Dilma, Aécio e o papel do Estado

            NO SEGUNDO turno das eleições presidenciais de 2014 os brasileiros deverão escolher entre a presidenta Dilma Rousseff e seu opositor Aécio Neves. São dois bons candidatos. Porém, antes de optar por esta ou por aquela candidatura, antes de escolher o candidato ou a candidata preferida, enfim, antes de definir o voto neste ou naquele postulante à presidência da república, parece-me prudente (aliás, muito prudente) que os brasileiros definam o critério ou critérios que utilizarão para eleger seu chefe de Estado.

            Dizem que há, fundamentalmente, três tipos de eleitores: aqueles que votam segundo critérios ideológicos, ou seja, segundo suas próprias convicções políticas e os valores coletivos que defendem; aqueles que votam por razões puramente fisiológicas, isto é, que escolhem seus candidatos de acordo com as vantagens e benefícios pessoais que poderão obter votando assim ou assado; e, finalmente, os que votam ao sabor da ocasião, sem critério algum, sem nenhum compromisso e sem nenhuma consciência política – ou seja, aqueles que compõem o chamado lúmpen e que apenas “votam por votar”.

            É muito difícil definir critérios de escolha de candidatos quando os  programas deles, os discursos, as intenções e as promessas são tão parecidos, quase indistinguíveis. E a bem dizer, bem feitas as contas, é mais ou menos isso o que vem ocorrendo com as políticas econômicas e os programas sociais defendidos pelos dois candidatos que foram para o segundo turno das eleições presidenciais.

        Com efeito, enquanto a candidata Dilma Rousseff garante que sua política macroeconômica está no caminho certo, necessitando apenas de alguns reajustes por causa da difícil conjuntura internacional, seu opositor Aécio Neves jura que a política econômica brasileira está completamente errada, precisa mudar de rumo para propiciar o crescimento do Brasil – mas não aponta nenhum caminho novo, nem concreto, para a mudança no campo econômico, repetindo apenas o estribilho voluntarista de que “vai fazer o Brasil crescer a qualquer custo” .

            A presidenta Dilma Rousseff assegura que suas políticas sociais são um verdadeiro sucesso, jura que elas mudaram a face do Brasil e até diminuíram a desigualdade histórica entre os brasileiros, tirando mais de 30 milhões de pessoas da pobreza extrema. O candidato Aécio Neves concorda com tudo isso, promete manter e até aprofundar os programas sociais da presidenta petista, sustentando inclusive que tais programas deveriam ser uma “política de Estado”, e não simplesmente “políticas de governo”.

        Não há, portanto, grande diferença entre um e outro nesses temas centrais da campanha. E para complicar mais ainda, quando os candidatos se metem a discutir políticas e propostas, quando querem mostrar as reais diferenças de seus programas, quase sempre o fazem por meio de uma linguagem muito tecnocrática, por meio de um “economês” inacessível aos simples mortais e atormentam o eleitor com questões incompreensíveis tais como “superávit primário”, “apreciação cambial”, “metas de inflação”, “serviço da dívida pública”, “taxa básica e alongada de juros”, “reajustes fiscais” e quejandos.

            Dessa forma, o eleitorado fica um pouco perdido, perde os critérios de diferenciação e de escolha na hora de votar. Por isso, muitas vezes acaba optando com base em critérios irracionais como, por exemplo: mera simpatia pessoal, aparência física ou retórica política do candidato; outras vezes acaba votando impulsionado por simples preconceito, pela informação distorcida, por alguma idiossincrasia qualquer, ou até mesmo por puro moralismo enviesado, manipulado todo dia pela mídia interesseira – um moralismo tosco que serviria para atacar igualmente os partidos dos dois postulantes ao Palácio do Planalto.

        Em razão disso tudo, neste segundo turno das eleições para a presidência da república, parece importante ter algum cuidado não apenas com as pessoas dos candidatos (ambos parecem ser boas pessoas), mas, isto sim, um cuidado especial para com os critérios políticos de escolha dos presidenciáveis. E um desses critérios, verdadeiro “divisor de águas”, talvez seja a concepção acerca do “papel do Estado” que cada um deles tem em suas propostas, ou seja, aquilo que cada um dos candidatos entende que deva ser a tarefa, o perfil ou as finalidades do Estado que pretende chefiar.

             Neste país de muita precariedade dos direitos básicos, de profundas desigualdades sociais, de péssima distribuição de renda e de enormes carências socioeconômicas por parte da maioria do povo brasileiro, talvez fosse necessário desconfiar de candidatos que pregam o “Estado-mínimo”, a “completa liberdade de mercado” e a “gestão neoliberal da economia”. Os brasileiros deveriam ficar atentos para essas coisas, pois os dois candidatos que se lançaram ao segundo turno das eleições presidenciais parecem ter diferenças bem nítidas é justamente nesse campo; têm concepções muito diversas a respeito dessa questão fundamental que é o “papel ou a função do Estado”, e não apenas as funções de governo.

             É óbvio que seria papel dos partidos políticos, dos próprios candidatos e também de uma imprensa imparcial e decente esclarecer ou conscientizar o povo brasileiro de que, neste segundo turno da eleição presidencial, acima de tudo, estarão claramente em jogo duas concepções ou dois modelos de Estado bem distintos: Estado-mínimo versus Estado-provedor. Essa é na verdade a grande decisão que os brasileiros terão de tomar nas urnas. Com a palavra, a soberania popular!

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s