerda.

   Em suma, se o indivíduo for contra a redução da maioridade penal, contra a terceirização dos trabalhadores, contra as políticas neoliberais, contra o monopólio da mídia empresarial, contra o sistema tributário iníquo, a favor da política de cotas e a favor da reforma agrária, então, não há dúvida de que as suas opiniões transitam pelo campo das bandeiras e reivindicações típicas da esquerda.

    Mas, ao contrário, se ele admite a extensão da maioridade penal para os adolescentes, se justifica a terceirização do trabalho que se assemelha à servidão humana, se é contra as políticas de cotas, se concorda com o receituário neoliberal, se admite como normal a concentração do poder da mídia, se resiste à reforma agrária, e se defende o nosso sistema tributário regressivo, desculpem, mas esse indivíduo é claramente de direita, e talvez nem o saiba.

    O importante é perceber que, na prática (e não apenas na gramática), as diferenças entre as reivindicações, os posicionamentos e as bandeiras políticas da direita e da esquerda são reais, são palpáveis e produzem consequências realmente concretas. Quer dizer, essas diferenças políticas não dependem da nossa opinião acerca da atualidade ou obsolescência das categorias esquerda e direita, elas são diferenças concretas que simplesmente existem e pronto – queiramos ou não.

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 Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

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3 respostas para Direita ou esquerda: ser ou não ser

  1. Lineu disse:

    Dr Beto Machado,além de “a terceirização do trabalho em atividades fins, sob o argumento de que isso representa menos direitos para o trabalhador ” posso testemunhar que além disso é um retrocesso quando um funcionário se candidata.
    Exemplo da ASSEME de Taiaçu ,que diziam ser uma empresa terceira mas que em toda sua história fez um único evento (Porco no rolete em 2011 ) e que deu prejuízo, fez só pra cumprir uma exigência do tribunal de contas de que até naquela data sobreviveu graças ao repasse de 100% das verbas da prefeitura.Então ,era uma empresa “tipo assim ” ,terceirizada mas com 100% das verbas da prefeitura e por muitas vezes a esposa do prefeito ou o marido da prefeita é quem ditava ordens .
    Outro ponto que passa despercebido é o afastamento para eleição em que em 2004 a candidata vice do prefeito Caldeira ,trabalhava na ASSEME ,recebia um salario altíssimo ,não se afastou e ainda fazia visitas domiciliares “pedindo voto ” usando a ambulância e o motorista.
    Já o Miki e um tal de Lineu foram demitidos !
    O PT nunca pode !

  2. Camila disse:

    Antônio, eu estava fazendo uma pesquisa no google sobre os discursos esquerdistas e apareceu o link para acessar seu texto. Resolvi ler, pois me interessei pelo título “Direita ou esquerda: ser ou não ser”. À primeira impressão, eu pensei que seria um texto discorrendo sobre as duas correntes políticas de forma a levar quem lê a fazer uma escolha. No decorrer da leitura ficou claro que você é de esquerda. E a intenção do texto era dar “dicas” para que o leitor pudesse se identificar a qual corrente pertence. Pois bem, desculpe-me, mas achei o texto bem (como posso dizer para não parecer indelicada?) “sem vergonha”, no sentido de mascarar/tapear o leitor quando fez menção ao que é ser de direita. Você escreve “se justifica a terceirização do trabalho que se assemelha à servidão humana”, isso é visão sua, logo de esquerda. Para não falar de outros pontos gravíssimos citados no texto, que atacam visões de direita de forma preconceituosa e se apoiando em justificativas impregnadas de ideologia marxista. O texto é escrito de tal forma, que aquele que se posiciona de direita, parece um racista, um intolerante e ganancioso. A pessoa, que tenha um senso crítico menos sensível e não seja uma conhecedora de história, cai nesse conto do vigário e chega a se sentir mal caso se identifique com algum pensamento de direita, tão marxistas são as acusações que você se utiliza para condenar a direita. Porque, cá para nós, seu texto até tenta parecer desses politicamente corretos e neutros, mas eu e você sabemos que não é. E que fique claro, que não estou aqui querendo atacar seu direito de ser um esquerdista e defender sua ideologia, mas por favor, não venha denegrir com mentiras tendenciosas a direita para tentar tonar a esquerda mais bela e sedutora.
    Deixo algo para refletir: todos os países do mundo, que desde os anos 2000 tiveram em seus governos partidos de orientação esquerda, estão hoje em crise econômica, com dívidas estratosféricas e rendidos nas mãos de banqueiros internacionais.

    • Prezada Camila,

      Agradeço a leitura e a intervenção no Blog. Espero contar com outras intervenções.

      Como você mesma disse, fica claro no post que a minha visão é realmente de esquerda. Assim, ao contrário do que você disse em seguida, o texto não tem mesmo a intenção de ser “neutro” (isso é impossível) nem de iludir ninguém.

      Quanto aos exemplos acerca do que é “ser de direita ou ser de esquerda”, elencados no post, será muito difícil negar que eles compõem as pautas típicas dessas duas correntes político-ideológicas. É só conferir na prática o que defendem uma e outra. Não se trata, portanto, de argumentos meus nem de simples “acusações” preconceituosas – é a realidade da luta política.

      Que o texto está “impregnado” de ideologia marxista, isso pode ser, mas eu não usaria o termo “impregnado”, e sim, “influenciado” pelo marxismo. E daí, qual o problema? Não existe nenhum texto politicamente neutro ou “desideologizado”.

      Por fim, aproveitando o seu “senso crítico”, e os seus “conhecimentos de história” deixo-lhe também “algo para refletir” sobre a crise econômica e a dívida dos países que tiveram em seus governos “orientação de esquerda”: a atual crise econômica atinge as maiores potências econômicas do mundo, que não tiveram orientação de esquerda, como, por exemplo, os EUA, o Japão, o Canadá e a União Europeia; e sobre a dívida dos países em geral, seria interessante averiguar também o montante da dívida dos EUA, que é uma das maiores dívidas do planeta, e só não asfixia a economia norte-americana porque os EUA ainda têm a liderança de Bretton Woods, o poder militar e os “dividendos” do seu imperialismo.

      Sobre suas impressões de que o texto é “sem-vergonha”, “tapeador” ou “conto-de-vigário” – descontada a violência verbal – confesso que não consigo entender sua contradição ao dizer que o autor deixa claro sua posição política de esquerda e ao mesmo tempo tenta parecer “neutro” ou “politicamente correto” – é uma coisa ou outra: se o texto deixou claro a posição política do autor é porque este não tentou “tapear” ninguém.

      De qualquer forma, cumprimento-a pela disposição para o debate.

      Antônio Alberto Machado

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