O socialismo morreu mesmo?

           A UTOPIA socialista e suas reivindicações históricas foram fundamentais para muitas conquistas da classe trabalhadora, tais como a definição da jornada de trabalho, a fixação legal do valor dos salários, a previsão dos períodos de descanso e das férias remuneradas, a segurança no trabalho, o direito à previdência etc. Dessa forma, o socialismo teria servido, no mínimo, para tornar o modo de produção capitalista mais civilizado e menos selvagem; ou, como dizem aqueles otimistas de sempre: serviu para tornar o capitalismo “mais humano” e menos explorador, menos injusto.

              Desde meados do século XIX, com a publicação do Manifesto Comunista de Engels e Marx (1848), o socialismo se constituiu num ideário e num movimento que passou a reivindicar a igualdade material entre todas as pessoas, o fim da opressão e da exploração de classe, o fim da iníqua divisão social do trabalho, a divisão equitativa da produção social, o aprofundamento dos direitos humanos, o respeito à natureza e a superação das sociedades de classes e de castas.

             Todavia, após o tão festejado “colapso” das economias socialistas do Leste Europeu e da antiga União Soviética (URSS), simbolizado na igualmente festejada “queda do muro de Berlim”, muitos políticos liberais, economistas, sociólogos, homens de ciência e, enfim, os “entendidos” de todo naipe, se apressaram a trombetear a “morte do socialismo real” e o triunfo incontestável do modelo capitalista de produção. A euforia foi tanta que alguns dos mais “entendidos” chegaram até a proclamar o “fim da história” – como foi o caso do intelectual nipo-americano Francis Fukuyama.

             Nesse contexto, a imprensa burguesa fez a sua parte, fez o seu papel direitinho, isto é, divulgou e continua divulgando todo santo dia o tal “fracasso do socialismo”, e as consequentes vantagens (“indiscutíveis”) da sociedade capitalista. A propaganda foi tanta e tão feroz que hoje ficou muito difícil defender os ideais socialistas onde quer que seja – na academia, nas ruas, nos lares ou nos bares. Dessa forma, acabou triunfando uma espécie de pensamento único, no sentido de que “o socialismo está morto e não há vida fora do capitalismo”.

           Nestes tempos pós-modernos de “pensamento único”, portanto, parece que ficou proibido pensar! Todavia, se está mesmo proibido pensar, talvez então se possa ao menos perguntar. Assim, a pós-modernidade que já não se interroga mais (Bauman), que anda tão rapidamente e não se permite sequer um tempo para a reflexão, poderia pelo menos fazer a si própria duas indagações tão inoportunas quanto necessárias.

          A primeira: será que o socialismo da União Soviética e do Leste Europeu, no momento em que “desmoronou”, era ainda um sistema socialista ou era na verdade uma espécie de capitalismo de Estado? Essa pergunta tem sentido porque um sistema socialista verdadeiro supõe a propriedade ou controle popular dos meios de produção, e nos países do chamado “socialismo burocrático” a propriedade desses meios não era controlada pelo povo, era propriedade meramente estatal. Havia lá divisão e exploração de classes, ou seja, a nomenclatura burocrática (proprietária dos meios de produção) explorava a classe trabalhadora (expropriada dos meios produtivos).

            A segunda: será que as economias do “socialismo real” fracassaram porque nenhuma economia pode ser planejada e dirigida, devendo submeter-se mesmo à liberdade absoluta do mercado, ou será que foi o imperialismo ianque-europeu, com os seus embargos econômicos e seus canhões, que triunfou impondo um modelo geopolítico unipolar ao planeta, sob a liderança norte-americana? Essa pergunta também tem razão de ser porque a OTAN, a União Europeia e os EUA arrasaram pela guerra a Iugoslávia socialista, pressionaram a abertura econômica de Mikhail Gorbachev (Glasnost/Perestroika) e o governo ultraliberal de Bóris Yeltsin na antiga União Soviética, e cooptaram até um sindicalista presunçoso e pelego (Lech Walesa) para defender os mercados autorregulados e abrir a economia da Polônia ao sistema-mundo do capitalismo ocidental.

               Em suma, apesar da arrogância do “pensamento único”, que já sentenciou a “morte da utopia socialista”, não está bem claro (1) se o “socialismo real” morreu na Europa do Leste porque as economias planejadas não funcionam mesmo; (2) se ele não sobreviveu porque foi implantado numa região de industrialização atrasada sem proletariado forte; (3) se ele foi estrangulado pela violência do imperialismo ianque-europeu, que isolou e combateu os países socialistas na época da Guerra Fria, ou se, na verdade, (4) nunca houve um socialismo autêntico no Leste Europeu, pois nos países daquela região acabou predominando uma espécie de “capitalismo de Estado”.

            São quatro leituras possíveis, por que não? E quem poderia explicá-las? Certamente que não serão os intelectuais da direita nem os propagandistas da burguesia, pois uns e outros, que costumam ganhar a vida vendendo a consciência, estão absolutamente convencidos de que o capitalismo é o “melhor dos mundos” – mesmo depois desse sistema ter feito duas Grandes Guerras mundiais, de ter lançado dois terços da população do planeta na miséria e na pobreza, de ter degradado o meio ambiente de forma irresponsável, de ter disseminado a corrupção política no mundo inteiro, e de continuar explorando o homem sem piedade; tudo em nome do lucro e da acumulação gananciosa.

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