Marina por Marina

           A CANDIDATA Marina Silva entrou na eleição presidencial de 2014 como um verdadeiro furacão; uma tsunami eleitoral. Pois assim que assumiu o lugar de Eduardo Campos na chapa do PSB ultrapassou imediatamente a presidenta Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto, desbancou sem piedade o candidato da direita Aécio Neves, e se constituiu na franca favorita – aparentemente imbatível – para vencer a eleição de outubro também no segundo turno.

           A candidata do PSB encantou a direita que viu nela um estratégico “desvio à esquerda” para retomar o poder; a mídia reacionária acolheu meio ressabiada a “esquerdista sonhática”; o antipetismo enxergou na Marina Silva uma oportunidade de tirar o Partido dos Trabalhadores do governo depois de 12 anos no Planalto; uma parcela das classes inferiores identificou-se pessoalmente com a candidata, que nasceu pobre num seringal do Acre; e o eleitorado conservador, sobretudo aquele mais sensível à causa ambiental, finalmente tinha encontrado a representante ideal para varrer o lulopetismo.

                 Foi dessa maneira que Marina Silva virou quase um mito. Alguém acima do bem e do mal, um “anjo” capaz de encantar todo o mundo: pobres e ricos, banqueiros e bancários, conservadores e progressistas, a esquerda e a direita. Ela própria, provavelmente porque se sentia a síntese perfeita da política brasileira – a encarnação do que chamou de “nova política” -, andou dizendo por aí que desejava unir os arquirrivais PT e PSDB para governar junto com “os melhores quadros” de ambos os partidos.

             Iniciou-se a campanha eleitoral. Os candidatos se apresentaram ao eleitorado expondo suas trajetórias, ideias, propostas, programas e opiniões. Veio a realidade difícil e pantanosa dos debates, dos embates e das acusações recíprocas. E como nenhum mito resiste à realidade, o mito Marina Silva também não resistiu ao efeito corrosivo daquilo que a sabedoria popular chama de “um dia após o outro”; sua nova versão política não resistiu aos fatos.

              O eleitorado conheceu então a trajetória de Marina Silva. Ficou sabendo que ela pertencia à facção Partido Revolucionário Comunista (sob a liderança de José Genoíno) e depois filiou-se ao PT nos anos 80, sob a liderança de Lula; saiu do PT e passou para o PV; ainda no PV, tentou fundar um partido que fosse somente seu (Rede Sustentabilidade), mas acabou no PSB; rejeitada internamente por esse partido, seu passado indica que ela ainda sairá para filiar-se a uma nova agremiação partidária. Qual?

             O eleitorado conhecia a seringueira pobre; que foi alfabetizada aos 16 anos de idade; que contraiu malária; que passou fome, e que lutava bravamente ao lado de Chico Mendes contra os desmatadores e o agronegócio. Mas hoje, esse mesmo eleitorado conhece a ex-seringueira que dá palestra no circuito financeiro de Nova Iorque e é recebida no palácio da realeza britânica; que anda pra cima e pra baixo com socialites, banqueiros e banqueiras; que compõe chapa ao lado de um candidato patrocinado pelo agronegócio; e que pretende até entregar os instrumentos de política monetária, de câmbio e de juros ao comando do mercado.

            O eleitorado conhecia uma Marina Silva que sempre defendeu a expansão do Estado; a intervenção estatal no jogo econômico; a garantia dos direitos básicos; e um modelo de Estado do Bem-estar Social. Mas hoje, esse mesmo eleitorado conhece uma Marina Silva que se cerca de economistas conservadores como Eduardo Gianetti e André Lara Resende, isto é, dois homens que pregam por aí o Estado-mínimo e outras baboseiras neoliberais; o eleitorado conhece agora uma Marina Silva que se rende ao neoliberalismo, a ponto de propor a independência do Banco Central; e que fala até mesmo num “grande reajuste fiscal”, ou seja, num “corte de gastos sociais” que até hoje só penalizou o trabalhador brasileiro.

               O eleitorado conhecia a Marina Silva que integrou o Partido dos Trabalhadores por mais de vinte anos; que fundou a Central Única dos Trabalhadores no Acre (CUT), e que defendeu até ontem os direitos da classe trabalhadora. Mas, esse mesmo eleitorado está conhecendo agora uma Marina Silva que fala em modificação dos direitos trabalhistas e “modernização da Consolidação das Leis do Trabalho” (CLT), de modo que os empresários possam ter clareza e segurança nas relações trabalho/capital.

             O eleitorado brasileiro conhecia uma Marina Silva católica, tão fervorosamente católica que chegou a iniciar seus estudos para se tornar freira; mas hoje, o eleitorado conhece uma candidata evangélica que pertence à igreja Assembleia de Deus. Não há nenhum mal nisso, a liberdade de crença é um direito fundamental, todavia, é certo que, por razões religiosas e pela pressão de um pastor evangélico, a candidata retirou de seu programa a defesa da união homoafetiva, a defesa do aborto e a criminalização da homofobia.

             Por fim, o eleitorado brasileiro conheceu uma candidata que, num dos últimos debates televisivos, disse ter votado a favor da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), um tributo que proporcionava a aplicação de 50 bilhões de reais por ano na saúde; porém, a verdade é que a candidata Marina Silva, como senadora, votou duas vezes contra esse tributo que atendia aos interesses dos pobres usuários do SUS.

               Em suma, e com perdão da paródia tão previsível quanto irresistível, “Desculpe Marina morena, mas você se despintou“. Não vale agora ficar dizendo que a campanha dos adversários é muito agressiva, que a candidata do PSB está sendo vítima de uma “desconstrução” sórdida e enganosa por parte dos concorrentes, ou que a culpa pela sua vertiginosa desmitificação/desmistificação é pura astúcia de marqueteiro político – Marina se desfez por si mesma.

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