Ninguém fala do Chile?

          NESTE ano ocorreram mais de trinta explosões e atentados no Chile, todos eles atribuídos a “grupos terroristas”. A última explosão ocorreu em Santiago, na madrugada do dia 25 de setembro, e deixou um homem morto. As autoridades não conseguem explicar o porquê desses “atentados terroristas”, uma vez que não consta a existência de grupos armados no Chile nem tampouco qualquer relação do país com grupos ou causas do terrorismo internacional.

         Além dos atentados, é fato também que os estudantes chilenos estão nas ruas, mobilizados em enormes protestos contra a política educacional do país vizinho. As reivindicações dos estudantes incorporaram outras pautas da população, especialmente a agenda ligada à melhoria dos serviços públicos, à nacionalização do cobre e às políticas de saúde, previdência e moradia popular.

            Mas é esquisito como as mídias, brasileira e internacional, que não se cansam de mostrar os problemas da Venezuela, escondem os problemas do Chile! Por que é que os brasileiros, por exemplo, conhecem tanto as mazelas do povo venezuelano e os “desmandos do chavismo”, a ponto de odiarem Hugo Chávez, mas não conhecem nada sobre as dificuldades e as reações violentas do povo chileno, nem sobre as “estrepolias neoliberais” dos ex-presidentes Ricardo Lagos e Sebastián Piñera?

            É que o Chile se transformou no “queridinho” da mídia conservadora e burguesa porque os governos de direita nesse país andino, desde os tempos de Pinochet com os “chicago-boys” nos anos 1970, sempre se submeteram obedientemente aos interesses e às ordens dos Estados Unidos, do “Consenso de Washington” e do neoliberalismo; sempre se submeteu à “bíblia” que endeusou o “mercado livre” e devastou os direitos sociais na América Latina.

          Aliás, Chile, México, Colômbia e Peru, que fundaram a chamada “Aliança do Pacífico” sob a influência (ou sob o comando) dos norte-americanos para enfraquecer o Mercosul,  a Celac e a Unasul, são os grandes “queridinhos” da mídia conservadora – os grandes exemplos de política econômica bem-sucedida; porque bem alinhada aos interesses do Norte imperialista.

               O Chile é frequentemente apresentado como um verdadeiro sucesso das políticas neoliberais de mercado. Ou seja, escancarou sua economia ao capital estrangeiro; abandonou a indústria nacional insistindo no extrativismo primário da exportação de commodities; desnacionalizou o cobre chileno cuja reserva representa 1/3 das reservas mundiais; privatizou empresas estatais e bancos públicos; e chegou mesmo a privatizar completamente os direitos fundamentais à saúde, à educação superior, à moradia e previdência social.

             Tudo isso ficou entregue ao “livre jogo do mercado”, cujo objetivo central não é assegurar os direitos de ninguém, pois os objetivos do mercado são confessadamente apenas o lucro e a acumulação. Assim, quando direitos fundamentais viram “mercadorias”, dessas que se adquirem no próprio mercado, apenas os “cidadãos consumidores” é que terão tais direitos atendidos. Os demais, isto é, os pobres, os excluídos e miseráveis, que nada podem comprar, serão sempre uma espécie de peso-morto para o neoliberalismo mercantilista e seus comparsas.

              É por isso que o povo chileno já disse “não” às políticas neoliberais elegendo duas vezes a socialista Michelle Bachelet – que pouco tem conseguido fazer; é por isso que esse mesmo povo está protestando nas ruas, junto com o movimento estudantil, contra as consequências do neoliberalismo; e é certamente por essas mesmas razões que dezenas de bombas já explodiram no Chile junto com os protestos populares.

           Agora, depois de apresentar a economia chilena neoliberal como um “primor de política macroeconômica”, depois de apontar o Chile como modelo a ser seguido pelos demais países da Latino América, a mídia conservadora e seus “economistas midiáticos”, do Brasil e do exterior, têm de “enfiar a viola no saco” e fazer muita ginástica para esconder a frustração do povo chileno, as bombas e o estridente fracasso das políticas neoliberais naquele país.

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