O ódio e a pequena política

           O PENSADOR italiano Antonio Gramsci (1891-1937), na sua obra monumental Cadernos do cárcere, fazia a distinção entre o que ele chamava de a “pequena e a grande política”. Para esse pensador, a pequena política seria aquela que trata das questões parciais e cotidianas, questões do dia a dia do poder, dos corredores, das disputas palacianas com suas manobras, espertezas e até mesmo intrigas. Já a “grande política” – que Gramsci chamava também de “alta política” -, é aquela que diz respeito à fundação ou à “reorganização radical do Estado”, ao delineamento estrutural das sociedades, compreendendo ainda todas as formas e as estratégias de “luta pela destruição, pela defesa ou pela conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais”.

              O mesmo Gramsci alertava também para um tipo muito comum de astúcia no campo político, lembrando que sempre haverá aqueles que tentam “excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo à pequena política”. Isto é, sempre haverá aqueles que procuram escamotear as questões fundamentais do Estado, colocando no lugar delas os problemas parciais do cotidiano do poder, as disputas entre “frações da classe política”, com suas manobras e intrigas de corredores.

            Nas democracias de massa, essas tentativas de colocar no centro do debate a “pequena política” é muito comum, e tem sido exatamente essa a estratégia neoliberal neste início de século. De fato, após desmontar completamente o Estado do Welfare State (Estado-assistencial) a partir dos anos de 1980, o neoliberalismo não deseja mais discutir o papel do Estado nem muito menos modificar as “estruturas orgânicas econômico-sociais” que inauguraram o ciclo do capitalismo financeiro (rentista) a partir do final do século XX.

                 Nesta eleição presidencial de 2014 no Brasil é visível como o candidato da direita, que representa os interesses do neoliberalismo, Aécio Neves, insiste nas questões parciais do cotidiano ou do dia a dia da política. E o faz quando, por exemplo, trata como única questão vital o controle da inflação (que está dentro da meta há 11 anos); ou quando insiste num discurso moralista que busca caracterizar o governo de sua opositora como um “mar de lama”. Nesses dois casos, o candidato da direita se limita a apresentar apenas medidas “parciais e cotidianas” de combate ao processo inflacionário – que podem ser até medidas recessivas e muito “amargas” para a classe trabalhadora – ao mesmo tempo em que promete retoricamente fazer um “governo honrado”, como “nunca antes se fez na história deste país”.

             Esse tipo de argumentação obriga a opositora a defender-se também no campo da “pequena política”, sustentando suas decisões tomadas no cotidiano parcial da política econômica de seu governo, bem como a moralidade administrativa de sua atuação como governante, sem poder apresentar satisfatoriamente ao eleitorado as propostas que dizem respeito ao futuro do Estado, às estruturas macroeconômicas da sociedade, ao papel do Estado como provedor de direitos e a sua inserção na ordem internacional; ou seja, sem poder falar da “alta política”.

              Por isso, é muito comum que nas democracias de massa os eleitores sejam levados a julgar os candidatos e fazer suas escolhas com base apenas em critérios relacionados à “pequena política”, completamente distraídos das questões estruturais da “grande política”, que dizem respeito ao modelo de país e à “reorganização radical do Estado”. É também por isso que muitas vezes o eleitorado, nessas democracias representativas indiretas, acaba elegendo candidatos que são estruturalmente contrários a seus próprios interesses – nesse caso, o voto funciona como uma arma voltada contra o próprio eleitor.

              A “pequena política” faz com que o eleitor decida o seu voto baseado apenas em problemas momentâneos; importantes, mas conjunturais, relegando a um plano praticamente invisível (ou imperceptível) as questões permanentes e definitivas, isto é, aquelas que dizem respeito ao futuro do país, às definições dos objetivos e valores do Estado e à reorganização da sociedade, sobretudo, no que se refere ao problema estrutural do fluxo da renda e das desigualdades sociais, econômicas e regionais.

            A estratégia atual do neoliberalismo político é usar a “pequena política” para consolidar o amesquinhamento do Estado, para submetê-lo inteiramente ao poder do mercado, de modo que a política, também amesquinhada, mantenha-se nos estritos limites das questões gerenciais do cotidiano, sem tocar nos problemas estruturais da “alta política”.

             Mas, há ainda um outro efeito colateral da “pequena política” em tempos de eleições. Um  efeito que decorre daqueles discursos que abusam da intriga de corredor e do falso moralismo. Esse efeito é o surgimento do ódio político. E isso é algo que parece estar ocorrendo também nas eleições presidenciais deste ano no Brasil. A disputa muito acirrada entre os dois candidatos, o moralismo exacerbado e seletivo (estimulado inclusive pela mídia), bem como um visível alinhamento do eleitorado entre “ricos” e “pobres”, são fatores que sempre favorecem o crescimento do ódio.

               Por incrível que pareça, o ódio nunca foi estranho à democracia. O filósofo Jacques Rancière diz que a democracia é um termo paradoxal e não pode deixar de suscitar o ódio (La haine de la démocratie). Assim, todo mundo elogia o tal “governo do povo, pelo povo e para o povo”, mas é só da “boca pra fora”, pois na hora de votar procura-se escolher sempre os melhores, os maiores, os “bem-nascidos” ou os “nascidos para governar”, reservando-se um ódio inexplicável à democracia e ao governo exercido diretamente pelo povo, ou por aqueles que vêm originariamente do povo.

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