As razões do antipetismo

            SOUBE, pelas folhas e pelas mídias, que o Partido dos Trabalhadores encomendou uma pesquisa para identificar os motivos ou as causas do antipetismo. Pretende entender a grande rejeição que o partido tem experimentado nos últimos tempos, e uma rejeição que muitas vezes vem acompanhada de ódio, de comentários rancorosos e de referências claramente preconceituosas.

             Não há dúvida que, nesse caso, uma “pesquisa de campo” poderá auxiliar bastante no levantamento dos motivos pelos quais significativa parcela da população brasileira rejeita fortemente o PT. Mas, seja lá qual for o resultado dessa tal pesquisa, não é muito difícil perceber algumas razões do antipetismo, umas até bastante óbvias, independentemente do que disserem os pesquisados.

       É certo que episódios envolvendo corrupção política, como foi esse caso do “mensalão”, têm um forte conteúdo moral e contribuíram poderosamente para aumentar a rejeição ao PT. Mas, esses fatos são muito recentes e não explicam o antipetismo, que é um fenômeno antigo, algo que já se manifestava desde a década de 1980 quando o Partido dos Trabalhadores foi fundado com apoio popular, com a adesão de boa parte da intelectualidade de esquerda e com bases fincadas no “novo sindicalismo”.

       Para além de qualquer pesquisa, parece que há pelo menos quatro motivos fundamentais, mais ou menos evidentes, que ajudam a explicar a tão polêmica rejeição ao Partidos dos Trabalhadores. São eles: a) o nosso histórico elitismo político; b) o preconceito burguês (e pequeno-burguês) em relação ao mundo do trabalho; c) a intensa propaganda realizada sem trégua pela mídia burguesa contra o PT; e d) a proposta utópico-transformadora da sociedade sustentada pelo partido.

           O elitismo político brasileiro, desde os tempos coloniais e até mesmo após a fundação da república (a chamada “república da espada”), com forte contribuição do escravismo, sempre disseminou a ideia de que a democracia é o governo dos melhores (meritocracia), e os melhores estariam naturalmente no seio das classes sociais mais altas, as classes mais bem preparadas culturalmente para dirigir o país – jamais entre os simples obreiros das classes inferiores, geralmente pessoas sem cultura e sem preparo nenhum para assumir postos políticos importantes, pois o destino histórico dos trabalhadores sempre foi mesmo a realização das tarefas e funções mais modestas, servindo resignadamente às classes de cima.

             O preconceito contra a agremiação política que representa os trabalhadores e as trabalhadoras do Brasil está intimamente ligado ao “elitismo político”. De fato, segundo a ideologia inculcada pelas elites nativas, a classe proletária deve ocupar-se tão somente dos trabalhos subalternos, notadamente os trabalhos braçais ou técnicos que não exigem grande aperfeiçoamento intelectual. Assim, a classe trabalhadora, limitada à produção da mão de obra, não consegue produzir quadros com a qualificação cultural e com a competência político-administrativa necessárias àqueles que devem conduzir os destinos do país.

            A propaganda da imprensa empresarial contra o Partidos dos Trabalhadores é talvez a mais fulgurante evidência de que a luta de classes, ao contrário do que dizem os “puros” e os cínicos, ainda não morreu. Com efeito, mais de 95% dos veículos de comunicação de massa estão hoje nas mãos da burguesia e de seus lacaios, que fazem uma campanha ininterrupta contra os representantes políticos da classe trabalhadora, promovendo a sistemática “desmoralização” daqueles trabalhadores que têm a “ousadia” – quase criminosa -, de almejar a direção política da sociedade brasileira.

                Por fim, uma dos mais fortes motivos do antipetismo está no próprio programa do PT, que propõe políticas de transformação da sociedade, bem como a defesa de alguns valores do socialismo. É claro que propostas de mudança social e política sempre geram paixão e ódio! Os partidos da ordem, que jamais propõem transformações estruturais, tendem a ser vistos como partidos “mais realistas”, “mais sensatos”, “menos perigosos”. Já os partidos (como o PT) que têm propostas de transformações socioeconômicas de base (distribuição de renda, distribuição de terra, melhoria dos salários, efetivação dos direitos humanos, etc.) são estigmatizados como partidos “utópicos” ou “muito radicais”, por isso, são partidos que provocam naturalmente a reação/rejeição das camadas mais conservadoras da sociedade.

              Como se vê, não é preciso ir muito longe para entender o sentimento antipetista que é um sentimento tão velho quanto o PT. Quer dizer, “elitismo”, “preconceito”, “propaganda” e “conservadorismo” políticos parecem estar de fato entre as causas fundamentais do antipetismo, cujo fenômeno acabou recrudescendo nos últimos tempos, até mesmo por culpa do próprio partido que se rendeu à realpolitik.

       Agora, se quiser sobreviver como autêntica representação política da classe trabalhadora, o PT precisa retomar suas antigas bandeiras e rever suas atuais alianças. Mas, nada disso evitará o antipetismo, nem as reações políticas conservadoras, preconceituosas e elitistas. Esses problemas, na verdade, residem nas estruturas mais profundas e na formação mais arcaica da sociedade brasileira, escravista e colonizada – não são propriamente problemas “do” Partido dos Trabalhadores.

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