Pois é, com o PT é diferente

     SÃO ANTIGAS as notícias de roubalheira na Petrobras, desde o governo Sarney. Há até um conhecido jornalista (Ricardo Boechat) que ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo pelas denúncias que fez em 1989 sobre os desvios que então ocorriam na petroleira nacional, e que seguiram ocorrendo nos governos posteriores. Mas, esses problemas eram tratados apenas como “problemas empresariais”, daqueles que deveriam ser resolvidos pelo próprio presidente da empresa e não pelo presidente da república que o nomeou.

     Com o PT é diferente. A mesma roubalheira é considerada agora um “problema político” e não apenas uma questão empresarial. Um problema, portanto, que extrapola a alçada administrativa da presidenta da Petrobras e passa a ser uma responsabilidade da presidenta da república, e uma responsabilidade tão direta e tão grave que justificaria até mesmo o impeachment imediato da ocupante do Planalto por causa do “petrolão”.

    Nos governos anteriores houve denúncias sistemáticas, feitas diariamente pela imprensa, noticiando a existência de “mensalões” para a compra da reeleição do presidente FHC, bem como para o arquivamento das CPIs da “privataria tucana”. Aliás, os então deputados Ronivon Santiago e João Maia chegaram a confessar que receberam R$ 200 mil um para votar na emenda da reeleição de FHC, a confissão deles foi captada em interceptações telefônicas, mas tudo isso acabou arquivado, sem processo, sem prisões, sem alarde e sem nenhuma revolta dos moralistas.

      Com o PT é diferente. A confissão do obscuro deputado federal Roberto Jefferson, dizendo-se participante de esquema de compra de votos criado pelos petistas no Congresso Nacional deflagrou um dos mais ruidosos processos criminais da história do Supremo Tribunal Federal, pois o Ministério Público, numa única denúncia, processou 40 réus, entre os quais, dezenas de políticos pertencentes à cúpula do Partido dos Trabalhadores, e vários deles acabaram mesmo na prisão.

      O “mensalão tucano”, que criou o esquema de caixa-dois e utilizou dinheiro público na campanha de Eduardo Azeredo em Minas Gerais, está sendo julgado em primeira instância de forma pulverizada por meio de vários processos, alguns crimes já prescreveram, alguns réus já estão livres da acusação, a ação penal jamais chegará a tempo ao STF, e a imprensa brasileira permanece de bico calado diante desse exemplo de impunidade e desprezo pela justiça.

     Com o PT é diferente. No chamado “mensalão petista” o  Procurador-Geral da República denunciou todos os réus num mesmo processo, a ação penal correu todinha em última instância no STF (mesmo para os réus que não tinham foro privilegiado), não se respeitou o princípio do juiz natural, violou-se o princípio do duplo grau de jurisdição, deu-se extensão indevida à “teoria do domínio do fato”, caracterizou-se incorretamente o crime de formação de quadrilha para forçar a aplicação de penas em regime fechado, e a mídia fez um cerco implacável aos ministros da Suprema Corte, exigindo não o julgamento, mas a condenação dos acusados.

      Os jornais dos últimos dias têm revelado que as empreiteiras envolvidas no esquema do “petrolão” fizeram doações milionárias para a campanha de vários partidos, para o partido do governo (PT) e também para o maior partido da oposição (PSDB). E todas essas doações foram declaradas regularmente pelos doadores, contabilizadas pelos respectivos partidos beneficiados, tudo muito certinho, tudo nos termos da lei eleitoral.

     Com o PT é diferente. A imprensa tem noticiado que, segundo o executivo de uma empresa doadora (Toyo Setal), as doações para o Partido dos Trabalhadores, realizadas de acordo com a lei, na verdade eram “propinas”. Quer dizer, aquelas mesmas doações feitas aos demais partidos, declaradas e contabilizadas regularmente por todas as outras agremiações partidárias, eram doações legais, mas, no caso do PT, caracterizavam “propinas” ou dinheiro de “corrupção”.

     A Assembleia Legislativa de São Paulo acabou de aprovar uma lei que permite ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) a instalação de conselhos, a realização de audiências públicas e de consultas populares para viabilizar, democraticamente, a participação social do povo bandeirante nas decisões de governo. E a imprensa noticiou isso naturalmente, sem muito barulho, sem qualquer ressalva ou crítica à decisão dos parlamentares paulistas.

       Com o PT é diferente. Quando a presidenta Dilma Rousseff criou a Política Nacional de Participação Social, instituindo os mesmos conselhos, conferências e consultas populares, visando assegurar a participação democrática do povo brasileiro nas decisões governamentais, a mídia (e as cabeças que ela faz) saiu por aí dizendo que aquilo era uma espécie de “bolivarianismo”, e que a presidenta da república queria mesmo era a “sovietização” do Brasil.

     Todo e qualquer partido político que pretenda chegar ao governo terá necessariamente de explicitar aos eleitores o seu projeto. E qualquer projeto de governo somente poderá ser executado por meio das decisões políticas de poder. O poder é a categoria central da política. Logo, para governar, para assegurar a autoridade e os objetivos do Estado, enfim, para fazer política, é natural que o partido exerça o poder governamental com o fim de tornar efetivas as suas promessas e propostas, pois não há governo sem poder.

     Com o PT é diferente. A mídia (e as cabeças que ela manipula como quer) diz a toda hora que o Partido dos Trabalhadores é uma agremiação perniciosa porque tem “um projeto de poder”, um partido que simplesmente quer o “poder pelo poder”, que adora mandar,  que pretende subjugar a sociedade, e não quer outra coisa senão perpetuar-se no governo e exercitar autoritariamente o poder contra tudo e contra todos.

      Quando um partido qualquer vence uma eleição, seja no âmbito municipal, estadual ou federal, o dirigente eleito, naturalmente, nomeia para os cargos políticos, assessorias e cargos de confiança, obviamente as pessoas de sua confiança natural, isto é, políticos, técnicos e intelectuais alinhados com suas propostas e estratégias, que o apoiam e que lhe dão sustentação político-administrativa. Nenhum dirigente político, depois de vencer as eleições, terá a ingenuidade de cercar-se de pessoas de outros partidos ou de adversários políticos.

     Pois é, com o PT isso também é diferente. Ou seja, se um petista eleito nomeia para os cargos e assessorias políticas alguns de seus correligionários, algum filiado militante do Partido dos Trabalhadores, ou mesmo alguém de sua inteira confiança, o caso é de “aparelhamento do Estado”, ou seja, o dirigente petista está transformando seu governo num “esquema de dominação das instituições estatais” ou num verdadeiro “cabide de emprego para a companheirada”.

     Por que será que essas coisas acontecem com o Partido dos Trabalhadores, hein?! Era muito importante que os “entendidos” explicassem esse fenômeno. Mas, seria mais importante ainda que a sociedade brasileira se mantivesse aberta para entendê-lo, sem se deixar levar pelo “senso comum”, pelo preconceito ou pela propaganda que a mídia empresarial faz cotidianamente contra os seus adversários de classe, isto é, contra a classe trabalhadora e sua representação política.

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