E agora, presidenta?

          A PRESIDENTA reeleita, Dilma Rousseff, decididamente não terá vida fácil no exercício de seu novo mandato. Basta lembrar que já no dia seguinte, imediatamente após a proclamação do resultado do segundo turno, os grandes jornais e as grandes revistas do país estampavam em suas capas e primeiras páginas a seguinte manchete: A bolsa caiu e o dólar subiu. Portanto, o maior partido de oposição ao governo, a mídia empresarial, já está em campanha para 2018.

            Não bastasse, é certo que a presidenta da república terá de governar (e negociar) com um Congresso Nacional muito mais conservador, pouco interessado em mudanças e transformações sociais. De fato, o crescimento da representação dos ruralistas e dos empresários, a ampliação da “bancada da bala”, o aumento dos representantes da frente religiosa (neopentecostal), e a diminuição pela metade da representação sindical indicam que o novo Congresso terá mesmo o perfil mais conservador desde a redemocratização do país.

           A conjuntura econômica internacional está realmente desfavorável, pois caíram muito os preços das commodities (bens primários de exportação), diminuiu o volume de negócios com a China, e as economias dos Estados Unidos e da União Europeia estão claramente estagnadas, oscilando bastante, ou seja, crescem muito pouco num trimestre e acabam despencando no outro.

            Para complicar ainda mais a vida do governo brasileiro, está aí na ordem do dia o chamado “petrolão”. Segundo dizem, as maracutaias na Petrobras poderão trazer sérios problemas de governabilidade para a presidenta Dilma Rousseff, pois as investigações da Polícia Federal apontam para o envolvimento de mais de 70 políticos – e de todos os partidos -, nas falcatruas que atingem a petroleira nacional.

           A mídia conservadora ensaiou uma orquestração para apresentar o escândalo da Petrobras como obra exclusiva do PT, mas parece que já voltou atrás e está um pouco mais cautelosa, pois a Polícia Federal (e também a imprensa da década de 80), revelou que o esquema tem mais de 15 anos, começou no governo Collor/Itamar Franco, passou pela administração de Fernando Henrique Cardoso, entrou pelo governo Lula e chegou até Dilma Rousseff. E é possível até que as relações promíscuas entre o mundo político e as grandes empreiteiras, que enriqueceram muito e rapidamente, venha desde os tempos da construção de Brasília por Juscelino Kubitschek, sem poupar os governos militares.

           Diante desse quadro todo, parece que o trabalho da presidenta reeleita não será mesmo nem um pouco fácil. Neste momento, o país está se perguntando: com tantos problemas e tanta oposição, após uma vitória apertada nas urnas, para onde caminhará o novo governo de Dilma Rousseff? Por enquanto, talvez seja razoável especular acerca de quatro caminhos possíveis para o novo governo. Porém, que ninguém se iluda, todos esses caminhos são muito pedregosos, às vezes íngremes demais, e em alguns casos, sobretudo do ponto de vista político, bastante escorregadios.

           Pois bem, um primeiro caminho seria a presidenta Dilma Rousseff manter tudo como está e prosseguir normalmente com a política econômica do mandato anterior – que não foi o desastre que a mídia empresarial tentou desenhar -, insistindo no seu projeto social-desenvolvimentista de valorização da indústria nacional, de incentivo ao consumo popular e manutenção de aprofundamento das reformas sociais. Mas esse modelo, dizem os “entendidos”, está esgotado, portanto, seria um verdadeiro “suicídio” político continuar caminhando nessa direção.

            Outro caminho seria o novo governo de Dilma Rousseff render-se completamente às exigências do chamado “capitalismo financeiro”. O aumento da taxa básica de juros (Selic) para 11,25% logo após a eleição, o convite para que o presidente do Bradesco ocupe a pasta do Ministério da Fazenda, e o boato de que a presidenta fará imediatamente um ajuste fiscal (corte de gastos sociais) são indícios de que o governo poderia seguir nessa direção. Mas isso contradiz tudo o que Dilma Rousseff disse na campanha, contradiz sua história e tudo o que ela fez (ou tentou fazer) no seu primeiro mandato.

            Um terceiro caminho seria a presidenta acatar as exigências dos movimentos sociais que recusam o modelo neoliberal e exigem reformas estruturais como, por exemplo, o aprofundamento da reforma agrária, a melhoria dos serviços públicos gratuitos, a ampliação da demarcação das terras indígenas, a reforma política, com o aumento da participação popular, e a democratização da mídia. Mas, esse caminho, obviamente, enfrentará a oposição sistemática de um Congresso Nacional conservador, bem como a reação violenta da mídia, também conservadora, que deseja manter intactos os seus poderes travestidos de “liberdade de imprensa”.

            O último caminho seria “correr para o colo do Lula” e manter a governabilidade até as eleições de 2018. Isto é, retomar o “reformismo fraco” (André Singer) do lulismo que combinou suavemente as políticas neoliberais com o crescimento econômico, políticas rentistas com inclusão social. Mas, no tempo de Lula, o contexto econômico mundial era outro e aqueles que garantiram a vitória de Dilma nas urnas (a esquerda, os movimentos sociais e a maior parte das camadas populares) já deram mostras de que o lulismo chegou ao seu limite e, portanto, é preciso aprofundar, não apenas manter, suas conquistas socioeconômicas.

          Eis a encruzilhada em que se meteu a presidenta reeleita: para onde seguir sem contrariar os compromissos de campanha, sem renegar a própria história e sem ameaçar a governabilidade do novo mandato? É esperar… Mas eu arriscaria dizer que Dilma Rousseff, se deixarem, escolherá o último caminho, sinalizado ardilosamente pela própria direita, isto é, acho que a presidenta vai querer preparar, com bastante cautela, um “volta-Lula” para 2018; sem maiores turbulências.

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