Se não for golpe, é muito parecido

          A AMÉRICA LATINA sempre foi considerada pelos norte-americanos como “quintal” deles – e não como região soberana. Certa vez, o Secretário de Estado João Kerry, num discurso proferido no Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara dos Representantes em 2013, referiu-se, textualmente e sem disfarce, à América Latina como sendo  “nosso quintal” (tradução grosseira da “doutrina Monroe”), e disse ainda que era preciso aproximar-se dela “de maneira vigorosa”.

              Esse vigor com que os norte-americanos se aproximam da América Latina nós todos conhecemos bem – e às vezes como tragédia. É justamente essa “maneira vigorosa” de se aproximar dos latino-americanos que resultou em muitos golpes por aqui. Por exemplo, o golpe que derrubou João Goulart no Brasil em 1964; o golpe que matou o socialista Salvador Allende no Chile em 1973; o golpe militar da Argentina que derrubou a justicialista Isabelita Perón em 1976; o golpe que tentou derrubar e prender o bolivariano Hugo Chávez em 2002 na Venezuela; o golpe que depôs o democrata social Manuel Zelaya em Honduras no ano de 2009; o golpe que impôs o impeachment do socialista Fernando Lugo no Paraguai em 2012, e tantos outros cujo rol nem caberia aqui neste espaço.

           Todos eles têm pelos menos cinco pontos em comum: (1) são sempre golpes de direita contra governos de tendência popular-esquerdista; (2) são golpes praticados com a aquiescência ou com a participação decisiva das elites latino-americanas; (3) são golpes que utilizam o poder e a autoridade do aparelho coercitivo para garantir a “nova ordem”; (4) são golpes que utilizam a propaganda da imprensa nativa para difundir e “justificar” a ruptura; (5) e todos eles foram golpes apoiados pelos Estados Unidos da América do Norte, que pretendem exercer seu poderio na América Latina, como disse descaradamente o secretário João Kerry, de “maneira vigorosa”.

              É como diz o ditado popular: “Gato escaldado tem medo de água fria”. Por isso, já se anda desconfiando por aí que, se não for golpe o que a direita brasileira está fazendo nestas eleições presidenciais de 2014, utilizando mais uma vez a perfídia histórica da “mídia nativa”, então é algo muito parecido. De fato, ontem, quando a economia brasileira crescia em torno de inacreditáveis 7% ao ano, sob o governo Lula, a mídia brasileira dizia que o mérito desse crescimento era da conjuntura internacional favorável, que elevou o preço das commodities; hoje, quando essa conjuntura internacional é desfavorável, pois nem a economia dos Estados Unidos nem a da União Europeia conseguem crescer, diz a mídia que a culpa pelo baixo crescimento da nossa economia é da Dilma Rousseff.

          Ontem, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso criou o raquítico programa do Bolsa Escola que atendia menos de 5 milhões de pessoas, a mídia exaltava a sensibilidade social do governo tucano; hoje, quando o Bolsa Família do governo do Partido dos Trabalhadores beneficia mais de 50 milhões de brasileiros, e é reconhecido no mundo inteiro como um dos mais criativos instrumentos de distribuição de renda, diz a mídia que esse programa não passa de uma “réplica” dos programas sociais do PSDB.

               Ontem, quando a corrupção política não era sequer investigada, e os escândalos do governo do PSDB foram empurrados todos pra debaixo do tapete, a mídia brasileira não exigiu nem prisão nem o impeachment de nenhum tucano da direita; hoje, quando a Polícia Federal e o Ministério Público investigam de verdade, a mídia faz “vazar” declarações sigilosas de uma delação premiada no caso da Petrobras, apresentando as declarações de um acusado corrupto como verdade comprovada e indiscutível – e isso bem na boca das urnas do segundo turno das eleições.

          Ontem, quando as pesquisas eleitorais apontavam a vitória do senhor Fernando Henrique Cardoso nas urnas, a mídia nativa nem se preocupava com o aumento da inflação (12%), com a taxa básica de juros (23%), nem com o montante dos juros da dívida externa pagos ao FMI e outros credores internacionais; hoje, quando as pesquisas apontam o aumento das intenções de voto na presidenta Dilma Rousseff, a mídia corre a dizer, nas manchetes e nas primeiras páginas dos jornais, que o dólar subiu e a bolsa caiu.

             Ontem, quando Fernando Henrique Cardoso deixou o governo com uma inflação de 12% ao ano, a imprensa dizia que o aumento geral de preços se deu por causa da eleição do Lula; hoje, quando a inflação aumenta apenas 0,5% (dentro da meta), a imprensa diz que a economia brasileira está um caos, a inflação está fora de controle, o mundo vai acabar, e tudo por causa dos erros na política econômica de Dilma Rousseff.

           Ontem, quando tramitava a chamada ação penal 470, o tal “mensalão do PT”, a mídia transmitia o julgamento em tempo real e exigia ferozmente a condenação (e a prisão) de todos os acusados no Supremo Tribunal Federal; hoje, quando o mesmo Supremo Tribunal Federal se dá por incompetente para julgar o “mensalão tucano”, e quando as ações penais desse caso já estão prescrevendo em relação aos cardeais e aliados do tucanato (Eduardo Azeredo e Walfrido Mares Guia), a mídia fica de biquinho calado, não diz absolutamente nada sobre esse escândalo e não tem mais nenhuma indignação, nenhum “desejo de justiça e moralidade”.

             Hoje, quando os problemas de corrupção na Petrobras estão sendo, pela primeira vez, devidamente investigados pelos órgãos competentes, a mídia faz um alarde enorme sobre o “esquema do petrolão” sem sequer informar sobre a existência de provas documentais que pudessem confirmar as declarações interessadas e interesseiras de um dos réus beneficiado pela “delação premiada”; mas, essa mesma imprensa, que faz tanto alarde sobre a Petrobras, esconde que o réu Paulo Roberto Costa foi nomeado para cargo de confiança na Petrobras (Gaspetro) pelo senhor Fernando Henrique Cardoso.

            Hoje, essa mesma imprensa que denuncia um tal “aparelhamento do Estado” pelo Partido dos Trabalhadores esconde que o candidato da direita Aécio Neves patrocinou um “trenzinho da alegria” em Minas Gerais nomeando 98 mil funcionários daquele estado sem concurso público; construiu um aeroporto para seus familiares com dinheiro do erário; e enquanto governador do Estado mineiro repassou quantias exorbitantes, não contabilizadas, de dinheiro público às rádios de propriedade da sua família.

             Hoje, essa mesma mídia que trombeteia a imoralidade administrativa dos governos da esquerda brasileira, faz absoluto silêncio sobre o fato de que o candidato da direita, Aécio Neves, desde os 20 anos de idade já se beneficiava escandalosamente de nepotismo e lesava o erário público quando, mesmo morando no Rio de Janeiro, era “funcionário fantasma” do gabinete de seu próprio pai em Brasília, o então deputado Aécio Ferreira da Cunha.

              Hoje, quando até a ONU (e o munto inteiro) reconhece que os programas sociais do Partido dos Trabalhadores como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos, Cisternas no Nordeste, Aleitamento Materno, Aumento Real do Salario Mínimo e Crédito Consignado, tiraram mais de 30 milhões de brasileiros da pobreza monetária extrema (miséria), elevaram mais de 40 milhões de pessoas à chamada “nova classe média”, tirou o país do chamado “mapa da fome” (FAO), e diminuíram o índice estrutural de desigualdade social (índice de Gini), a imprensa vem dizer que tais programas são simples continuação dos programas sociais de Fernando Henrique Cardoso e que, portanto, o mérito é todo dele.

            Nesta semana houve um caso emblemático e preocupante. O jornalista e escritor Xico Sá da Folha de S. Paulo foi impedido de manifestar seu voto em Dilma Rousseff na coluna que escreve regularmente nesse jornal paulista. Inconformado com tal ato de censura, pediu demissão. Mas, as colunas de jornalistas reacionários, que representam a direita mais atrasada, como, por exemplo, os articulistas Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnoli, fazem semanalmente uma verdadeira catilinária contra a candidata Dilma Rousseff, e um verdadeiro palanque em favor do candidato da direita sem nenhuma censura por parte de seus patrões.

            É inacreditável, parece mentira, mas até o FMI já deu as caras nestas eleições de 2014, recomendando que, neste ano eleitoral e em 2015, o país tenha “disciplina fiscal” para pagar suas dívidas e manter o tal “superávit primário”, isto é, aconselhando que o Brasil não deixe de pagar juros obscenos a rentistas e especuladores. E até o condenado Roberto Jefferson, ex-líder (ou chefe) da “bancada da bala”, um dos maiores beneficiários de tudo quanto foi “mensalão” que existiu no Congresso Nacional, a imprensa foi buscar na cadeia, reabilitando-o para vir dizer publicamente, nas páginas da Folha de S. Paulo, que o escândalo da Petrobras nada mais é do que o “epílogo” do “mensalão do PT”.

             Não sei não se isso tudo não seria uma espécie de “golpe branco”. Mas tá esquisito, tá cheirando mal. A verdade é que a direita brasileira e os “donos do quintal da América Latina” não suportam a ideia de que um partido com origens populares, com raízes nos movimentos sociais, no movimento sindical e nas comunidades eclesdiais de base, possa formular um projeto de país para o Brasil e eleger, por quatro vezes consecutivas, dois presidentes da república que não sejam representantes do imperialismo ianque e das “elites nativas” – elites nativas mas historicamente antinacionais.

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4 respostas para Se não for golpe, é muito parecido

  1. Parabéns Antonio Alberto Machado, informação, análise conjuntural perfeitas.

  2. Luiz Antônio Dias de Azevedo Jr disse:

    Professor Dr. Alberto Machado, primeiramente, gostaria de externar meu orgulho de ter a oportunidade de receber suas lições na UNESP. O senhor engrandece a instituição e colabora decisivamente para a nossa formação.
    Quanto à sua bela postagem, tenho que dizer que ela traz informações óbvias. Os fatos narrados são claros e qualquer cidadão pode comprová-los pela simples observação da história recente. Parece-me, no entanto, que a nossa elite – que deveria, sim, conduzir o país ao caminho do desenvolvimento – não enxerga que não há mais caminho algum ao Capitalismo que não seja distribuir renda e incluir os mais pobres no mercado de consumo. É por isso que o Brasil cresceu mais nos governos petistas: a grande valorização da renda das classes mais baixas, deu suporte ao crescimento robusto do PIB. Vejamos outro exemplo: o escudo da economia brasileira frente à grave crise internacional que já dura 6 anos, tem sido a construção civil através do Minha Casa Minha Vida e da drástica redução das taxas de juros de financiamento habitacional. Por que não se enxerga o óbvio?

    • Caro Luiz Antônio,

      Agradeço a sua visita ao blog e a generosidade das suas palavras. Compartilho o seu diagnóstico e espero contar com novas intervenções como essa.

      Abraço, Machado

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