O grande erro de Dilma Rousseff

               ALGUÉM acha que o grande erro de Dilma Rousseff, no seu primeiro mandato, foi ter adotado uma política econômica completamente equivocada, tão errada que quase lhe custou a reeleição, e que custaria a todos os brasileiros a tarefa penosa de aturar mais um neoliberal na Presidência da República? A linguagem indecifrável dos economistas e a verborragia serviçal do “jornalismo econômico especializado” (são mesmo de especialistas?) nunca deixou a sociedade ver que “o grande erro de Dilma Rousseff” na condução da economia, o “grande erro” que quase leva mais um bon-vivant mimado e incompetente ao Palácio do Planalto, ocorreu na verdade entre outubro de 2012 e abril de 2013.

         Foi nesse período, portanto, dois anos antes das eleições, que Dilma Rousseff cometeu o “erro” de trazer a taxa básica de juros (Selic) para o patamar incrível de 7,25%. Com isso, arrumou uma enorme briga com o rentismo (interno e externo) e acabou, como era de se esperar, duramente atacada (e até difamada) pelos lacaios do capital financeiro – uns entocaiados na academia outros na imprensa. É fácil entender. Hoje o crescimento econômico (inclusive nos EUA, Japão e União Europeia) continua patinhando entre zero e 2% enquanto que as aplicações financeiras, isto é, as operações feitas de papéis no mundo das finanças, têm rendimento superior a 6% ao ano.

         É por isso que o setor produtivo definha na mesma medida em que cresce o insaciável capital financeiro!

              Ou alguém é tolo a ponto de imaginar que as empresas continuarão investindo na produção, para ganhar entre zero e 2% ao ano, deixando de investir na ciranda financeira onde, sem fazer e sem produzir absolutamente nada, pode-se obter rendimentos superiores a 6% anuais? É exatamente por isso que o setor produtivo da economia mundial migrou dos EUA e da Europa para a Ásia, pois os capitalistas americanos e europeus parecem preferir aplicar o seu “rico dinheirinho” nos países que lhes pagam juros mais altos, como é o caso do Brasil.

           Pois então, a presidenta Dilma foi mexer exatamente nesse vespeiro e em 2012/2013 teve a ousadia de “peitar” o rentismo nacional e internacional baixando a taxa Selic para “míseros” 7,25%. Foi aí que ela quase perdeu a eleição, pois deixava claro que não estava disposta a encher as burras da especulação financeira, preferindo fazer investimentos que estimulassem o setor produtivo nacional; foi com isso que ela arrumou um monte de adversários na política, na academia, nos setores do capital especulativo e nos meios de comunicação de massas.

           Só para permitir uma comparação, deve-se lembrar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a praticar juros de 46% ao ano e entregou seu governo em 2002 com uma taxa Selic superior a 19%, ou seja, uma taxa quase três vezes maior do que os 7,25% que a presidenta Dilma Rousseff tentou praticar entre outubro de 2012 e abril de 2013. Para se ter uma ideia do tamanho dessa briga, bastaria lembrar que 45% da receita pública são destinados ao pagamento de juros a dívida pública interna e externa – serviço da dívida. E mais de 70% dos juros pagos na ciranda financeira interna, como já demonstrou o economista Marcos Pochmann da Unicamp, vão para as contas de apenas 20 mil famílias no país – aí incluídos os bancos e os fundos de investimento.

           O presidente Lula da Silva, para eleger-se em 2001, fez uma espécie de “pacto de classes” reunindo o setor industrial produtivo (representado por seu vice José Alencar), o setor do rentismo financeiro (muito bem representado pelo então presidente do Banco Central Henrique Meirelles), o agronegócio (representado pelo então Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues) e a classe trabalhadora (creio que representada pelo próprio Presidente da República). Esse pacto deu sustentabilidade política ao presidente para fazer as reformas que fez, mas deu também muito dinheiro à mal agradecida burguesia nacional e estrangeira.

           Assim, quando a presidenta Dilma Rousseff inventou de “peitar” o rentismo nacional e internacional, baixando significativamente a taxa de juros que o país pagava aos financistas nacionais e estrangeiros, foi um deus nos acuda. A burguesia financeira e seus serviçais entenderam que a presidenta estava rompendo o tal “pacto de classes” feito por Lula, exatamente esse pacto que tanto dinheiro rendeu aos bancos e aos fundos de investimento.

               E foi a partir daí que o massacre começou. Dilma Rousseff (nem o próprio Lula) já não desfrutava mais da confiança do capital financeiro. As folhas e as mídias encheram a cabeça dos brasileiros com baboseiras, repetindo aquelas maluquices do tal “tripé econômico”, que exige superávit primário a todo custo para “honrar o serviço da dívida pública”, quer dizer, para garantir que o capital financeiro, que não produz nada, continue sendo muito bem remunerado.

              E mesmo às vésperas da eleição de 2014 a presidenta Dilma Rousseff ainda teve de “pegar o Banco Santander pelos cornos”, exigindo que essa instituição espanhola se retratasse diante do comunicado que emitiu a seus principais rentistas e por meio do qual alertava, levianamente, que uma eventual vitória da candidata do PT implicaria um cenário econômico incerto, com elevação do dólar e queda nas bolsas de valores. Agora andam aí festejando o novo Ministro da Fazenda, autêntico representante do rentismo e dos banqueiros; andam por aí exigindo a “correção dos rumos da economia”; andam falando a todo momento em “equilíbrio e transparência das contas públicas”; enfim, andam querendo que a presidenta da república não se desvie nem um milímetro daquele “pacto de classes” celebrado por Lula em seu primeiro mandato.

          E o pior é que a imprensa não informa claramente os brasileiros sobre essas questões. O que ela faz é pura propaganda e defesa dos próprios interesses e dos interesses daqueles que a financiam. Mas, o pior mesmo é ver muitos brasileiros bem-intencionados (e bem distraídos) repetindo essas panaceias neoliberais de “superávit primário”, “equilíbrio fiscal”, “contenção dos gastos públicos”, “metas de inflação” etc., sem saber que tudo isso, no final das contas, é para encher ainda mais os cofres da banca.

              O grande erro da Dilma, companheiro, foi adotar uma política macroeconômica de apoio ao capital produtivo em tempos de hegemonia do capital financeiro; incentivar a burguesia produtiva num momento em que predominam os interesses da burguesia rentista; promover um desenvolvimento nacionalista numa economia profundamente desnacionalizada.

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