Por detrás do petrolão

    NEM é preciso dizer que a corrupção na Petrobras deve ser investigada, apurada rigorosamente e punida nos termos da lei. Afinal, trata-se da maior empresa nacional, um patrimônio valiosíssimo do povo brasileiro desde os tempos de Getúlio Vargas, que a fundou em 1953 para explorar com exclusividade uma das nossas grandes riquezas naturais – o petróleo.

     O lema que na época embalou a criação da Petrobras foi: “o petróleo é nosso”. Pelo seu conteúdo evidentemente nacionalista é fácil perceber que esse lema encerra a ideia de que o petróleo deve ser explorado em benefício exclusivo do povo e do Estado brasileiros. E foi assim até 1997, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quebrou o monopólio estatal do petróleo e abriu a Petrobras à participação da iniciativa privada.

  Assim que o senhor Fernando Henrique Cardoso, um dos presidentes mais controvertidos da nossa história recente, preparava-se para privatizar a Petrobras e, para tanto, já projetava até mudar-lhe o nome para “Petrobrax”, houve uma forte reação dos movimentos sociais, de vários partidos políticos e dos próprios funcionários da estatal exigindo que o Governo brasileiro continuasse como acionista majoritário da empresa que então passou a ser uma empresa de capital aberto ou de economia mista.

     Agora, a Petrobras se vê vítima de corrupção. E parece que isso não é de hoje – nem de ontem. Há quem assegure que a corrupção na estatal vem desde os tempos da ditadura militar e atravessou os governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Mas, não importa saber agora quando essa corrupção começou, o que importa é saber quando (e como) ela vai acabar.

      As investigações têm andado a todo vapor no âmbito da Polícia Federal com a chamada “operação Lava Jato”. E a grande novidade nessa operação é que não só os corruptos, mas, também os corruptores estão sendo identificados e levados ao banco dos réus. A mídia brasileira tem insistido diariamente sobre a necessidade de punir os corruptos e os corruptores a fim de que se possa promover um profundo “saneamento” da nossa maior empresa estatal.

     Mas, a mídia empresarial tem martelado tanto nessa tecla da corrupção e do imediato saneamento da empresa, e tem excitado tanto o povo brasileiro com esse discurso moralista, que a coisa começa a ficar meio esquisita, pois essa mídia (que até já apoiou golpe militar e ditadura) nunca foi, por assim dizer, um grande exemplo de jornalismo ético nem de retidão moral.

     Por isso, muita gente começa a desconfiar dessa “moralização” feita na marra. Ninguém discute que há corrupção na Petrobras e que os corruptos devem ser investigados e punidos. O que se discute é essa insistente “cruzada moral” da mídia com os seus serviçais cheios de “fome de justiça”, cheios de “exigências éticas” e até de um indisfarçável “desejo de vingança”.

    Os brasileiros precisam ficar espertos, pois, atrás desse discurso moralista do “petrolão”, podem esconder-se alguns objetivos, bem ocultos, que a mídia nacional jamais confessará, como, por exemplo: 1) a estratégia política de vincular a corrupção apenas ao Partido dos Trabalhadores; 2) o desencadeamento de uma campanha desmoralizadora da empresa visando a privatização da Petrobras; 3) e a tática de retirar da estatal brasileira o controle sobre a exploração do pré-sal que deixou de fora várias petroleiras norte-americanas.

    Quem pensa que isso é apenas paranoia ou pura “teoria da conspiração” deveria ficar mais esperto ainda, pois os lacaios das petroleiras multinacionais já andam “plantando” por aí, nas folhas e nas mídias, ideias tais como: (a) “a era do petróleo vai acabar antes do petróleo”, (b) o petróleo é caro e é uma fonte de “energia suja”, (c) existem outras fontes “mais limpas e mais baratas”, (d) a tecnologia da Petrobras não é suficiente para explorar o petróleo do pré-sal em águas profundas, e (e) toda essa roubalheira está acontecendo porque a Petrobras “ainda” é uma empresa pública, e por aí vai.

     Como naquela conhecida fábula da raposa: “quem desdenha quer comprar”. Tem muita gente de olho no nosso petróleo, sobretudo, depois da descoberta do pré-sal. E tem muita gente cobiçando a Petrobras que é, como todos sabem, uma das três maiores petroleiras do mundo em termos de faturamento, com lucros superiores a 20 bilhões de reais por ano, atua em mais de 20 países e tem uma produção diária de 2 milhões de barris de petróleo e derivados.

      O problema é que o discurso moralista que tem sido feito pela mídia empresarial pega mais do que praga de urubu! De repente, sem nem perceber direito, tá todo mundo levando água para o moinho dos brasileiros que não têm compromisso com o patrimônio nacional, e dos estrangeiros que desejam apropriar-se das nossas riquezas naturais, das nossas empresas públicas, da nossa tecnologia, do suor e da conquista dos nossos trabalhadores.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

 

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4 respostas para Por detrás do petrolão

  1. Lineu disse:

    muito bom o texto ,sem contar que os gringos querem sabem “como” é a perfuração do préssal . A midia neste país continua fraca .

  2. Ana Luiza de Oliveira disse:

    Professor, muito bom o texto como sempre: claro, acessível e muito didático. Gostaria de compartilhar tb o link de um texto do professor Armando Boito da Unicamp, não sei se os leitores já tiveram acesso a ele e se o senhor concorda com ele integralmente, de qq maneira achei bem interessante e oportuno ao tema. Abs. http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/geral/armando-boito-quem-e-contra-corrupcao-de-verdade/

    • Prezada Ana Luiza,

      Agradeço seu comentário e o compartilhamento do texto do professor Armando Boito, cuja análise é de uma lucidez impressionante (e imprescindível).

      Abraço, Machado

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