Freud, um grande economista

     A ECONOMIA, todos sabem, é um ramo das chamadas “ciências humanas ou sociais”. Isso quer dizer que ela não pertence ao campo das “ciências exatas” e, portanto, não se pode esperar dos conhecimentos econômicos a certeza e a exatidão das matemáticas nem da física, e nem mesmo da lógica. Há muitas teorias e correntes econômicas, como, por exemplo, a teoria clássica, a neoclássica, a marxista, a ortodoxia neoliberal etc., que propiciam, naturalmente, metodologias e conclusões diversas sobre um mesmo fenômeno ou realidade econômica.

    É por isso que as análises, e sobretudo as previsões de economistas, devem ser recebidas sempre com cautela, com disposição crítica, com certa reserva (já ia dizendo com desconfiança) e não como verdades absolutas. Mas, o diabo é que os economistas estão sempre exibindo números, cálculos e estatísticas pretensamente exatos. Com isso, acabam passando a impressão de que os seus conhecimentos, e as suas predições, atingem graus de certeza e confiabilidade equiparáveis às operações matemáticas.

    Puro engano. Um psicólogo e professor da Universidade da Pensilvânia (Phlilip Tetlock), analisando 28 mil previsões feitas por 284 analistas (inclusive analistas econômicos), ao longo de 20 anos, demonstrou que o nível de acerto de suas conclusões variava entre 12% e 15%, ou seja, um resultado idêntico àquele que o simples acaso seria capaz de produzir.

    Nesse mesmo sentido, o historiador canadense Dan Gardner escreveu um livro com o sugestivo nome de Balbucio sobre o futuro (Future babble) onde conclui que o “cérebro humano não está projetado para conceber o acaso como possibilidade, pois somos viciados em certezas“, diz ele. Dessa forma, prossegue o historiador e jornalista canadense, “em tempos marcados pelas incertezas” o mundo acaba mesmo “recheado de futurólogos”.

    Agora, imaginemos o grau de acerto das análises, das previsões e da futurologia dos economistas midiáticos, dos jornalistas metidos a economistas e dos economistas da banca sobre a realidade atual e o futuro da economia brasileira! Só poderiam ser mesmo previsões catastróficas ou pessimistas, especialmente depois que a nossa política macroeconômica deu uma guinada produtivista no governo Dilma e contrariou os interesses do rentismo financeiro.

    Mas, há uma coisa surpreendente sobre o conhecimento e as ciências econômicas que poucos imaginam. A mídia nativa “descobriu” nos últimos tempos que o desempenho de uma das maiores economias do mundo como a brasileira (7ª ou 6ª maior do planeta) depende apenas do “bom humor”, da “confiança”, da “autoconfiança” e até da “autoestima” dos empresários e investidores, bem como do “temperamento pessoal”, da “simpatia”, da “teimosia”, da “arrogância” ou da “humildade” de um presidente da república.

    Se for assim, se forem esses os ingredientes que definem o sucesso ou o fracasso de uma economia tão grande como a nossa, então acho que a Academia Real da Suécia deveria conceder um prêmio nobel de ciências econômicas, ainda que post mortem, ao pai da psicanálise, Sigmund Freud, pois parece que os grandes empresários e investidores no Brasil andam tão carentes, tão mal-humorados, tão depressivos (ou tão mimados) que o melhor mesmo seria encaminhá-los todos para um bom divã a fim de evitar-lhes o agravamento da depressão!

    E junto com os empresários e investidores brasileiros (e os estrangeiros que andam por aqui investindo) talvez fosse o caso também de encaminhar para esse mesmo divã os seus serviçais “analistas econômicos”, sobretudo, depois que o psicólogo Philip Tetlock e o historiador Dan Gardner demonstraram que as previsões de tais analistas não passam de puro acaso ou puro exercício de futurologia, muito semelhantes à atividade de “um macaco jogando dardo”.

    É possível que a “confiança”, a “autoconfiança” e, sobretudo, a “autoestima” também dos profetas neoliberais que frequentam diariamente as folhas e as mídias, estejam muito abaladas nos últimos tempos, tamanhos os delírios, os rancores, o catastrofismo, as mentiras e miragens que produzem repetitivamente nas suas “análises”- e todos eles (possivelmente muito bem pagos) com aquela conhecida pose de cientistas políticos e econômicos, donos da verdade.

    É realmente cansativo ler e ouvir todo santo dia que o obstáculo ao crescimento econômico do Brasil seria o “intervencionismo do governo e o desajuste fiscal”. Mas, pergunta-se, que intervencionismo é esse, se estamos numa economia de livre mercado e de livre iniciativa privada? A qual intervencionismo se referem os analistas de plantão, se não vivemos numa economia planejada e quem produz, quem compra, quem vende e quem define preços livremente no mercado são os agentes privados e não o governo? E não me venham dizer que foi a regulação das tarifas da gasolina e do óleo diesel que quebrou uma das maiores e mais prósperas economias do mundo, hein?!

    O “desajuste fiscal”, da mesma forma, tornou-se um chavão. Mas, como é que o reajuste vai agora propiciar o crescimento econômico se ele significa apenas corte de gastos na área social (saúde, educação, moradia, transporte público etc.), exatamente para produzir o tal “superávit primário” que, todos sabemos, destina-se ao pagamento dos juros da banca e da ciranda financeira?

    Nenhum dos “entendidos de aluguel” explica – porque não sabem ou porque não podem dizer -, o que significa esse tal “desequilíbrio das contas” que teria mergulhado o Brasil na atual “crise econômica”. E não me venham de novo com a obviedade simplória de que o “desajuste das contas públicas” resulta da irresponsabilidade de um governo que “gasta mais do que arrecada”, pois essa arrecadação acaba sempre nos cofres da banca, destinada ao pagamento de juros e não aos investimentos que, estes sim, impulsionam a economia.

    Ninguém ignora que há uma retração da atividade econômica no mundo inteiro – e também no Brasil. Mas, qual é a causa dessa onda mundial recessiva? A grande mídia empresarial só sabe atribuir isso tudo ao “intervencionismo do governo brasileiro” e ao “desequilíbrio das contas”. Pode conferir. É um órgão de imprensa copiando ou replicando o outro. É só “economês” e enrolação com artigos e editoriais requentados (ou plagiados) falando sempre a mesma coisa: a culpa é do “intervencionismo do governo e do desajuste fiscal”, sem explicar direito uma coisa nem outra.

    Essa cantilena do “intervencionismo” e do “desequilíbrio das contas” é só um pequeno exemplo do coro orquestrado que se formou na mídia burguesa para desmoralizar a política e a economia brasileira. De fato, nos jornais, nas revistas, nas rádios e televisões os “entendidos” só falam em “crise econômica”, “crise de credibilidade”, “crise de governabilidade”, “crise política”, “crise cambial”, “crise do equilíbrio fiscal ou das contas públicas”, e muitas outras coisas do gênero.

    É crise que não acaba mais!

    A continuar assim, com tanta crise, com tanto mau humor, insegurança, pessimismo e baixa autoestima dos agentes econômicos, ainda acabaremos contraindo alguma espécie de “síndrome do pânico”. E nesse caso, o jeito será mesmo abandonar de vez Adão Smith, Davi Ricardo, Carlos Marx, Milton Friedman, João Maynard Keynes e convocar o velho Freud para cuidar da nossa economia e da saúde psicológica de muitos dos nossos festejados “economistas”.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

 

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Uma resposta para Freud, um grande economista

  1. Beatriz disse:

    Verdade! A mídia no Brasil manipula as diversas classes sociais ! Somente um percentual mínimo consegue ler nas entrelinhas das notícias
    A população desinformada e despolitizada, aceita todo tipo de informação, alterando até o humor e a visão da realidade! Acho que Freud não daria conta dessa bagunça generalizada!
    Mas fico com a frase de “Gandhi -” Não deixarei que pisem na minha mente com seus pés sujos”!
    Prefiro ficar com minha intuição e meu princípios que tendem pela grande maioria da população,pela justiça social e econômica! Abs!

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