Samba de uma nota só

        O BRASIL não está mais no chamado “mapa da fome”. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o país acaba de superar uma de suas piores vergonhas – a fome. Esse órgão da ONU atestou que apenas 1,7% dos brasileiros ainda estão mergulhados na miséria absoluta, sem ter o que comer. A FAO reconhece também que o Brasil superou o problema da insegurança alimentar por força dos programas sociais bem-sucedidos do governo brasileiro na última década.

          É curioso que a imprensa brasileira noticiou essa realização histórica de uma maneira bem discreta, enfiada no meio de outras notícias ou matérias jornalísticas, sem destaque nenhum, quase em segredo. Esse fato, portanto, não mereceu manchetes nos grandes jornais nem foi matéria de capa nas grandes revistas do país, pois isso poderia soar como reconhecimento e divulgação de mais uma das conquistas do lulismo – coisa que a mídia burguesa não admite nem a pau.

          Foi assim também com outras realizações dos governos petistas. A imprensa brasileira nunca deu destaque para o fato de que, na última década, 30 milhões de brasileiros saíram da miséria absoluta (os que vivem com menos de 1 dólar por dia); o país diminuiu a pobreza em 75% (os pobres que ascenderam à chamada “nova classe média”); o Brasil passou a viver numa situação de pleno emprego (menos de 5% de desempregados); o crescimento do PIB brasileiro atingiu o patamar dos países desenvolvidos e nos colocou no posto de 7ª economia do mundo; a distribuição de renda melhorou a ponto de ter impacto no rígido índice de Gini, rebaixando-o para históricos 0,495; e tantos outros avanços no campo socioeconômico que não caberia mencionar aqui.

            No plano internacional, a imprensa brasileira jamais deu destaque à política multilateral do Brasil, que estabeleceu importantes interlocuções (inclusive comerciais) com a América Latina, com a Ásia e com a África, fundando até o Banco dos Brics e rompendo com a subordinação unilateral do país aos Estados Unidos. Aliás, nesse campo da política externa, foi sugestiva aquela frase do compositor Chico Buarque quando disse que está gostando de ver o Brasil “falar grosso com os Estados Unidos ao mesmo tempo em que fala fino com a Bolívia”.

             Mas, as políticas do lulismo e os governos do Partido dos Trabalhadores também têm problemas. Por exemplo, o lulismo não avançou nada com a reforma agrária; o governo do Partido dos Trabalhadores não reprimiu, mas praticamente ignorou os movimentos sociais;  o atual governo aprovou um Código Florestal que favorece o desmatamento, desprotege nossos recursos naturais e privilegia o agronegócio; o governo do PT tem mantido a taxa básica de juros em padrões muito elevados (Selic a 11%) favorecendo o lucro dos bancos e do capital especulativo; o governo petista jamais enfrentou o oligopólio dos meios de comunicação de massas; o petismo pouco avançou com a demarcação de terras indígenas e quilombolas, e muitos outros problemas que também não caberia arrolar aqui.

             O engraçado é que sobre esses problemas reais dos governos petistas, sobre essas “fraquezas” do lulismo, a imprensa brasileira não fala nada. E não fala porque não pode, porque não tem coragem, pois essas coisas, que o PT deveria ter feito e não fez, se as fizesse teria contrariado os interesses da alta burguesia que a mídia representa, e da própria mídia. Quer dizer, a imprensa não informa adequadamente o povo brasileiro sobre os verdadeiros problemas dos governos petistas e fica batendo nesse “samba de uma nota só” que é a corrupção.

             Claro que há corrupção nos governos e claro que ela deve ser apurada (aliás, como tem ocorrido nos últimos anos), mas esse problema é antigo, vem desde a origem do nosso estado patrimonialista na República Velha, continuou na República Nova, persistiu no regime militar, prosseguiu com Fernando Collor e se aperfeiçoou com o outro Fernando – o príncipe tucano. A corrupção, portanto, não é propriamente uma especificidade do Partido dos Trabalhadores como quer fazer crer a imprensa burguesa no Brasil em vésperas de eleição.

              Os dois casos de corrupção mais rumorosos no momento são o “Mensalão do PT” e o “aparelhamento da Petrobras”. Pois bem, vejam como esses problemas vêm de longe e nem de longe são uma criação do petismo, como dizem a imprensa e a direita que querem apear do poder, a qualquer custo, um partido de extração popular, com origem nos movimentos sociais e na classe trabalhadora.

           Vejamos o mensalão. Esse esquema nasceu em Minas Gerais para eleger um dos caciques tucanos, o então candidato a governador Eduardo Azeredo. Nessa época, Aécio Neves era governador e o seu vice era o senador Clésio Andrade, que era sócio de Marcos Valério na empresa de publicidade utilizada como “lavanderia”. Esse mesmo esquema de compra de votos funcionou descaradamente (e comprovadamente) para “comprar” a reeleição do tucano FHC e para arquivar as CPIs da privataria desse mesmo presidente tucano. Será preciso dizer alguma coisa mais?

           E o aparelhamento da Petrobras? Isso começou com a quebra do monopólio da empresa pelo tucano FHC, que entregou aos estrangeiros o direito de explorar 100% do petróleo brasileiro mediante simples pagamento de royalties; o mesmo FHC nomeou o senhor Paulo Roberto Costa para vários cargos de confiança na empresa desde 1996; depois veio a desmoralização/desvalorização da estatal com a suspeita de sabotagem na plataforma P-36 da Bacia de Campos, provocando um acidente que matou 11 pessoas e jogou no mar 350 milhões de dólares em 2001; em seguida tentou-se mudar o nome da Petrobras para Petrobrax, com o confessado propósito de privatizar a empresa brasileira.

            E tudo isso, convpem destacar, quando o presidente da Petrobras era um gringo: Henry Reichstul, executivo francês. E o diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) era nada mais nada menos do que David Zylbersztajn, GENRO DO PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. Precisa dizer mais alguma coisa? A nossa Petrobras só não foi para o beleléu no governo de FHC por puro milagre – e pela resistência histórica dos nossos petroleiros.

           O problema dessa campanha moralista desencadeada pela imprensa burguesa no Brasil é que ela, além de desinformar, desencadeia o ódio político e o ódio de classe. E todo ódio, como se sabe, é cego. Assim, o grande perigo é que a campanha eleitoral e o debate político no Brasil deste ano se desenvolvam, mais uma vez, mergulhados na cegueira e na desinformação. Não é apenas com esse moralismo míope, hipócrita e tipicamente pequeno-burguês – nem com esse simplório “samba de uma nota só” – que alguém conseguirá governar um país de dimensões continentais, tão diverso e tão complexo como o Brasil!

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2 respostas para Samba de uma nota só

  1. Henrique Taufic Pinto disse:

    Muito esclarecedor e ponderado. Estou citando e disseminando bastante esse artigo, porque ele chama até mesmo os conservadores para o debate. Aqui em São José do Rio Preto, onde reina o PSDBismo, tem me servido de bom escudo, professor. Abraço

    • Caro Henrique,

      Fico honrado com a leitura do blog e especialmente motivado por suas palavras. É realmente gratificante poder colaborar, embora modestamente, com as suas reflexões e o seu debate.

      Aceite um forte abraço, Antônio Alberto Machado

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