Ódio político

             O ÚNICO partido que suscita amor e ódio no campo político e ideológico é o Partido dos Trabalhadores (PT), mais ou menos naquela base do “quem gosta, gosta, quem não gosta, odeia”. Percepções e sentimentos assim quase sempre são determinados por estereótipos e preconceitos que o senso comum, de maneira acrítica e sutil, costuma disseminar por entre as massas e multidões. Mas, qual seria ou quais seriam as causas desse ódio político que ultimamente anda tão atiçado no país contra o PT e os petistas?

              A primeira tentação é dizer que o PT instalou e aprofundou a corrupção no Brasil. Assim, o partido que chegou ao palácio do Planalto com o discurso da ética e da moralidade política teria enganado o povo e mergulhou na roubalheira, com pagamento de propinas, utilização de caixa dois, barganha de cargos para obtenção de apoio parlamentar, desvio de dinheiro, e tudo o mais que corre por aí – na mídia e na boca do povo.

               Esse argumento é até meio hipócrita e não explica de jeito nenhum o tal “ódio ao petismo”. Os outros partidos da direita sempre fizeram e continuam fazendo tudo isso e muito mais. Sempre pregaram a ética e a honestidade, mas nunca sequer investigaram nem puniram a corrupção, sempre engavetaram inquéritos e CPIs, sempre barganharam cargos e ministérios, sempre foram financiados pelas oligarquias mais arcaicas e, que eu saiba, nunca mereceram o ódio político que boa parte da sociedade brasileira devota apenas ao Partido dos Trabalhadores.

               Os cientistas políticos, os próprios políticos, os sociólogos, os antropólogos e até os “entendidos” e “desentendidos” de todo gênero bem que poderiam tentar alguma explicação para esse fenômeno! Mas, eles andam de bico-calado, e quase  nunca tocam nesse assunto do ódio político e de classe que se alastrou pelo país desde algum tempo – o O ódio ao PT é um problema do PT, e pronto.

             Pois não é que foi justamente um tucano (ou ex-tucano, não sei) quem resolveu “abrir o bico” publicamente sobre essa questão? De fato, numa entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo no último domingo (1.3.15), o economista e ex-ministro de FHC, o insuspeito Luiz Carlos Bresser-Pereira, disse sem meias palavras: “O ódio ao PT decorre do fato de que o governo revelou uma preferência pelos trabalhadores e pelos pobres”.

             Segundo Bresser-Pereira, o ódio da burguesia (e naturalmente também da pequena burguesia), está no fato de que o PT faz um governo de esquerda, manteve-se na esquerda e resolveu “defender os pobres”. Isso tudo, ainda segundo o ex-ministro tucano, “fez surgir um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, contra um partido e uma presidente”. Por fim, concluiu o intelectual que conhece muito bem o ninho tucano da direita: “Não é simples preocupação ou medo, é ódio”.

                Fácil perceber que esse ódio do “andar-de-cima”, como era de se esperar, sempre contou com uma perniciosa ressonância na mídia burguesa, entrou pelo imaginário da classe média, que inveja e adora imitar a alta burguesia, chegando até mesmo a algumas parcelas das camadas inferiores da população pois, afinal, como dizia o Tim Maia com sarcasmo e ironia, o Brasil é um país tão contraditório que tem até “traficante viciado” e “pobre de direita”.

             Mas, além do preconceito de classe e da ação midiática que desinformam as massas, que preparam cenários para golpes políticos, que fazem oposição partidária cotidianamente, disseminando o ódio político e social, devemos levar em conta que há uma espécie de “Brasil-profundo”, igualmente responsável pelo preconceito e pelo ódio contra os pobres, contra a classe trabalhadora e contra todos aqueles que se metem a defendê-los.

                Um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil, o professor José de Souza Martins da USP, sustenta que existem “estruturas sociais profundas”, imperceptíveis a “olho nu”, que determinam comportamentos e ações individuais e coletivas. Há, portanto, estruturas sociais subterrâneas que jazem na formação histórica de um povo, tão profundamente arraigadas, que são capazes de determinar o caráter, os comportamentos e as atitudes até mesmo das gerações futuras.

               Logo, talvez fosse o caso de refletirmos também sobre o nosso passado colonial e escravagista, com toda sua carga de preconceito e ódio contra os marginalizados, a ver se esse passado não seria o grande responsável pelo ódio político e social que muitos ainda nutrem contra os pobres, contra os trabalhadores, contra os sindicatos de trabalhadores e contra os partidos políticos que os representam. Nesse sentido, parece que a metáfora da “Casa-Grande e Senzala”, e a dos “Sobrados e Mocambos”, imaginadas pelo sociólogo Gilberto Freyre para explicar as desigualdades e a rígida “hierarquização social” no Brasil de ontem, ainda continuam bastantes atuais no Brasil de hoje.

             Bem sei que essas explicações são coisas para especialistas, sociólogos, cientistas políticos, antropólogos, “entendidos” e “desentendidos” de todo naipe. Mas, como a maioria deles não o fazem, não explicam nada, e muitos deles são até bem pagos para não fazê-lo, ou para disfarçar a realidade, às vezes a gente acaba caindo nessa tentação (ou no direito) de procurar as explicações que muitos tentam esconder.

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