Desigualdade fatal

          O JOVEM economista francês, Thomas Piketti, publicou há pouco tempo um livro intitulado O capital no século XXI (Le capital au XXIe siècle) em que constata e discute a desigualdade crescente nas sociedades capitalistas, especificamente nas sociedades de capitalismo avançado. O livro, que já vendeu mais de um milhão de cópias no mundo todo, rendeu grande fama a seu autor, levantou enormes polêmicas, e trouxe algumas revelações que se poderiam qualificar como sombrias, ou talvez fatais.

       Porém, a constatação mais chocante a que chegou Thomas Piketty (realmente assustadora!) diz respeito ao fato de que a concentração de dinheiro, renda e patrimônio no alto da pirâmide social das sociedades capitalistas é tão grande que chega a ser maior do que o próprio crescimento econômico dos países. Quer dizer, a acumulação de bens, dinheiro e capital nas mãos dos ricos é maior que o crescimento dos PIBs dos próprios países capitalistas onde essas riquezas são produzidas.

         Se levarmos em conta que as grandes fortunas acumuladas permitem enormes aplicações financeiras, então podemos concluir também que a desigualdade aumenta tanto pela apropriação do lucro no setor produtivo quanto pela acumulação dos juros no mundo financeiro. É por isso que a acumulação de riquezas nas mãos daqueles que se encontram no topo da “pirâmide social” levou Piketty a falar numa “espiral infinita da desigualdade” no capitalismo do século XXI.

           Se tudo isso for verdade, como realmente demonstram os números levantados pelo economista francês, então pode-se dizer que o capitalismo entrou numa “era autofágica”, num estágio autodestrutivo, pois a maior parte de sua produção é “engolida” por uma pequena minoria que, com isso, destrói a capacidade de investimento dos Estados, compromete o próprio crescimento econômico dos países capitalistas e inviabiliza o desenvolvimento social.

             O retorno das desigualdades socioeconômicas nos países desenvolvidos, o aumento da pobreza e da exclusão nesses países, bem como a forte concentração da riqueza nas mãos de poucos – estima-se que apenas 100 famílias detêm mais riqueza do que a metade da população mundial – é um fenômeno que surgiu e acelerou-se desde a década de 80, exatamente quando triunfaram as políticas econômicas neoliberais.

           Analisando especificamente o caso dos Estados Unidos, Thomas Piketty constatou que em 1978 a renda familiar dos norte-americanos mais ricos era de 393 mil , hoje essa renda passa de 1,1 milhão de dólares; constatou ainda que em apenas cinco anos 1% da população captou 90% do crescimento do PIB e 99% dos norte-americanos tiveram de se contentar com os restantes 10% da riqueza produzida.

            O remédio para essa absurda concentração de rendas, diz Piketty, seria a taxação das fortunas maiores e a instituição de um imposto mundial sobre os grandes patrimônios, sobre a herança e sobre os ganhos excessivos de capitais. Mas, o próprio economista francês, de maneira franca e honesta, reconhece que essa sua proposta é bastante utópica, e seria, portanto, de difícil execução.

             Assim, parece que o capitalismo no século XXI continuará mesmo com sua “espiral infinita da desigualdade”, transformando qualquer ideia de “justiça social”, de “distribuição de riquezas” e de “democracia” numa simples quimera – num sonho para poetas e românticos. Mas, pode ser também que essa mesma “espiral da desigualdade”, que já atinge os limites da obscenidade, constitua-se no gérmen da destruição do próprio capitalismo.

          É oportuno lembrar que o economista francês não é nenhum revolucionário. Sua proposta de instituir impostos sobre grandes fortunas e sobre os ganhos estratosféricos do capital não têm a pretensão de destruir o capitalismo, mas apenas de reformá-lo, com o objetivo de tornar as sociedades capitalistas menos injustas, realmente sustentáveis, com uma “face mais humana”.

           O problema é que nem mesmo o professor francês acredita nas possibilidades dos mecanismos que imaginou para reformar o capitalismo. E se o modo de produção capitalista não puder ser reformado, se o destino dele for mesmo o crescimento infinito e persistente da desigualdade, é possível que seu futuro seja algo catastrófico – e olha que ainda nem falamos da desigualdade nos países pobres, nem das guerras, nem da destruição ambiental promovida pelo capitalismo.

             Diante desse cenário sombrio, talvez devêssemos nos fazer também uma indagação igualmente sombria: será que a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais igualitária é algo que se tornará possível somente depois do desastre da modernidade?, será que isso somente será possível a partir dos escombros da sociedade capitalista? Vai saber.

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